“O poder é a forma mais segura e fácil de fugir de si”

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Por: Jonas | 14 Abril 2015

Até que ponto somos capazes de fugir de nossas responsabilidades para com os outros, optando por máscaras sociais que as estruturas de poder da sociedade nos impõe? O filme Mephisto, dirigido por István Szabó (1981), trabalha brilhantemente este dilema, que é vivido pelo personagem Hendrik Höfgen. Este e outros elementos foram abordados pelo professor Waldir Souza (PUCPR), na manhã do último sábado, 11 de abril, nas dependências da PUCPR, por ocasião da segunda exibição do ciclo “Teologia e Cinema. O mistério do mal”, promovido pelo CJCIAS/CEPAT, em parceria com o Instituto Ciência e Fé, e com o apoio do Instituto Humanitas Unisinos.

O relato é de Jonas Jorge da Silva, da equipe do CJCIAS/CEPAT.

O filme Mephisto, baseado no romance do escritor alemão Klaus Mann, apresenta a história do ator Hendrik Höfgen, que inicia sua carreira na cidade portenha de Hamburgo, na Alemanha, engajado em uma proposta de teatro interventivo, com potencial criativo, revolucionário, que exige que o público deixe de lado a passividade. Contudo, sempre muito ambicioso e apaixonado pelo trabalho, provoca vários movimentos pela vida que o levam a Berlim. Seu sucesso profissional se dá concomitantemente ao êxito do nazismo na Alemanha. Em seu auge como ator se depara com a difícil decisão de sair do país alemão ou em continuar, ainda que privado da liberdade de consciência que o movia, desde o início de sua carreira em Hamburgo.

Sua consagração profissional se dá de vez a partir de seu excelente desempenho artístico no papel de Mephisto. Por meio de sua apresentação e da influência de amigos, Hendrik Höfgen conquistará a simpatia do primeiro-ministro alemão, nos anos de ascensão do nazismo, deixando para trás seu histórico papel de ator engajado na transformação social.

O filme explora muito o poder persuasivo da linguagem e a dimensão reflexiva do personagem principal. Quem assiste ao filme dificilmente sai ileso. Até onde podemos sair intactos dos jogos de sedução no interior das estruturas de poder? Nossos projetos de vida, por mais bem intencionados que sejam, resistem ao poder pelo poder? No caso de Hendrik Höfgen, a fama, o prestígio e o poder arrebatam integralmente sua frágil existência, mesmo ao custo do aniquilamento do outro, pois quando já estava compenetrado nas armadilhas do nazismo, não foi capaz de mudar de direção, ainda que diante da morte de antigos amigos do teatro revolucionário de Hamburgo.  

Para o professor Waldir Souza, “o poder é a forma mais segura e fácil de fugir de si”. Em Hendrik Höfgen há uma fuga total de seu ser pleno, procurando encontrar nas máscaras que assume um caminho seguro, sem questionamentos, de aplausos e elogios, sem se responsabilizar pelos que lhe são próximos. A sedução do poder o faz abrir mão de sua consciência, passando a justificar seus atos injustificáveis e se entregar ao preço da negação de seu ser.

É falso pensar a dimensão o mal presente na vida humana, como algo que está fora das relações sociais estabelecidas. Segundo os apontamentos do professor Waldir Souza, precisamos sair da dicotomia entre bem e mal e assumir as responsabilidades que, na vida, todos possuem. Há só uma realidade: a do ser. E é a negação do ser que nos provoca o vazio e o fechamento. Na linguagem teológica, a negação do ser nada mais é do que o pecado. Quando em troca das seguranças pessoais, da fuga dos conflitos, o ser humano se contenta em vivenciar papéis, diz não ao mistério do amor. Dizer não ao mistério do amor, que no cristianismo vivenciamos no Verbo Encarnado, gera sofrimento e morte.

O fechamento de Hendrik Höfgen na sedução do poder e da fama significa o fechamento de todo ser humano quando não é capaz de entender a vida como um chamado para ser com os outros. A verdadeira vida plena está em caminhar rumo ao mistério do amor, fora disso só existe negação da vida, vazio e solidão.

Como bem ressaltou o professor Waldir Souza, “o sofrimento do mundo é a minha omissão”. Todos nós precisamos aprender a se responsabilizar pelos nossos próprios atos, sem subterfúgios, sem colocar a responsabilidade no “mal” entendido como uma entidade alheia. Anima-nos saber que o ato reparador é muito maior que o ato transgressor. Deus jamais se cansa de chamar para o seu mistério de amor.

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