Cinco razões pelas quais o Papa escolheu visitar o Paraguai

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Por: Jonas | 05 Maio 2015

Muitos observadores internacionais ficam surpresos pelo fato do papa Francisco ter escolhido o Paraguai como um dos três países latino-americanos que visitará no próximo mês de julho, junto ao Equador e Bolívia, em sua primeira viagem apostólica pelo continente, inclusive antes de visitar sua própria pátria, Argentina, e se perguntam quais são as razões desta preferência.

A reportagem é de Andrés Colmán Gutierrez, publicada por Ultima Hora, 02-05-2015. A tradução é do Cepat.

Até agora, desde que foi eleito Papa, no dia 13 de março de 2013, o argentino Jorge Bergoglio só viajou para o Brasil, na América Latina, para participar da Jornada Mundial da Juventude, que foi realizada no Rio de Janeiro, em julho de 2013.

O próprio Papa foi claro de que ainda não visitará a Argentina, nem sequer em 2016, por “questões de agenda”, ainda que o principal propósito aparentemente seja o de não interferir na dinâmica da política interna de seu país, a propósito das eleições gerais que ocorrerão no próximo dia 25 de outubro.

Oficialmente, não foram comunicadas as razões pelas quais o Papa escolheu visitar o Paraguai primeiro, mas é factível reconstruir a partir de sua própria biografia os principais elementos históricos e afetivos que o ligam a esta mediterrânea nação do coração da América do Sul.

1. Francisco é “um jesuíta paraguaio”

“É um erro considerá-lo (o papa Francisco) um jesuíta argentino. Talvez, deveríamos considerá-lo um jesuíta paraguaio”, escreveu o célebre semiólogo italiano Umberto Eco, em um artigo especial publicado em vários meios de comunicação impressos, entre eles o influente jornal norte-americano The New York Times, em setembro de 2013.

Neste texto, o autor de O Nome da Rosa sugere que a educação religiosa do primeiro pontífice latino-americano “foi influenciada pelo ‘Santo Experimento’ dos jesuítas no Paraguai”, referindo-se às experiências das famosas missões jesuíticas guaranis que foram fundadas a partir do Século XVII, em territórios que hoje compreendem parte do Paraguai, Argentina e Brasil.

“Os missionários jesuítas decidiram reconhecer os direitos dos indígenas (especialmente dos guaranis que viviam principalmente no Paraguai em condições praticamente pré-históricas) e os organizaram nas chamadas ‘reduções’, que eram comunidades autossustentáveis. Os jesuítas os ensinaram a se organizar por si mesmos, em total comunhão com os bens que produziam, embora com o objetivo de ‘civilizá-los’, ou seja, de convertê-los. Para alguns dos nativos também ensinaram arquitetura, agricultura, o alfabeto, música e artes; desse espaço, saíram alguns escritores e artistas de talento”, relata Umberto Eco.

O semiólogo acredita que esta experiência, que considera “utópica”, ainda que “paternalista”, influenciou em grande medida no caráter e, sobretudo, na formação religiosa do atual Pontífice.

“Agora, se decidirmos avaliar as ações de Francisco a partir deste ponto de vista, devemos considerar o fato de que se passaram quatro séculos desde esse ‘Santo Experimento’; que agora se reconhece amplamente a noção de liberdade democrática, inclusive entre os fundamentalistas católicos; que o Papa atual, certamente, não tem a intenção de realizar nenhum experimento desse tipo na ilha de Lampedusa; e que o melhor que poderia conseguir é eliminar gradualmente o Instituto para as Obras de Religião, o chamado banco do Vaticano”, destaca Eco.

Nesta influência histórica dos jesuítas paraguaios estaria um dos primeiros elementos que aproximam afetivamente o atual papa Francisco ao universo cultural do Paraguai.

2. Esther, a paraguaia que inspirou Bergoglio

“Agradeço muito a meu pai que me mandou trabalhar. O trabalho foi uma das coisas que melhor fiz na vida e, particularmente, no laboratório aprendi o bom e o mau de toda tarefa humana (...). Ali, eu tive uma chefe extraordinária, Esther Ballestrino de Careaga, uma paraguaia simpatizante do comunismo que, anos depois, durante a última ditadura, sofreu o sequestro de uma filha e um genro, e depois foi raptada (...) e assassinada. Atualmente, está enterrada na Igreja de Santa Cruz. Eu gostava muito dela (...). Ensinou-me a seriedade do trabalho. Realmente, devo muito a essa grande mulher”.

Com estas emocionadas palavras, o então arcebispo de Buenos Aires, cardeal Jorge Mario Bergoglio, contava aos escritores Sergio Rubín e Francesca Ambrogetti, - autores do livro O Jesuíta, talvez a mais profunda biografia do atual Papa -, uma etapa chave de sua passagem da adolescência à juventude, quando começou sua primeira experiência de trabalho e conheceu a heroica mulher que foi sua chefe e, por sua vez, sua mestre e sua mentora política.

Casualmente, Esther Ballestrino, ainda que houvesse nascido em Montevidéu, Uruguai, no ano de 1918, era mais conhecida como paraguaia, já que desde muito criança se mudou com sua família e cresceu em nosso país, onde pôde estudar e se formar, primeiro como professora e depois como química farmacêutica.

Em 1940, Esther participou ativamente na fundação do Movimento Feminino do Paraguai, “uma organização de mulheres que se propôs corrigir as situações marcadamente adversas que, nesse tempo, as mulheres suportavam”, da qual foi sua primeira secretária geral, segundo revela o pesquisador Roberto Paredes, em sua obra “Rebeldes por la Patria”.

Por meio do Partido Revolucionário Febrerista, acompanhou a experiência da chamada “primavera democrática” de 1946, na qual foi vivida uma inusitada abertura democrática no país, mas que seria abortada pela Guerra Civil de 1947, após a qual se impôs uma nova ditadura militar, liderada pelo general Higinio Morínigo.

Diante da perseguição desatada, junto a muitos outros dirigentes sociais e políticos, Esther Ballestrino se viu obrigada a se exilar na Argentina, onde continuou participando de atividades políticas e se casou com o memorável líder febrerista Raimundo Careaga e, finalmente, começou a colaborar, ainda que à distância, com o Partido Comunista Paraguaio (PCP).

É nesta etapa que trabalha em um laboratório, no qual conheceu o jovem Jorge Mario Bergoglio, que foi seu empregado.

Esther Ballestrino de Careaga lhe mostrou (ao jovem Jorge) como era a militância política e até o apresentou leituras comunistas, que Bergoglio recorda com precisão, bem como a ela, a quem define como ‘extraordinária’. Ela foi sua chefe em um laboratório químico e até lhe ensinou algo de guarani. Muito depois, a ditadura voltaria a cruzar seus caminhos, da pior e mais triste forma”, relata o jornalista argentino Hugo Alconada Mon, em um artigo publicado pelo jornal La Nación, de Buenos Aires.

No dia 8 de dezembro de 1977, um grupo de tarefas comandado por Alfredo Astiz sequestrou Esther Ballestrino de Careaga, segundo relata Alconada.

Após o desaparecimento de sua filha Ana María e de dois genros, Esther se tornou uma das fundadoras da organização das Mães da Praça de Maio. Sua filha foi libertada mais tarde, mas ela continuou com o trabalho até que acabaram com ela.

“Em 2005, apareceram os restos de minha mãe”, relatou Mabel Careaga, outra de suas filhas, ao jornal espanhol El País. “Quisemos enterrá-las no recinto da Igreja Santa Cruz, pois foi o último território livre que elas [Careaga e Mary Ponce de Bianco, também das Mães] pisaram, o lugar onde foram sequestradas. Pedimos permissão a Bergoglio e ele autorizou o enterro”, detalhou a filha.

Aquela mulher uruguaia-paraguaia, esposa de um dirigente político paraguaio, sem ser católica e nem crente, marcou profundamente a vida do atual Papa. Em sua memória pode estar outra das chaves de sua proximidade afetiva com o Paraguai.

 
Fonte: http://goo.gl/kFmykS  

3. O testemunho dos exilados paraguaios

Em outubro de 1969, devido a sua postura crítica assessorando grupos juvenis e movimentos sociais, o sacerdote jesuíta espanhol Francisco de Paula Oliva foi expulso do Paraguai pela ditadura do general Alfredo Stroessner e se viu obrigado a se refugiar na Argentina, onde foi recebido pelo então superior provincial da Companhia de Jesus, Jorge Mario Bergoglio.

“O atual papa Francisco, que era o líder de nossa ordem na Argentina, recebeu-me com muita solidariedade e me permitiu continuar trabalhando pastoralmente em Buenos Aires, especialmente nas vilas marginais, com os paraguaios migrantes”, recorda o popular padre Oliva.

Durante essa experiência pastoral, junto com outros sacerdotes paraguaios que também foram expulsos, Oliva chegou a convidar o provincial Bergoglio para conhecer de perto a vivência de milhares de famílias migrantes, principalmente de nacionalidade paraguaia, onde o atual Papa pôde vivenciar a grande espiritualidade das humildes famílias nas celebrações litúrgicas, especialmente em torno da festividade da Virgem de Caacupé.

Especialmente impactado pelo valioso trabalho que os leigos e religiosos aglutinados na Equipe Pastoral de Paraguaios na Argentina (EPPA) desenvolviam, Bergoglio esteve em várias ocasiões com as comunidades de paraguaios, especialmente nas celebrações da conhecida Villa 31, ocasião em que foi visto desfrutando das comidas típicas do país, provando com gosto o tereré e, inclusive, aprendendo algumas palavras em guarani.

Oliva considera que essa proximidade com a realidade de pobreza social, mas ao mesmo tempo de grande riqueza espiritual e cultural que Bergoglio conheceu nas vilas, junto às famílias paraguaias, foi provocando sua mudança, inclusive em sua linha pastoral, de uma prática mais conservadora, inicialmente, para outra mais comprometida com a realidade social.

“Eu o comparo com o caso do assassinado arcebispo de San Salvador, dom Óscar Arnulfo Romero, que também assumiu sendo muito conservador, mas a realidade foi lhe transformando. Comprometeu-se com os pobres, por isso o mataram. Tenho muita esperança no novo Papa”, destaca Oliva.

O sacerdote jesuíta espanhol José Luis Caravias, ex-assessor nacional das Ligas Agrárias Cristãs (LAC) nos anos 1960 e 1970, que também foi expulso pela ditadura stronista, em maio de 1972, afirma que Bergoglio também lhe ofereceu refúgio em seu país e que, inclusive, salvou a sua vida ao lhe advertir que membros do grupo paramilitar da Tríplice Aliança o procuravam para atentar contra sua vida, e ajudá-lo a sair da Argentina, durante a ditadura militar, para se refugiar na Espanha.

“Se hoje estou vivo, se pude escrever quarenta livros, se pude continuar promovendo os direitos dos últimos e o Evangelho entre os pobres e, enfim, se posso contar como as coisas aconteceram, devo isto a ele, ao atual Papa Francisco”, sustenta Caravias.

4. A admiração pela mulher paraguaia

“Na minha avaliação, a mulher paraguaia é a mulher mais heroica da América. Depois da guerra (contra a Tríplice Aliança), restaram oito mulheres para cada homem. E fez essa grande opção de ter filhos, não é? Para salvar a Pátria, a língua, a cultura e a fé”.

Estas emotivas palavras, Jorge Bergoglio pronunciou no Vaticano, no dia 13 de fevereiro de 2014, já sendo papa Francisco, após receber em audiência os sacerdotes argentinos Carlos e Rodolfo Luna, que passaram pelo exílio na Suécia, durante a ditadura militar argentina.

Nessa oportunidade, o Pontífice inclusive chegou a destacar que as mulheres paraguaias merecem o Prêmio Nobel.

“Eu gostaria que um dia o Comitê do Prêmio Nobel conferisse o Prêmio Nobel à mulher paraguaia! Por ter salvado a cultura, a pátria!... heroica! Proponho isto!”, destacou.

Não era a primeira vez que o Papa mostrava sua admiração à mulher paraguaia na história. Em uma conversa informal com os jornalistas no avião, de retorno do Brasil, após ter participado da Jornada Mundial da Juventude, em julho de 2013, poucas semanas após ter sido escolhido Sumo Pontífice, Bergoglio insistiu que não se pode entender a Igreja sem as mulheres e, como exemplo, citou o caso do Paraguai, do qual disse que as mulheres são as “mais gloriosas da América Latina”.

Então, explicou que, após a guerra da Tríplice Aliança (1864/1870), havia oito mulheres para cada homem e elas tomaram “a decisão difícil de ter filhos para salvar o país, a pátria, a cultura, a fé e a língua”.

Quatro anos atrás, quando ainda era cardeal e arcebispo de Buenos Aires, durante uma missa celebrada com o agrupamento paraguaio, na Catedral da capital argentina, o atual Papa já havia louvado amplamente a mulher paraguaia, relacionando-a com a história da Virgem de Caacupé.

5. A veneração à Virgem de Caacupé

O outro elemento que afetivamente vincula muito o papa Francisco com o Paraguai é o especial amor e devoção que ele sente à Virgem de Caacupé, a grande mãe espiritual dos paraguaios e paraguaias. Por isso, considera-se que um dos pontos centrais de sua presença no país será a missa multitudinária que presidirá na Vila Serrana.

No dia 1º de novembro de 2010, quando ainda era cardeal e arcebispo de Buenos Aires, Jorge Bergoglio presidiu uma missa para o agrupamento paraguaio, organizada pela Equipe Pastoral de Paraguaios na Argentina (EPPA), como encerramento da passagem da imagem da Virgem Serrana pelas comunidades migrantes na Argentina.

Ali, o atual Pontífice destacou: “Hoje, a Virgem possui documento paraguaio, ela é paraguaia de Caacupé, já não existe paraguaio que não a queira. E se sabe que em toda América a mulher paraguaia é a mais gloriosa, não por ter estudado mais do que outras, mas porque soube assumir um país derrotado pela injustiça e os interesses internacionais. E diante dessa derrota levou adiante a pátria, a língua e a fé. E a Virgem ao assumir a cidadania paraguaia, tomou a língua, a cultura e a fé. Por isso, é duplamente gloriosa, por ser mãe de Deus e por ser paraguaia”.

“Sempre ao longo dos tempos, daqueles momentos, sempre no meio do povo, quando na história de um povo, conduzia-o para ser notada como a mãe do povo de Deus e da Igreja”, acrescentou.

“Obrigado Virgem de Caacupé por nos honrar com sua presença, e o mínimo que merece é um aplauso”, concluiu.

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