Compartilhar Compartilhar
Aumentar / diminuir a letra Diminuir / Aumentar a letra

Notícias » Notícias

Linchamento e tortura de negros no sul dos EUA: não apenas racismo, mas também ritual religioso

O clichê é que os norte-americanos têm memória curta, mas, desde o início de fevereiro, muitos de nós têm discutido sobre as guerras religiosas medievais e se elas têm alguma lição a nos ensinar sobre a violência de hoje no Oriente Médio.

A reportagem é de Jamelle Bouie, publicada pelo sítio Slate, 10-02-2015. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

Para aqueles que ainda não sabem, esse debate começou depois dos comentários do presidente Obama no National Prayer Breakfast [um café da manhã anual de oração] onde - depois de condenar o grupo radical islâmico ISIS como um "culto da morte" - ele ofereceu um pensamento moderador. "Para que não sejamos arrogantes e pensemos que isso é único de algum outro lugar, vamos lembrar que, durante as Cruzadas e a Inquisição, pessoas cometeram atos terríveis em nome de Cristo. Em nosso país, a escravidão e Jim Crow, muitas vezes, foram justificados em nome de Cristo ... Portanto, isso não é exclusivo de um grupo ou de uma religião. Há uma tendência em nós, uma tendência ao pecado que pode perverter e distorcer a nossa fé".

É um ponto simples - "nenhuma fé tem um monopólio especial sobre arrogância religiosa" - isso tornou-se um ponto de inflamação partidária, enquanto conservadores criticam o presidente por "equiparar" as cruzadas cristãs a radicais islâmicos, acusam-no de crenças anti-cristãs, e se perguntam por que ele gostaria de mencionar um conflito de séculos atrás, mesmo que tenha algumas analogias aos dias atuais.

O que perdemos na discussão sobre as cruzadas, no entanto, é a menção de Obama sobre a escravidão e Jim Crow. Na revista Atlantic, Ta-Nehisi Coates coloca seu foco em justificativas religiosas para a escravidão nos EUA, e vale a pena fazer o mesmo para o seu sucessor logo após a Guerra Civil Americana. E já que estamos pensando em termos de violência religiosa, nossos olhos devem voltar-se para o espetáculo mais brutal do reinado de Jim Crow, o linchamento.

Na maior parte do século entre as duas Reconstruções, a maioria branca do sul dos EUA tolerava e sancionava a violência terrorista contra os negros. Em um novo relatório da Equal Justice Initiative no Alabama documenta cerca de 4.000 linchamentos de negros nos 12 estados do sul -Alabama, Arkansas, Flórida, Geórgia, Kentucky, Louisiana, Mississippi, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Tennessee, Texas e Virgínia - entre 1877 e 1950, que o grupo observa é "pelo menos 700 linchamentos a mais nestes estados do que anteriormente relatado".

Para as vítimas, a máfia de linchamento conhecida pelo apelido "Judge Lynch" - nome dado pela jornalista Ida B. Wells pela semelhança com os julgamentos irregulares de Charles Lynch (1736-1796) - era caprichosa, impiedosa e bárbara. C. J. Miller, falsamente acusado de matar duas irmãs adolescentes brancas no Kentucky, foi "arrastado pelas ruas até uma plataforma rústica feita de barris", escreve o historiador Philip Dray em At the Hands of Persons Unknown: The Lynching of Black America [Nas mãos de pessoas desconhecidas: o Linchando da América preta]. Seus agressores o enforcaram em um poste telefônico, e ao mesmo tempo, "a primeira queda quebrou o pescoço (...) o corpo foi repetidamente levantado e abaixado, enquanto a multidão atirava com armas de pequeno calibre". Por duas horas, o seu cadáver ficou pendurado na rua, durante as quais ele foi fotografado e mutilado por espectadores. Finalmente, ele foi cortado e queimado.

Mais selvagem foi o linchamento de Mary Turner e de seu filho que estava em seu ventre, morta por protestar contra o assassinato de seu marido. "Diante de uma multidão que incluía mulheres e crianças", escreve Dray, "Mary foi despida, pendurada de cabeça para baixo pelos tornozelos, embebida com gasolina e assada até a morte. Em meio a esse tormento, um homem branco abriu a barriga inchada com uma faca de caça, e seu bebê caiu no chão, deu um grito, e foi pisoteado até a morte".

Estes linchamentos não eram apenas punições de vigilantes ou, como o grupo Equal Justice Iniative observa, "atos comemorativos de controle e dominação racial". Eles eram rituais. E, especificamente, eles eram rituais de evangélicos sulinos com os seus dogmas de pureza, literalismo e supremacia branca. "O cristianismo era a lente primária através da qual a maioria dos sulistas buscavam conceitos e tentavam dar sentido ao sofrimento e à morte de qualquer tipo", escreve a historiadora Amy Louise Wood em Lynching and Spectacle: Witnessing Racial Violence in America, 1890–1940 [Linchamento e Espetáculo: Testemunhando a violência racial na América, 1890-1940]. "Seria inconcebível que eles pudessem infligir dor e tormento nos corpos de homens negros sem imaginar essa violência como um ato religioso, carregado de simbolismo e significado cristão".

O Deus do Sul branco exigia pureza - encarnada pela mulher branca. Os sulistas brancos construíram a barreira com a segregação. Mas quando era violada, o linchamento era a maneira de consertar a cerca e afirmar a sua liberdade a partir da contaminação moral, representada por negros e mulheres negras em particular. (Embora, não se limitando a eles. Leo Frank, linchado em 1915, era judeu.) A percebida violação era frequentemente sexual, definida pelo mito do estuprador negro, um "demônio" e "besta" que saía para destruir a pureza cristã da feminilidade branca. Em sua narrativa do linchamento de Henry Smith - morto por causa de um alegado estupro e assassinato de um menino de 3 anos de idade, Myrtle Vance - o escritor P.L. James contou como "a energia de uma cidade inteira e do país voltou-se para a apreensão do demônio que havia devastado um lar e poluído uma vida inocente".

James não estava sozinho. Muitos outros defensores dos linchamentos entendiam seus atos como um dever cristão, consagrado como a vontade de Deus contra a transgressão racial. "Depois do linchamento de Smith", Wood nota, "outro defensor escreveu: "Não foi nada mais do que a vingança de um Deus ultrajado, dispensado a ele, através da instrumentalidade das pessoas que causaram a cremação". Como o professor emérito Donald G. Mathews, da Universidade da Carolina do Norte, escreve no Journal of Southern Religion, "A religião permeava o linchamento comunal porque o ato ocorria no contexto de uma ordem sagrada projetada para sustentar a santidade". A "ordem sagrada" era a supremacia branca e a "santidade" era a virtude branca.

Gostaria de salientar que os negros da época compreendiam o linchamento como enraizado na prática cristã dos sulistas brancos. "É extremamente duvidoso se o linchamento poderia existir sob qualquer outra religião que não fosse o cristianismo", escreveu o líder do NAACP, Walter White, em 1929, "Nenhuma pessoa que esteja familiarizada com os pregadores que batiam com a Bíblia, acrobáticos e fanáticos com o fogo do inferno, no sul do país, e que tenha visto as orgias de emoção criadas por eles, pode duvidar por um instante que as paixões perigosas são liberadas, contribuindo para a instabilidade emocional e que desempenham um papel no linchamento. E embora alguns líderes religiosos condenaram a prática, por ser contrária ao Evangelho de Cristo - "Religião e linchamento; Cristianismo e esmagamento, ardor e bênção, selvageria e sanidade nacional não podem andar juntos neste país", declarava um editorial de 1904 -, o consentimento esmagador dos brancos do Sul confirmava a opinião de White.

O único cristianismo sulino unido em oposição ao linchamento foi o dos negros norte-americanos, que tentaram recontextualizar o ataque como uma espécie de crucificação e as suas vítimas como mártires, mudando o roteiro e fazendo dos negros os verdadeiros herdeiros da salvação e da redenção cristãs. É este último ponto que deve ser destacado para mostrar que nada disso era intrínseco ao cristianismo: era uma questão de poder e da necessidade dos poderosos de santificar suas ações.

Ainda assim, não podemos negar que o linchamento - com toda a sua brutalidade grotesca - foi um ato de significado religioso justificada pelo cristianismo da época. Ele também foi político: um ato de terror e de controle social de cidadãos particulares, funcionários públicos e legisladores poderosos. O senador Ben Tillman da Carolina do Sul defendeu o linchamento no Senado dos EUA, e o presidente Woodrow Wilson aplaudiu um filme que comemorava o juiz Lynch e seus discípulos.

Isso tudo é para dizer que o presidente Obama estava certo. Os ambientes vastamente diferentes nos EUA antes da guerra civil e o moderno Oriente Médio desmentem as semelhanças substanciais entre a relativamente recente violência religiosa dos nossos antepassados ​​supremacistas brancos e os nossos inimigos contemporâneos. E a atual divisão entre muçulmanos moderados e seus oponentes fanáticos é análoga à divisão do passado entre o cristianismo do norte e seu homólogo sul.

Isso não é relativismo, mas uma visão clara da nossa vulnerabilidade comum, da verdade de que as sementes da violência e da autocracia podem brotar em qualquer lugar, e do fato de que nossa posição atual na superioridade moral não é prova de intrínseca superioridade.

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

Cadastre-se

Quero receber:


Refresh Captcha Repita o código acima:
 

Novos Comentários

"Se é verdade que houve um erro em expor-se um animal selvagem no episódio aqui relatado, também ..." Em resposta a: 'Erramos', diz Rio 2016 após morte de onça presente em tour da Tocha
"Estou de acordo com os professores.Quem tem direito as terras são os índios, não que sejam dono d..." Em resposta a: Acadêmicos do MS exigem punição para assassinos de Guarani Kaiowá
"Gostei, pois é assim que Igreja católica com seu espírito de supremacia gosta de se referir as Ig..." Em resposta a: A Igreja Católica Romana não é Igreja, afirma sínodo da Igreja ortodoxa

Conecte-se com o IHU no Facebook

Siga-nos no Twitter

Escreva para o IHU

Adicione o IHU ao seus Favoritos e volte mais vezes

Conheça a página do ObservaSinos

Acompanhe o IHU no Medium