Igreja na era secular: discernir para agir. Entrevista com Juan Carlos Scannone

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04 Março 2015

"Igreja e discernimento espiritual na era secular no mundo global." Esse é o tema específico escolhido pelo teólogo e filósofo jesuíta argentino Juan Carlos Scannone, escritor da revista La Civiltà Cattolica, para o congresso que inicia nesta quinta-feira sobre Renewing the Church in a secular age [Renovando a Igreja em uma era secular], na Pontifícia Universidade Gregoriana. Uma reflexão essencial que nos leva a reconsiderar a atualidade do discernimento cristão, não só na e para a Igreja.

A reportagem é de Stefania Falasca, publicada no jornal Avvenire, 03-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Professor, por que falar hoje na nossa época secular e globalizada de discernimento espiritual?

Para a Igreja, continua sendo profundamente válida a leitura evangélica dos sinais dos tempos, de acordo com a tradição do "sentir" e do "discernir" segundo os sentidos espirituais, assim como ela se expressou desde a antiguidade com Orígenes, São Bernardo de Claraval, São Boaventura, Santo Inácio de Loyola, e como hoje também é expressada pelo Papa Francisco.

De que modo o discernimento espiritual também pode valer para os processos históricos?

É um processo espiritual por meio do qual se distinguem aqueles impulsos espirituais que nos levam a Deus daqueles que nos afastam dele. Ajuda a tomar decisões e a fazer escolhas segundo o Evangelho. Isso pode valer para a vida pessoal de cada um, mas também como modalidade para os processos históricos. O discernimento espiritual evangélico, de fato, busca reconhecer a presença do Espírito na realidade humana e cultural, a semente já plantada da sua presença nos acontecimentos, nos desejos, nas tensões profundas dos contextos sociais, culturais. É um fator que caracteriza a espiritualidade inaciana, mas, acima de tudo, é uma atitude que nos leva a ser interiormente abertos ao diálogo, ao encontro, a encontrar a Deus em todo o lugar.

Essa é a atitude que constitui a Igreja discernente?

Segundo o Concílio Vaticano II, a Igreja, para ser fiel à sua missão, deve "perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho", é um "dever permanente da Igreja" (GS 4). Estes não são apenas os sinais distintivos de uma época, mas também "os verdadeiros sinais da presença ou da vontade de Deus" nela e para ela, para que sejam orientados "para soluções plenamente humanas" (GS11), para a edificação da sociedade. A doutrina social da Igreja faz isso. O método "ver, julgar, agir", praticado pelas Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano de Medellín, Puebla e Aparecida partem desse olhar. Portanto, nesse sentido, a Igreja acompanha a amadurecer um discernimento que penetra e ilumina os processos das contingências históricas e das convivências histórico-sociais, em uma atitude de oferta alheia a competições e confrontos ideológicos.

O senhor afirma que esse olhar encontra ressonâncias, paralelos também com a filosofia contemporânea, e que os princípios constitutivos dessa metodologia, portanto, podem ser válidos e aceitos por todos...

Sim. Em Discernimiento filosofico dé la acción y pasión históricas, eu defendo isso através, particularmente, da contribuição de Paul Ricoeur. Basicamente, eu digo que, nesta era secular e neste mundo globalizado, os critérios para tal discernimento, que para a fé é guiado pelo espírito de Deus, pode ser compartilhado por todos os homens e mulheres de boa vontade, sejam crentes ou não crentes, ou pertencentes a diferentes culturas ou religiões, em um diálogo o mais amplo possível, em uma visão despojada da autorreferencialidade e, portanto, aberta à cultura do encontro.

A Evangelii gaudium também vai nessa direção?

A Evangelii gaudium é o fruto de uma leitura dos sinais dos tempos à luz do Evangelho, portanto, de um discernimento espiritual eclesial e, ao mesmo tempo, histórico-social. Lá, enfrenta-se na raiz o problema da Igreja e do mundo atual, minados pela preguiça, pela autorreferencialidade, pela inércia do coração, pela violência, pela náusea, como dizia Sartre, que leva à tristeza, ao fechamento e ao isolamento na convivência social. À urgência do momento e à crise na Igreja, ela responde com o próprio Evangelho, com a conversão ao Evangelho. Porque é a partir do Evangelho que a fé e a vida cristã podem reconquistar a sua frescura (EG 11). Só a alegria do Evangelho como dom do Espírito Santo pode suscitar novamente a alegria de viver, levar a um novo início e, portanto, a uma renovação. Uma renovação que envolve uma saída de si.

Mas por que é tão importante que a Igreja "saia de si" para se renovar?

A saída de si é uma categoria antropológica, teológica, espiritual e pastoral que tem as suas raízes na própria Trindade. As três Pessoas estão em uma relação recíproca e constante e desejaram uma aliança conosco. Dessa vida divina, nasce um movimento dinâmico de saída de si que é gravado nos nossos corações pela graça. Por isso, a caridade, que nos faz sair de nós mesmos para os outros, é a maior das virtudes. Quando dizemos que a Igreja é missionária por natureza, estamos justamente dizendo isto: que foi instituída para que saísse constantemente de si mesma para o serviço, o diálogo, a oferta, a missão. A metafísica, que procura explicar o que há mais profundo na realidade, nos ensina que o próprio bem é difusivo e que o que é bom tende sempre a se comunicar. Se a realidade criada por Deus funciona assim, se o dinamismo da graça é o dinamismo da saída, então o único modo de se manter vivo, de crescer e de se renovar permanecendo fiel é sair de nós mesmos na missão.

Quais são, em sua opinião, as responsabilidades sociais das quais o magistério é chamado hoje a se encarregar?

A fonte de toda responsabilidade da Igreja no mundo reside na caridade, no amor de Deus. Na homilia aos cardeais reunidos no último consistório, o papa disse que, precisamente, que, entre as duas lógicas – a lógica da marginalização marcada pelo medo e a lógica da integração –, o caminho da Igreja é esta última. Ou seja, a de adotar integralmente a lógica de Deus, que, com a sua misericórdia, abraça e acolhe, reintegrando e transfigurando o mal em bem, a condenação em salvação, e a exclusão em anúncio.

No entanto, somos sobrecarregados pelos crimes que são cometidos nas nossas sociedades, e uma solução de tais dilacerações parece impossível...

Vemos continuamente as vítimas de todas as formas de exclusão nas nossas sociedades doentes. Estamos imersos nas contradições sociais aparentemente insolúveis, naquilo que o teólogo canadense Bernard Lonergan, em A study of human understanding, chama de "absurdo social". Mas as contínuas ações e os gestos sugeridos pelo papa em favor de uma práxis inclusiva, no exercício do diálogo e em favor da pacificação pelo bem comum, embora não possam encontrar uma confirmação imediata plenamente resolutiva, também deixam sinais reais que incidem nos processos da história justamente em direção a uma superação do absurdo social.

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