O Jubileu e o ''inominável'' que invoca misericórdia. Artigo de Marco Impagliazzo

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13 Abril 2015

A misericórdia é sempre um prodígio. É sempre a transformação de uma história que parecia canalizada em uma direção evidente, indiferente ao bem ou cúmplice do mal, mas, no fim, sem perspectiva.

A opinião é do historiador italiano Marco Impagliazzo, presidente da Comunidade de Santo Egídio e professor da Università per Stranieri di Perugia. O artigo foi publicado no jornal Avvenire, 11-04-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Deus perdoa tantas coisas, por uma obra de misericórdia." São palavras que Lucia Mondella, protagonista feminina de Os Noivos, dirige por duas vezes ao Inominado no 21º capítulo do romance de Alessandro Manzoni, que constitui o seu ponto de virada, o início de um lento processo pelo qual o desígnio do mal em que os protagonistas da obra tinham sido apanhados e envolvidos é frustrado e revertido até a afirmação de um desígnio diferente, providencial, de bem e de perdão.

Pensei novamente no livro que, como todos os italianos, eu conheci nos bancos da escola, refletindo sobre o anúncio surpresa do Papa Francisco de um Ano Santo extraordinário da Misericórdia: "A estrada da Igreja – tinha dito o papa anteriormente – é a de não condenar alguém eternamente; [...] de sair do próprio recinto para ir buscar os distantes nas 'periferias' da existência; de seguir o Mestre, que disse: 'Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes; eu não vim chamar os justos, mas os pecadores, para que se convertam'".

Parece-me que o próximo Jubileu já tem seu romance. É a obra-prima de Manzoni, a ser redescoberta e desfrutada de uma maneira nova. Como a irrupção de um vento de mudança nas vicissitudes existenciais, muitas vezes repetitivas, apressadas, sofredoras, dos homens e das mulheres. É um convite a considerar a possibilidade de um início leve e diferente, que cancele as lentidões, os fardos, as tristezas, que cada um e cada sociedade acumularam no passado.

Pela boca de Lucia, Manzoni nos transmite uma grande verdade, que o Pai não espera outra coisa senão nos perdoar, que, para fazer isso, "se contenta" com uma obra de misericórdia.

"Cumpra a obra de misericórdia", insiste Lucia, vendo o Inominado abalado pelas suas palavras.

Há, na intuição do papa, a consciência de que o mundo está com fome de palavras e de gestos de misericórdia. Mas essa também é a consciência e a experiência de cada um de nós, espectadores de um tempo em que as guerras se sucedem às guerras (pensemos apenas no Oriente Médio: primeiro a Síria, depois o Iraque, depois a Líbia, agora o Iêmen... como um domínio diabólico, que nega a pausa da misericórdia, que não tem medo do turbilhão da escalada), os atentados cegos mas visados (Paquistão, Tunísia, Nigéria, Quênia...), o desespero crescente (um sentimento que leva muitos no Sul do mundo aos extremos da violência generalizada e da emigração, muitos no Ocidente na prisão da solidão e, às vezes, da loucura).

Há muito de inominável neste mundo. Guerras, terrorismo, niilismo, desprezo, abandono, indiferença; e depois negação da infância, descarte da velhice, rejeição dos pobres e não da pobreza imposta e sofrida. Há esquecimento e desconsideração pelos belos nomes da paz, do diálogo, da solidariedade, da compaixão.

Diante da trágica agitação dos Inominados deste tempo, além de tudo o que há de inominado, tanto nos cenários globais, quantos nos nossos percursos individuais, destaca-se um convite, uma proposta: "De repente, voltaram-lhe à mente palavras que havia ouvido e ouvido de novo, poucas horas antes: - Deus perdoa tantas coisas, por uma obra de misericórdia! - [...]; mas com um som cheio de autoridade e que, ao mesmo tempo, induzia uma esperança longínqua".

"Deus operou em ti o prodígio da misericórdia", dirá, poucas páginas depois, o cardeal Federigo ao Inominado, naquele encontro que está entre as páginas mais amadas de Bergoglio, como revelou Stefania Falasca no jornal Avvenire.

A misericórdia é sempre um prodígio. É sempre a transformação de uma história que parecia canalizada em uma direção evidente, indiferente ao bem ou cúmplice do mal, mas, no fim, sem perspectiva.

Essa é a resposta de Deus ao que de errado e de bloqueado está presente neste mundo e nas vicissitudes humanas, a premissa e a prova de que – como João Paulo II gostava de dizer – "a história está cheia de surpresas".

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