Brasil pensa que já fez muita coisa pelo clima. Entrevista com Carlos Rittl

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10 Março 2015

Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, uma rede de 35 ONGs que tem por objetivo promover o debate sobre negociações internacionais, diz que o Brasil se senta à mesa de discussão pensando que já fez muito pela questão climática.

Apesar de otimista com relação ao manejo do desmatamento e da questão energética do país, ele diz que é necessário mudar a mentalidade e que reduzir emissões de CO2 é investimento e não gasto.

Em 2015, ano em que haverá a conferência de Paris, onde serão costurados acordos de gestão da questão climática, o país ainda precisa decidir que posição vai assumir na hora da negociação.

A entrevista é de Marcelo Leite, publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 09-03-2015.

Eis a entrevista.

O país está crescendo pouco nos últimos anos, mas as emissões de gases do efeito estufa, não. Isso acontece só pelo aumento do consumo de energia pela população?

Há vários outros fatores. Falta orientar nossa economia para um crescimento de baixo carbono. Desde que se criou a Convenção da ONU sobre o Clima, em 1992, nossas emissões per capita são sistematicamente maiores que a média mundial. A gente se esconde debaixo desse discurso de que nossa economia é de baixo carbono, quando de fato não é.

Por conta do desmatamento.

Por conta do desmatamento, historicamente, mas, embora as emissões de desmatamento estejam caindo, as do setor de energia e agropecuária vêm subindo. As de energia não pelo consumo, mas por causa de fontes térmicas usadas nos últimos anos e pelo aumento do uso de diesel e de gasolina.

Temos emissões significativas na agropecuária, com a produção de gado e no uso maciço de fertilizantes. A redução no desmatamento nos impediu de olhar para os outros setores, infelizmente.

E a meta de desmatamento zero?

Não é uma utopia. Falar em desmatamento zero em 2030 é plenamente possível. Não dá para imaginar que a gente vá continuar com essa baixa eficiência na pecuária e avançando sobre ecossistemas naturais como a gente vinha fazendo. O Brasil ainda é o país que mais desmata, muito mais que a Indonésia.

Com desmatamento zero e agricultura de baixo carbono, a gente estaria cobrindo, por baixo, quase 1 milhão de toneladas de emissões.

E com relação ao uso de combustíveis fósseis?

É possível reverter a tendência de aumento. Muito provavelmente em 2015 nós chegaremos a menos de 40% de participação das fontes renováveis. Em eletricidade, não estamos mais naquele índice de 80%, mas talvez em 66%, 67% de renováveis, ou seja, um terço de nossa eletricidade já vem de fontes fósseis, não renováveis.

Estamos colocando hoje 70% do investimento em fontes fósseis, como se essa fosse a solução para os nossos problemas de desenvolvimento.

Hoje, a questão ambiental é vista como um ônus.

Esse é o maior equívoco, pensar que mitigação [do aquecimento global] custa caro, e não encarar isso como oportunidade. Há sempre um custo de transição, de ajuste, mas é um investimento.
Aí vamos pagar caro, como estamos pagando agora, com a essa situação de quase colapso no abastecimento hídrico e energético. No caso de um apagão, o impacto na economia é gigantesco.
Se houver racionamento ao mesmo tempo de água e de energia, nesse cenário de crescimento baixo, pode nos levar à recessão --por causa do clima, mas também pela falta de visão estratégica.

Como o Observatório tem visto a evolução das taxas de desmatamento na Amazônia?

Em 2014 tivemos a queda de 18%, mas no anterior houve crescimento de 29%.

Talvez o mais importante seja olhar como o desmatamento se comportou nos últimos anos. Estamos celebrando pequenas reduções numa taxa que está em torno de 500 mil hectares [5.000 km²] por ano.

Ainda temos mais 7.000 km² de cerrado sendo destruídos todos os anos. Não dá para conviver com isso.

Esse desmatamento sequer está associado com desenvolvimento. É simplesmente uma péssima gestão de território. E a gente continua celebrando essas taxas como as menores da história.

Se vier um anúncio de aumento de desmatamento às véspera da conferência de Paris, isso fragilizaria a posição do Brasil na mesa de negociação?

Já estamos entrando num cenário em que, se não conseguir progredirmos para quedas mais significativas, talvez não aconteça.

Antes, em todas as conferências, o Brasil ia lá, apresentava a redução das taxas de desmatamento, e era aquele grande aplauso. Parecia que o Brasil tinha cumprido o seu papel, nós tínhamos a boa notícia para o clima.

Agora tem de olhar para a frente, mas continuamos olhando no retrovisor.

O que o governo Dilma deveria fazer a respeito?

O Brasil sempre deu, do ponto de vista da diplomacia, muita contribuição, com a proposta de novos instrumentos, levando ideias inovadoras para a mesa.

Nos últimos anos, não levamos para a mesa nenhuma novidade naquilo que o governo pretende fazer.

Estamos ainda achando que já fizemos muito. A nossa matriz energética é muito limpa: "Já fizemos mais do que vocês, países desenvolvidos, não venham nos cobrar." Como se a gente tivesse alguma vantagem em, a partir de agora, crescer como todo mundo, aumentando emissões.

A presidente Dilma é presidente do Fórum, mas participa pouco. Quando participa, vem com aquele discurso de que investimento em energia solar e eólica é fantasia.

Isso deve piorar agora, após a indicação dos ministros Kátia Abreu (Agricultura) e Aldo Rebelo (Ciência, Tecnologia e Inovação), ambos refratários a essa agenda?

A princípio a indicação deles demonstrou que tanto a questão ambiental quanto a questão climática não são vistas necessariamente de forma estratégica.

No momento em que o ministro da Ciência nega abertamente ou questiona se estamos passando por uma mudança climática por interferência humana, apesar da ciência clara, cristalina, isso indica de fato que as condições são piores hoje.

Qual é a chance de que em Paris, em dezembro, saia um acordo significativo quanto à meta de manter o aquecimento no limite de 2ºC até o final do século XXI?

Não tenho dúvida nenhuma de que vá sair um acordo em Paris. Do ponto de vista da diplomacia, do multilateralismo, não existe a menor possibilidade de não haver. Mas hoje a perspectiva é que não haja o necessário para nos manter na trajetória dos 2 graus.

Num ano com ajuste fiscal, CPI da Petrobras, Operação Lava Jato, rumores sobre impeachment, qual é a chance de o Brasil mudar sua posição e adotar uma meta ambiciosa?

A gente está falando do pós-2020. O Brasil tem condições de assumir um novo desvio da curva tendencial. É inaceitável que o país tenha sistematicamente médias históricas de emissão per capita acima da mundial.

O Brasil é um dos maiores emissores e alguns o colocam entre os que têm maior responsabilidade pelo aquecimento global acumulado. Não é um pequeno país em desenvolvimento. Vai chegar a 2020 já tendo eliminado a miséria, vai poder assumir um compromisso de redução de emissões forte.

Que compromisso o Brasil deveria assumir, em termos concretos? O governo já descartou o desmatamento zero em 2030 ao não assinar a Declaração de Nova York, em setembro.

O desmatamento tem de voltar à pauta. Mesmo que o Brasil não participe do grupo que organizou a declaração, e mesmo que não faça parte de movimentos para a restauração florestal, vamos iniciar um debate, ver o que a gente tem a ganhar com desmatamento zero, em todas as regiões.

Vocês, do Observatório, têm uma proposta concreta para o Brasil levar a Paris?

Se o país estiver falando sério sobre o compromisso assumido em 2010 em Cancún, de ajudar a limitar o aquecimento global a, significa assumir uma meta de redução absoluta de emissões, e não só uma mudança de curva.

Nós temos emissões brutas de quase 1,6 bilhão de toneladas de CO2, e todas as análises que fizemos nos levam a emissões abaixo de 1 bilhão de toneladas em 2030. Talvez até muito abaixo disso, se estivermos falando de um compromisso ambicioso.

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