Carrère: deixar-se tocar pelo Reino. Artigo de Christian Albini

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10 Abril 2015

Emmanuel Carrère, no seu O Reino, em uma perspectiva secular, "fala bem" do cristianismo e capta a sua essência em um debate aprofundado e pensado

A opinião é do teólogo leigo italiano Christian Albini, coordenador do Centro de Espiritualidade da diocese de Crema, na Itália, e sócio-fundador da Associação Viandanti, em artigo publicado no blog Sperare per Tutti, 07-04-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A publicação de O Reino, de Emmanuel Carrère, relato da sua experiência juvenil de fé e "investigação" sobre Jesus e sobre as origens cristãs, é um acontecimento cultural, pois demonstra como é possível falar de Bíblia e religião fora das fronteiras confessionais e clericais.

Massimo Faggioli escreveu uma apresentação realmente oportuna pela forma como destaca alguns nós e significados cruciais de um texto amplo e desafiador.

Muito brevemente, esse livro é o exemplo de como, em uma perspectiva secular, pode-se "falar bem" do cristianismo e captar a sua essência em um debate aprofundado e pensado.

"Parece-me bonito que pessoas se reúnam para estarem o mais perto possível do que há de mais pobre e vulnerável no mundo e em si mesmas. Digo a mim mesmo que esse é o cristianismo."

É uma desmentida tanto para o clericalismo que quer monopolizar todo discurso espiritual, quanto para os preconceitos do ateísmo militante e barato. Há, no entanto, um limite no qual o discurso de Carrère se embate na parte conclusiva e que Faggioli identifica lucidamente.

"No entanto, não gostaria, pelo fato de ter lavado pés, de ser tocado pela graça e voltar para casa convertido como 24 anos atrás. Por sorte, não acontece nada desse tipo."

Ele parece ter quase tocado o Reino, mas é ele que não quer se deixar tocar. Seria interessante comparar a argumentação literária de Carrère com a filosófica, por exemplo, de Habermas.

Na minha opinião, há um pano de fundo comum pós-iluminista e pós-metafísico que se foca em um traço fundamental do nosso Ocidente: uma convicção arraigada, mais do que nada psicológica e existencial, da impossibilidade do crer, para a qual Carrère sente alívio no próprio ceticismo reencontrado. Como se a fé autêntica estivesse agora "fora de lugar". Como nota Faggioli, o autor assume como óbvia a sua própria falta de fé, "ele não pode crer que ele também crê".

Paradoxalmente, há aqui um dado bíblico e teológico importante: a fé não depende de nós. A fé pascal, em particular, é a fé no humanamente incrível. Não pode ser uma conclusão nossa. Um ícone poderoso disso é a página dos discípulos de Emaús (cfr. Lc 24, 13-25), que encontram o Ressuscitado, mas não conseguem reconhecê-lo.

"Os seus olhos estavam impedidos de reconhecê-Lo" (24, 16).

E o próprio Ressuscitado que opera, é Ele o sujeito que "abre" os seus olhos (cfr. 24, 31), as Escrituras (cfr. 24, 32) e, no último discurso aos apóstolos, a mente (cfr. 24, 45): em todos os três versículos, é empregado o mesmo verbo, dianoigo.

Crer está efetivamente além do nosso alcance, não é demonstrável, é um dom que recebemos do próprio Senhor. Podemos, no máximo, invocá-lo, desejá-lo.

Porém, aquilo que, basicamente, nos diz o texto de Carrère é que, no homem ocidental de hoje, talvez haja um medo de crer, um temor de perder algo de si mesmo, razão pela qual ele não invoca o dom da fé, mas a incredulidade como dom.

Eu considero que esse é um tema a ser aprofundado.

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