"Os governos querem militarizar a internet", diz diretora de "Citizenfour"

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06 Março 2015

A diretora de "Citizenfour", Laura Poitras, o documentário sobre Edward Snowden e o escândalo da espionagem da NSA que estreia nos cinemas franceses na quarta-feira (4), participou na terça (3) de um debate organizado pelo "Le Monde" e pela produtora Haut et Court. A seguir, alguns dos principais momentos.

A reportagem foi publicada pelo jornal Le Monde e reproduzida Portal Uol, 05-03-2015.

Qual o atual estado de Edward Snowden?

Mesmo explicando que não tem contato diário com o denunciante da NSA, Laura Poitras ressalta que ele é "livre para se deslocar" dentro da Rússia e que ele "deu várias palestras sobre a importância da privacidade" desde que ele se refugiou em Moscou. Snowden de fato participou de vários eventos, através de videoconferência, como foi o caso recentemente em Paris.

Como foram as filmagens?

Como ela explica no filme, quando ela começou a trabalhar sobre os Estados Unidos pós-11 de Setembro, ela foi sistematicamente parada e interrogada na fronteira toda vez que entrava nos Estados Unidos. Então para fazer o "Citizenfour" ela se mudou para Berlim, o que não tranquilizou seus temores: "Nós falávamos muito de coisas ruins que podiam acontecer. Tínhamos medo de que nossa sala de edição fosse alvo de uma batida, que nossas imagens fossem apreendidas. Não falávamos muito de cenários positivos".

Ela tem medo de voltar aos Estados Unidos?

Laura Poitras recuperou um pouco de margem de manobra em seus deslocamentos: "Durante seis anos fui parada e interrogada cada vez que ia aos Estados Unidos. Eles me questionavam e copiavam tudo que havia em meus cadernos de anotação. Isso parou um ano atrás. Mas eu não diria que não sou mais alvo de uma vigilância específica".

O Oscar seria uma prova do impacto do filme?

"No Oscar são os profissionais do cinema que votam, é um reconhecimento [do mundo do cinema]". Mas Laura Poitras também acha que "as mentalidades mudaram enquanto fazíamos esse filme. Houve uma conscientização em relação à tecnologia, ao seu impacto, à maneira de utilizá-la".

Sobre as reações políticas após as revelações de Edward Snowden

Laura Poitras refuta a ideia de uma apatia na qual os cidadãos teriam mergulhado e que explicaria uma certa falta de reações a respeito do escândalo da NSA, nos Estados Unidos e na Europa. "Acho que estamos todos meio decepcionados com nossos governos. Mas vimos mudanças acontecendo. A Europa se preocupou muito com isso, é um problema de soberania para os europeus. Eu trabalhei para a "Der Spiegel" na Alemanha, e a maneira como o Reino Unido espiona o resto da União Europeia preocupa muito os alemães – e acho que essa vigilância também é ilegal no Reino Unido."

Sobre os meios de se controlar as atividades das agências de inteligência

"Não é porque uma coisa é tecnicamente possível que devemos fazê-la", acredita Poitras. "Temos muitas armas, mas não é por isso que devemos utilizá-las... Só que os governos querem militarizar a internet. Temos um abismo entre as possibilidades oferecidas pela tecnologia e a maneira como elas são reguladas. E essa regulação é justamente o que deveríamos fazer nas democracias. O próprio Snowden não diz que não deveria haver nenhum tipo de vigilância, mas sim que não deve haver uma vigilância em massa."

Sobre o crescimento da ameaça jihadista e os atentados de Paris e de Copenhague

"Se os governos puderem usar esses ataques para restringir nossas liberdades eles o farão, e nós precisamos reagir", acredita Laura Poitras. "Não devemos abandonar nossa liberdade em nome da segurança. O uso que meu país faz da violência, sua política de ocupação, de detenções arbitrárias, de tortura no Iraque e em outros lugares, vem aumentando a insegurança em todo o mundo."

A criptografia seria uma solução viável para os cidadãos?

Sobre a questão do uso de ferramentas para proteger a privacidade como opção realista  para os cidadãos preocupados com as revelações de Snowden, Laura Poitras explica que antes de tudo cabe "ao governo regular as coisas" e estabelecer limites para a vigilância.

Mas ela reconhece que "cada vez mais empresas têm oferecido esse tipo de soluções a seus clientes". A um membro da plateia que lhe perguntou se é possível realmente confiar em empresas, ela observou que no final do filme, nos créditos, não consta nenhuma empresa, mas sim "softwares livres e gratuitos como o TOR [The Onion Router]". "Respondendo à sua pergunta, eu não confio nas grandes empresas."

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