Por que Deus voltou à cena. Artigo de Roberto Esposito

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07 Abril 2015

"Parece delinear-se uma nova aliança entre política e teologia", constata Roberto Esposito, filósofo italiano, em artigo publicado pelo jornal La Repubblica, 30-03-2015. A tradução é de Selvino J. Assmann.

Segundo ele, "num mundo orientado cada vez mais para um domínio absoluto da economia, a teologia parece representar, para massas cada vez maiores de seres humanos, a única alternativa, a única potência capaz de resistir à lógica anônima do mercado global". Não se trata mais, conclui o filósofo, de teologia política, mas de política da teologia.

Eis o artigo.

Após longa pausa de relativa autonomia, política e religião voltam a cruzar as próprias trajetórias com efeitos inquietantes, de que os trágicos acontecimentos de Paris e Túnis constituem os últimos episódios. A condenação mais intransigente dos atentadores e a reivindicação da liberdade de expressão em todas as suas formas é a única resposta adequada. Mas isso está bem distante de esgotar uma questão que é mais profunda, e que diz respeito ao nó que há algum tempo se vai apertando entre teologia e política. A tese tradicional do progressivo fim das religiões no mundo moderno, promovida pelos sociólogos da secularização, choca-se com dados de fato, cada vez mais evidentes. Conforme já havia argumentado a seu tempo Gilles Kepel em A revanche de Deus (La Rivincita di Dio – Editora Rizzoli) , a identificação entre modernidade e laicização de forma alguma é óbvia. Frente ao que foi definido como “eclipse do sagrado”, pareceu opor-se o seu “ressurgimento”.

O primeiro sinal da inversão de tendência foi a revolução khomeinista no Irã, seguida por uma retomada do fundamentalismo religioso, em formas muitos diversas mas convergentes por reabrirem um cenário teológico-político que parecia fechado para sempre. Sem a pretensão de tornar idênticos fenômenos bem diferenciados, o integralismo da direita conservadora norte-americana, o catolicismo anti-conciliar e a linha mais ortodoxa do sionismo hebraico já questionavam, em mais de uma direção, o esquema da distinção liberal entre a esfera pública e a esfera privada da religião. A explosão do extremismo islâmico conferiu um elemento de absoluta dramatização a esse quadro, mas não deve ser isolado dele.

Não é por acaso que a questão da teologia política voltou nos últimos anos ao centro do debate internacional. Se nos Estados Unidos livros como The Faith of the Faithless, de Simon Critchley (Verso), Crediting God, organizado por Miguel Vatter (Fordham) ou The Power of Religion in the Public Sphere, organizado por E. Mendieta e J. Vanantewepern, com ensaios de Butler, Habermas, Taylor (Columbia), estão monopolizando a discussão, também na Europa a relação entre teologia e política se tornou um dos temas dominantes. De Habermas a Taylor, de Zizek a Badiou, de Cacciari a Tronti, a pergunta pelo papel da teologia na sociedade atual está monopolizando a atenção. A religião contribui para gerar ou para moderar a violência? É fator de coesão social ou de conflito?

A resposta de forma alguma é óbvia. Como se depreende da Encyclopedia of Wars de Charles Philips e Alan Axelrod, que analisa 1763 conflitos na história, menos de dez por cento dos mesmos foi causado por motivos religiosos. Se as Cruzadas, as guerras entre católicos e protestantes, as primeiras conquistas islâmicas e obviamente os atuais ataques jihadistas mostram um claro envolvimento da religião na violência, o número de mortos atribuível a conflitos de tipo laico, como as duas guerras mundiais, continua sendo muito superior. Não nos esqueçamos que o primeiro genocídio moderno, o dos armênios, foi perpetrado por Jovens Turcos filo-ocidentais e secularizados, enquanto devotos muçulmanos procuravam salvar os sobreviventes.

Uma resposta do caráter dialético a tal pergunta foi agora proposta pelo psicólogo social Ara Norenzayan, num importante ensaio intitulado Grandes deuses. Como a religião transformou a nossa vida de grupo. A tese do autor consiste em que as grandes religiões favoreceram a socialidade por causa do temor suscitado pela vigilância de um Grande Olho divino sobre o comportamento dos seres humanos. Enxertando-se em tendências inatas voltadas para a autoconservação, as religiões inicialmente cumpriram uma função de agregação social.

Sucessivamente, porém, elas se diferenciaram entre si ao entrarem em competição. Nesta luta pela sobrevivência, não diferente daquela darwiniana entre as diversas espécies, acabaram por prevalecer as religiões que eram capitaneadas por divindades onipotentes e intervencionistas. A partir daí, aconteceu uma inversão da função originária socializante para uma tendência conflitual, ativada sobretudo pelos monoteísmos, objetivamente concorrentes na identificação de um único Deus exclusivo frente a qualquer outro.

A partir desse momento, os efeitos históricos das religiões acabam tornando-se diversos e ambivalentes com base em fatores de caráter histórico e contextual sobre os quais não é possível emitir avaliações unívocas. Do seio da religião podem nascer o Dalai Lama e Osama Bin Laden. Certamente as sociedades modernas mais avançadas, como aquelas da Europa do Norte, são capazes de criar mecanismos de cooperação sem a ajuda do Grande Olho divino. Temos assim um problema resolvido? Pelo que acontece no mundo, dir-se-ia que não. No que diz respeito à área islâmica, a retomada das tendências mais radicais é visível a todos. Mas nem sequer nas sociedades ocidentais, mesmo sendo admitida por todos em linha de princípio, tal distinção parece resistir a uma série de dinâmicas correlatas.

Por um lado, a globalização rompeu as fronteiras entre diferentes civilizações, injetando dentro dos países ocidentais quantidades crescentes de culturas dificilmente integráveis. Por outro, o regime biopolítico em que vivemos há tempo, especialmente com o desenvolvimento das biotecnologias, rompe os tabiques entre público e privado sobre questões relativas não só à origem e ao fim da vida, mas também à saúde, à segurança, à ecologia – todas contemporaneamente públicas e privadas, individuais e coletivas.

Sob este aspecto, parece delinear-se uma nova aliança entre política e teologia. Não tanto porque na crise de legitimação da autoridade, o núcleo de sentido conservado pelas religiões pode cumprir uma função de ajuda, mas porque, num mundo orientado cada vez mais para um domínio absoluto da economia, a teologia parece representar, para massas cada vez maiores de seres humanos, a única alternativa, a única potência capaz de resistir à lógica anônima do mercado global. No momento em que se afirma uma nova forma de “teologia econômica” do débito se a este propósito o recente volume organizado por Thomas Macho sob o título Bonds - a filosofia contemporânea olha para uma nova forma, não mais de teologia política, mas de política da teologia.

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