“Não basta que os pobres recolham as migalhas que caem da mesa dos ricos”, diz o Papa Francisco

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Por: André | 14 Abril 2015

O Papa Francisco lançou, na sexta-feira 10 de abril, uma mensagem contra a desigualdade aos 35 presidentes e chefes de Estado e Governo reunidos no Panamá, durante a cerimônia de abertura da VII Cúpula das Américas. “Não basta que os pobres recolham as migalhas que caem da mesa dos ricos”, assinalou o Pontífice, por meio de uma mensagem que foi lida pelo secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Parolin.

A reportagem está publicada por Religión Digital, 11-04-2015. A tradução é de André Langer.

O enviado especial de Francisco a esta importante reunião regional leu, em um espanhol perfeito, a carta do Papa, que adverte que “há bens básicos, como a terra, o trabalho e a moradia, além de serviços públicos, como a saúde, a educação, a segurança ou o meio ambiente, dos quais nenhum ser humano deveria ser excluído”.

“Este desejo que todos compartilhamos, infelizmente está longe da realidade”, acrescenta a nota, na qual o Santo Padre insiste em que “enquanto não se conseguir uma distribuição equitativa da riqueza, não se conseguirá resolver os males da humanidade”. “O grande desafio do nosso mundo é a globalização da solidariedade e da fraternidade, em vez da globalização da discriminação e da indiferença”, acrescentou.

Neste sentido, Bergoglio denuncia o “abismo” entre ricos e pobres, que – conforme acrescenta – “se abriu ainda mais” naquelas economias emergentes que experimentaram um grande êxito econômico durante os últimos anos, nas quais a população “não se beneficiou” destes avanços. “São necessárias ações diretas para os mais desfavorecidos, cuja atenção (...) deveria ser prioritária para os governantes”, assevera.

Por isso, Francisco – através das palavras de Parolin – solicitou aos presidentes americanos que enfrentem estes problemas com “realismo” e chama a atenção para o fato de que “não basta salvaguardar a lei dos direitos básicos das pessoas”, uma vez que, às vezes, “dentro de um mesmo país há diferenças escandalosas, sobretudo nas zonas indígenas, rurais e subúrbios das grandes cidades”.

Na carta, também afirma que “os esforços para estender pontes e canais de comunicação, buscar o entendimento, nunca são em vão” e destaca a situação geográfica do Panamá – no centro do continente americano – como “ponto de encontro entre o Norte e o Sul”, para que este encontro sirva de chamada para gerar “uma nova ordem de paz e justiça”, assim como para “promover a solidariedade e a cooperação, respeitando a justa autonomia de cada país”.

Eis o texto da carta.

Ao Excelentíssimo Senhor

Juan Carlos Varela Rodríguez

Presidente do Panamá

Como anfitrião da VII Cúpula das Américas, desejo fazer-lhe chegar a minha saudação cordial e, por seu intermédio, a todos os Chefes de Estado e Governo, assim como às delegações participantes. Ao mesmo tempo, gostaria de manifestar-lhes minha proximidade e alento para que o diálogo sincero consiga essa mútua colaboração que soma esforços e supera diferenças no caminho para o bem comum. Peço a Deus que, compartilhando valores comuns, cheguem a compromissos de colaboração no âmbito nacional ou regional que enfrentem com realismo os problemas e transmitam esperança.

Sinto-me em sintonia com o tema escolhido para esta Cúpula: “Prosperidade com igualdade: o desafio da cooperação nas Américas”. Estou convencido – e assim o manifestei na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium – de que a desigualdade, a injusta distribuição das riquezas e dos recursos, é fonte de conflitos e de violência entre os povos, porque supõe que o progresso de uns é construído sobre o necessário sacrifício de outros e que, para poder viver dignamente, é preciso lutar contra os outros (cf. 52, 54). O bem-estar assim obtido é injusto em sua raiz e atenta contra a dignidade das pessoas. Há “bens básicos”, como a terra, o trabalho e a moradia, e “serviços públicos”, como a saúde, a educação, a segurança e o meio ambiente..., dos quais nenhum ser humano deveria ser excluído.

Este desejo – que todos compartilhamos –, infelizmente, ainda está longe da realidade. Ainda hoje há injustas desigualdades, que ofendem a dignidade das pessoas.

O grande desafio do nosso mundo é a globalização da solidariedade e da fraternidade, em vez da globalização da discriminação e da indiferença e, enquanto não se conseguir uma distribuição igualitária da riqueza, os males da nossa sociedade não serão resolvidos (cf. Evangelii Gaudium 202).

Não podemos negar que muitos países experimentaram um grande desenvolvimento econômico nos últimos anos, mas também é verdade que outros seguem prostrados na pobreza. Além disso, nas economias emergentes, grande parte da população não se beneficiou do progresso econômico geral, mas que, frequentemente, se abriu um abismo maior entre ricos e pobres. A teoria do “gotejamento” ou do “derramamento” (cf. EG 54) revelou-se falaz: não basta esperar que os pobres recolham as migalhas que caem da mesa dos ricos. São necessárias ações diretas a favor dos mais desfavorecidos, cuja atenção, como a dos menores em uma família, deveria ser prioritária para os governantes. A Igreja sempre defendeu a “promoção das pessoas concretas” (Centesimus Annus, 46), atendendo suas necessidades e oferecendo-lhes possibilidades de desenvolvimento.

Eu gostaria também de chamar sua atenção para o problema da imigração. A imensa disparidade de oportunidades em uns países e outros faz com que muitas pessoas se vejam obrigadas a abandonar sua terra e sua família, convertendo-se em presa fácil do tráfico de pessoas e do trabalho escravo, sem direitos, nem acesso à justiça...

Em determinadas circunstâncias, a falta de cooperação entre os Estados deixa muitas pessoas fora da legalidade e sem possibilidade de fazer valer seus direitos, obrigando-as a situar-se entre os que se aproveitam dos outros ou a resignar-se a ser vítima dos abusos.

São situações em que não basta salvaguardar a lei para defender os direitos básicos da pessoa, nas quais a norma, sem piedade e misericórdia, não responde à justiça.

Às vezes, mesmo dentro de cada país, há diferenças escandalosas e ofensivas, especialmente nas populações indígenas, nas zonas rurais ou nos subúrbios das grandes cidades. Sem uma autêntica defesa destas pessoas contra o racismo, a xenofobia e a intolerância, o Estado de direito perderia sua legitimidade.

Senhor presidente, os esforços para construir pontes, canais de comunicação, tecer relações, buscar o entendimento, nunca são em vão. A situação geográfica do Panamá, no centro do continente Americano, que o converte em um ponto de encontro do Norte e do Sul, dos Oceanos Pacífico e Atlântico, é seguramente uma chamada, pro mundi beneficio, para gerar uma nova ordem de paz e de justiça e para promover a solidariedade e a colaboração respeitando a justa autonomia de cada país.

Com o desejo de que a Igreja também seja instrumento de paz e reconciliação entre os povos, receba a minha mais atenta e cordial saudação.

Vaticano, 10 de abril de 2015.

Francisco

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