O Sínodo como o Concílio: traduzir a tradição. Artigo de Andrea Grillo

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13 Abril 2015

É legítimo "traduzir" a tradição? As formas de compreensão "autorreferencial" da doutrina preferem não correr o risco da tradução, iludindo-se de que a tradição comunica "por si só". Desse modo, ela cai na afasia, na presunção e é tentada a "excomungar" todos aqueles que não a compreendem.

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.

O artigo foi publicado no blog L'Indice del Sinodo, 08-04-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Foi o primeiro papa "filho do Vaticano II" a interpretar o Sínodo dos bispos de acordo com uma lógica, ao mesmo tempo, nova e antiga. A confiança na possibilidade de uma necessária "tradução" da "antiga doutrina" – ou seja, a certeza de uma evolução progressiva da experiência eclesial – atravessa a história da Igreja recente, mas o faz de modo não linear, às vezes com andamento "cársico".

Vejamos do que se trata e de que modo essa tarefa de tradução diz respeito em profundidade à "escolha pastoral" inaugurada pelo Concílio Vaticano II e retomada pela preparação do duplo acontecimento do Sínodo dos bispos, sob o pontificado de Francisco.

Continuidade e novidade

O princípio de uma "continuidade da tradição" pode e deve ser conjugado com a exigência de uma contínua transformação e adequação do conteúdo da doutrina cristã em formas sempre novas. É a "natureza da doutrina" que está em jogo.

De fato, se uma tradição é forte, ela sempre sabe se traduzir em formas novas. Se, ao contrário, é fraca, ela se enrijece em uma forma estática que gradualmente perde a relação com o ser humano e, sobretudo, com Deus. A doutrina, preocupada com cada mudança histórica e social, assume uma forma imutável e sem relação com o real.

A fragilidade dessa solução consiste em perder o equilíbrio entre identidade e relevância. Uma doutrina cristã que se reduza a uma defesa da identidade perde referência ao real e se torna "autorreferencial".

Ser autorreferencial, para uma doutrina, é uma das piores formas de crise. A crise é muito insidiosa porque não se apresenta como negação da tradição, mas como uma afirmação sua completamente distorcida. A distorção consiste precisamente em perder a referência à realidade da história e do mundo, fechando-se na pura referência a si mesma. Autorreferencial é uma doutrina em que a Igreja não fala nem de Deus nem do ser humano, nem a Deus nem ao ser humano, mas apenas de e para si mesma.

A exemplo da tradição/tradução litúrgica

Na tradição recente, ainda antes do Concílio Vaticano II, pôs-se a mesma questão que enfrentamos hoje em torno do "matrimônio", a propósito da "língua litúrgica".

A pergunta que era levantada, de modo novo, era, na época, pela primeira vez: é legítimo traduzir a tradição litúrgica? O valor "sacramental" da eucaristia permanece se as palavras da oração eucarística e da "consagração" são pronunciadas não em latim, mas em francês ou em inglês ou em italiano?

À distância de mais de meio século, essas discussões parecem certamente datadas, hoje quase incompreensíveis. Mas, por trás delas, esconde-se a mesma questão que enfrentamos hoje sobre o matrimônio.

É legítimo "traduzir" a tradição? As formas de compreensão "autorreferencial" da doutrina preferem não correr o risco da tradução, iludindo-se de que a tradição comunica "por si só". Desse modo, ela cai na afasia, na presunção e é tentada a "excomungar" todos aqueles que não a compreendem.

As duas últimas décadas e o "pro multis"

Justamente sobre esse mesmo tema da "tradição/tradução litúrgica", assistimos, nos últimos anos, a uma regressão muito perigosa da reflexão teológica e da experiência pastoral. O documento que marcou essa fase é a quinta instrução sobre a aplicação da reforma litúrgica, Liturgiam authenticam (2001).

Nesse documento, é teorizado, de modo ingênuo e simplista, um ideal de "tradução" meramente literal, que dispensa a interpretação. A última propagação dessa involução veio à luz na pretensão de traduzir literalmente a expressão pro multis, nas palavras eucarísticas sobre o cálice, assumindo as línguas modernas como meros "instrumentos" para tornar uma experiência que seria plena e verdadeira apenas na "língua latina".

A aceitação das "línguas vernáculas" deve se libertar da pretensão de que a tradição se dá exclusivamente em uma forma linguística "estática". Se aceitarmos a mediação cultural como um elemento intrínseco para a Revelação, devemos saudar a "tradução" como uma experiência de enriquecimento da tradição e não apenas como um risco de empobrecimento.

A pretensão de traduzir literalmente (mas de modo não compreensível) para depois explicar em um segundo momento o "verdadeiro significado" da palavra traduzida é uma forma de evidente autorreferencialidade comunicativa.

A tradição/tradução da experiência conjugal

O que hoje aparece a partir das questões que são levantadas no trabalho de reflexão entre os dois Sínodos sobre a família diz respeito exatamente à mesma questão. É legítimo traduzir a doutrina católica sobre o matrimônio das categorias medievais para as categorias modernas?

Isso hoje não diz respeito simplesmente aos "casos críticos" das chamadas "famílias irregulares" (ou, melhor, das "famílias feridas" ou das "famílias ampliadas"), mas, acima de tudo, ao modo de compreender a família como tal, na sua fisiologia da comunhão, de amor, de geração, de fidelidade.

Seria muito bom que, solicitados a compreender melhor a experiência familiar, começássemos a elaborar categorias mais adequadas, que poderíamos aplicar também à experiência litúrgica.

Ao contrário, seria totalmente errado e enganoso se tivéssemos que pretender aplicar também ao matrimônio aquelas soluções autorreferenciais e míopes com as quais, até alguns anos atrás, pretendemos "encerrar na língua latina" a grande tradição celebrativa da Igreja Católica.

Talvez justamente em uma nova experiência de parrésia eclesial, poderemos descobrir que a coragem com que traduzimos do latim a liturgia participada do pós-concílio deve hoje se transferir também para o âmbito matrimonial.

Renunciar às soluções autorreferenciais não será simples. A ilusão de que uma Rota Romana que só fala latim possa constituir uma solução para as questões de ardente atualidade é apenas a última dessas ilusões autorreferenciais.

Mas é claro que só uma verdadeira tradução da tradição poderá dar à Igreja uma linguagem com a qual seja possível fazer experiências adequadas de comunhão familiar e com a qual se poderá exprimir, de modo novo, mas fiel, o grande mistério do Evangelho do matrimônio: que nunca se põe, somente se for capaz de acolher com clarividência as novidades de vida, de palavras e de obras dos homens e das mulheres "não mais medievais".

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