Protestos em Baltimore: racismo e desigualdade social

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06 Maio 2015

Uma sensação de calmaria, se não de normalidade, voltou a Baltimore – cidade mais populosa do estado de Maryland, EUA – nos dias seguintes aos protestos decorrentes da morte de Freddie Gray, jovem negro de 25 anos que faleceu sob custódia da polícia após sofrer uma fratura na espinha dorsal no começo do mês.

A reportagem é de Vinnie Rotondaro, publicada no sítio National Catholic Reporter, 02-05-2015.
A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Na quarta-feira, jornalistas e outros profissionais de imprensa foram até a vizinhança empobrecida de Sandtown-Winchester, onde Gray morava. Uma cena surreal, com repórteres bem vestidos numa paisagem marcada por construções reforçadas contra invasões, e cidadãos locais desempregados, olhando de longe, sentados nas paradas ou de pés nas esquinas e nas ruas. Era a primeira vez, em anos, que a imprensa prestava alguma atenção a esta comunidade afro-americana ou aos seus problemas.

Não muito longe, soldados na Guarda Nacional armados permaneciam a postos do lado de fora da delegacia de polícia, para onde Gray – que, segundo a polícia, havia sido preso por portar um canivete – foi transportado em um camburão e encontrado inconsciente.

Na sequência das mortes de Trayvon Martin e Michael Brown, bem como de muitas outras pessoas de cor desarmadas que perderam suas vidas nas mãos daqueles que deveriam fazer valer a lei, estes protestos de Baltimore marcaram um outro incidente da ira de uma comunidade afro-americana que se transformou em violência.

No entanto, para dois católicos baltimores que trabalharam por muito tempo entre os marginalizados da cidade, as origens desta ira vão além de uma mera questão de raça. Eles pintam um quadro de dificuldades e exclusão que vai além da narrativa da mídia sobre jovens negros que sofrem com a brutalidade policial.

O racismo declarado “está muito melhor do que costumava ser aqui, e acho que o mesmo acontece na maior parte das outras cidades”, disse o Pe. Richard Lawrence, morador de Baltimore há cinco gerações, atuando desde 1973 na St. Vincent de Paul Church, a paróquia mais antiga da cidade.

“Há muito poucos racistas declarados na polícia atualmente”, disse ele. “Já faz muito tempo que este é um comportamento inaceitável, e a maioria [dos policiais racistas] foram eliminados da corporação. Mas ainda há aquele sentimento de que eles são as tropas romanas em Jerusalém, os agentes do poder ocupante. E, dependendo do ponto de vista, isso é bem verdade”.

“É um classimo”, declarou Brendan Walsh, da Viva House, onde funciona a sede de uma organização chamada Baltimore Catholic Worker, bem próximo da comunidade de Sandtown-Winchester. “Sabe daquela história sobre os 1% contra os 99%? Então, neste caso aqui, estamos falando sobre pessoas que se encontram muito abaixo da linha de pobreza. A situação aqui é particularmente complicada”.

Ao explicar a situação, Lawrence e Walsh falaram do declínio na qualidade e quantidade dos empregos.

“Quando começamos o projeto Viva House”, que promove um sopão para a vizinhança e que recebeu destaque na série “The Wire”, do canal HBO – o qual dramatizava muitos dos problemas persistentes em Baltimore –, “víamos as pessoas descer as ruas para ir ao trabalho de manhã”, disse Walsh.

Existia muito trabalho nas fábricas; muitos trabalhavam na Bethlehem Steel, empresa que contratava cerca de 40 mil pessoas, segundo Walsh. “Havia um lugar chamado Coopers. A rede Montgomery Ward tinha a maior loja de catálogos do litoral leste aqui na cidade. Havia algumas fábricas de capas de chuva”.

Hoje, tudo isso se foi. Como resultado, um número desproporcional de jovens negros carece de trabalho, afirma Lawrence.

“Há muitos motivos para esta situação”, disse ele, “a mais básica sendo a de que os seres humanos são, cada vez mais, desnecessários”.

“Não se trata apenas de criar empregos na China em detrimento dos nossos aqui”, continuou. “Tem a ver com transformar as coisas que uma pessoa faz em algo que uma máquina pode fazer”.

Antero Pietila, que trabalhou no jornal Sun, de Baltimore, autor do livro “Not in My Neighborhood: How Bigotry Shaped a Great American City”, disse que os efeitos que se deram após algumas políticas municipais discriminatórias podem ter resultado num declínio exacerbado sobre muitos dos cidadãos negros baltimores.

“Em 1910, Baltimore se tornou a primeira cidade americana a exigir que todos os blocos residenciais estivessem segregados pela raça”, disse. “E entre 1935 e 1937, aproximadamente 300 cidades americanas foram demarcadas pela Home Owners’ Loan Corporation”, empresa estatal criada como parte do New Deal. Esta “demarcação” aqui se refere à prática de usar a raça e a etnia para se determinar a elegibilidade para hipoteca em vizinhanças específicas.

A cidade de Baltimore estava entre as cidades assim demarcadas. Os mapas criavam um “sistema dualista de hipoteca”, disse Pietila: “um índice para brancos – basicamente – e outro para as minorias”.

Isso, combinado com a perda populacional histórica após a Segunda Guerra Mundial, com a destruição de muitas instalações habitacionais públicas, com a entrada em massa de pessoas e o êxodo da Igreja Católica local (três paróquias fecharam na região), criou um povo abandonado, com vizinhanças como a do Freddie Gray, disse Walsh.

Mesmo uma iniciativa comunitária de 130 milhões de dólares, realizada em meados da década de 1990 com financiamento público e privado, não conseguiu resolver os problemas da comunidade.
“Há todo um grupo de pessoas que não têm nada para fazer”, disse Walsh. “E é aí onde as drogas entraram”.

Baltimore sempre teve um problema envolvendo narcóticos, segundo Walsh, em particular a heroína. “Mas quando chegou o crack, na década de 1990, este problema alcançou um nível brutal aqui”.

Os assassinatos abundavam, e a polícia respondia “agindo com brutalidade”.

Quando o ex-prefeito de Baltimore e candidato potencial à presidência Martin O’Malley introduziu um sistema de tolerância zero na cidade, disse Walsh, “víamos literalmente policiais saltarem dos carros de patrulha e forçar os moradores contra os muros”.

“Víamos meninos de rua tendo que baixar as calças em pela luz do dia enquanto os policiais os abordavam”, disse. “E por coisas minúsculas, as autoridades traziam o camburão e colocavam pilhas de pessoas na parte de trás”.

Um círculo vicioso – às vezes mortal – entre policiais e meninos de rua se desenvolveu na cidade.
O comércio de narcóticos floresceu porque, segundo Lawrence, era uma “alternativa” às pessoas que haviam sido abandonadas.

“Era possível fazer dinheiro aí”, disse ele. “Você não iria durar muito tempo, mas se tivesse empenho, faria um bom dinheiro. Havia bastante dinheiro envolvido com as drogas”. Porém, este negócio acabou virando um “crime organizado”, completou, acrescentando que este é “a maior fonte da violência na cidade de Baltimore atualmente”.

“Há uma luta por pontos de drogadição, e já que estamos diante de uma guerra contra as drogas”, disse, “iremos ter de prender todo mundo praticamente. E as pessoas mais fáceis de serem pegas, evidentemente, são aquelas que lidam com as drogas no nível das ruas (...) e isso quer dizer que ele jamais vai conseguir um emprego, durante o resto de sua vida”.

“Estas pessoas estão marginalizadas em nossa sociedade”, disse Lawrence. “São pessoas que foram forçadas para fora dela, estão completamente desiludidas, frustradas com o mundo”.

Este jogo vem acontecendo há muitos e muitos anos, disseram Walsh e Lawrence, os quais tiveram nos protestos que irromperam em 1968 na cidade de Baltimore.

“As coisas vão ter que mudar”, falou Lawrence. “Não podemos simplesmente jogar alguém para dentro de um camburão e colocá-lo na cadeia”.

“Quando se é branco e a polícia o leva preso, não é a mesma coisa”, disse Walsh. “Temos que admitir isso”.

Mesmo assim, Walsh disse acreditar que há mais coisas que explicam a atual situação: a violência e a raiva vistas em Baltimore têm, também, origem na “desigualdade”.

Um retrato de Malcom X encontra-se pendurado atrás deste entrevistado enquanto ele falava na sala de jantar do projeto Viva House, onde ele [Walsh] e sua esposa alimentaram inúmeros desabrigados e trabalhadores baltimores ao longo dos anos. O retrato tem uma citação:

“Acredito que haverá finalmente um confronto entre os oprimidos e os opressores. Acredito que haverá um confronto entre os que querem liberdade, justiça e igualdade para todos e aqueles que querem continuar com o sistema de exploração. Acredito que haverá esse tipo de confronto, mas eu não acho que vai ser com base na cor da pele”.

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