Não se trata de migração: isso é um êxodo

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23 Abril 2015

“A imigração? Trata-se de uma questão muito séria para deixar as coisas como estão”, afirma Paul Collier. E para começar a entender basta ter em mãos o seu último livro: Êxodo, o tabu da imigração (Ed. Laterza). Dimensões bíblicas, não apenas por dizer, para um fenômeno que é confrontado com dados e pesquisas para permitir – segundo Collier – que “o debate sobre as políticas migratórias supere as posições ostensivamente polarizadas e exasperadas de hoje”.

A entrevista é de Maria Antonieta Calabró, publicada pelo Corriere della Sera, 20-04-2015. A tradução é de Ivan Pedro Lazzarotto.

Para Collier foi uma semana muito trabalhosa: uma conferência em Paris, depois foi a Dacca (a capital de Bangladesh), e finalmente duas conferências na Suíça, em Zurique e Genebra, para depois voltar a Oxford onde leciona Economia e Políticas Públicas na Blavatnik School of Government e é pró-reitor do Centro para estudos das economias africanas. Nas pausas aceitou explicar o que é na verdade essa mudança em massa de populações de uma parte a outra do planeta. E acima de tudo qual é o seu fluxo efetivo. Números impensáveis mesmo para nós italianos que nos deparamos, no último ano, com mais de 100 mil imigrantes nas nossas costas, com o Mediterrâneo que se transformou em um caixão de água.

Números impensáveis, porque Collier diz claramente que cerca de 40% da população dos países pobres, se pudesse, deixaria a própria terra para alcançar as nações mais ricas. E 40% quer dizer que se trata não mais de milhões, mas de centenas de milhões, talvez de bilhões de pessoas que se encontram em uma situação propícia para partir. Além disso – acrescenta – o desafio de migrar irá durar não anos, mas décadas. Porque a diferença de renda de uma parte para a outra do mundo é simplesmente “monstruosa”.

Por 5 anos (de 1998 a 2003) Paul Collier trabalhou como diretor do departamento de pesquisa sobre o desenvolvimento do Banco Mundial, e como conselheiro do departamento de estratégia e política do Fundo Monetário e do departamento para a África do mesmo Banco Mundial. Colaborou com o “New York Times”, o “Financial Times”, o “Wall Street Journal” e o “Washington Post”.

Eis a entrevista.

Professor, o senhor identificou “fatos concretos que têm consequências devastadoras”. Isso significa que estamos somente no início deste fenômeno?

Não precisamos entrar em pânico, mas acredito que as pressões para as migrações tendem a acelerar nas próximas duas décadas, porque existem dois motores potentes que acionam a emigração. Em primeiro lugar, a diferença de renda entre países ricos e pobres, diferença essa que não diminuirá por muito tempo. E é simplesmente algo que eu defino como monstruoso. Em seguida, a diáspora dos migrantes que já chegaram a nós e que constituem uma ponte para os outros, e essa ponte está em aumento constante.

Por que fala de “Exodus”?

A evidência da pesquisa sugere que muitas pessoas nas sociedades mais pobres, aproximadamente 40%, gostariam de emigrar para os países ricos, se isso fosse possível.

Então o senhor está convencido de que este fenômeno tem dimensões de época?

O que existe de época é a desigualdade. O desejo de migrar é uma resposta natural à desigualdade.

As migrações internacionais de massa são uma reação à extrema desigualdade mundial?

Sim.

Por quê? Os países pobres estão sempre mais pobres?

Não, a maioria dos países pobres está fazendo progressos, mas a diferença conosco, os países ricos, é tão grande que serão necessárias décadas.

Assim o senhor assume que devemos repensar as políticas migratórias? De qual maneira concreta?

Sim, penso que devemos fazê-lo. Precisamos gerir as migrações de forma a não retirar dos países pobres as pessoas mais brilhantes e ricas de energia. Porque a própria migração contribuirá para recriá-la, a prorrogar ainda mais a duração deste fenômeno. O nosso interesse seria exatamente o contrário, ou seja, acolher os mais brilhantes e os melhores, mas isso significaria retirar os talentos de onde mais são necessários. A coisa mais útil que podemos fazer, ao contrário, é a de acolher os jovens brilhantes, treiná-los, deixá-los trabalhar temporariamente conosco, mas com o acordo que depois devem voltar para sua terra e ajudar sua sociedade.

Fenômenos como o extremismo e o fanatismo estão crescendo. O senhor acha que o multiculturalismo está falido?

Nós não pensamos mais nisso. Acredito que a integração social seja o mais precioso de tudo que foi feito até aqui. Ter pessoas com culturas radicalmente diferentes da nossa é bom quando os números são reduzidos, mas produz tensões quando estes números continuam a crescer.

Os países de alta renda se transformam cada vez mais em multirraciais?

Não por tempo indeterminado. Não. Alcançaremos um equilíbrio da diversidade onde as diásporas dos migrantes que já estão juntos de nós se integrem de forma tão rápida quanto os novos migrantes que chegarão.

De um lado, as elites políticas precisam lidar com os medos e as necessidades dos seus eleitores; de outro, com os estudos dos economistas. O resultado até agora é uma grande confusão. Qual a saída?

Acho que os efeitos econômicos da imigração sobre a população anfitriã são muito pequenos e não são uma base para tomada de decisões.

Por favor, sugira dois passos a serem seguidos por um país como a Itália, entrada do grande Êxodo na Europa.

Primeiro: criar uma política de asilo mais racional que não dependa do fato que qualquer um seja acolhido, com uma boa dose de sorte, colocando os pés sobre uma praia em Lampedusa. Um sistema pelo qual os imigrantes que pedem legalmente para viajar para a União Europeia tenham uma chance de entrar, ao invés de pagar os traficantes e arriscarem suas vidas.

E em segundo?

Incrementar os locais de formação para os migrantes, subordinando essa formação a um retorno aos seus países de origem após 5 anos.

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