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Por: André | 26 Fevereiro 2015

Empresas de consultoria, políticos e meios de comunicação falam da classe média. Todo o mundo parece saber o que é o que quer dizer essa classe. Grande parte da sociedade se reconhece como parte dela, mesmo quando pertence a diferentes zonas, profissões e tenha ideias políticas opostas. Pode ser possível que a classe média seja tão ampla e tão diversa? Ou, na realidade, não existe a classe média como a imaginamos? E em todo caso, se as classes médias são uma ficção, por que a necessidade de sua existência e de se sentir parte dela? Estas são algumas perguntas que se fazem e às quais tentam responder os pesquisadores Ezequiel Adamovsky (historiador), Sergio Visacovsky (antropólogo cultural) e Patricia Vargas (antropóloga social) no livro que compilaram, Clases medias. Nuevos enfoques desde la sociología, la historia y la antropología, editado pela Ariel.

A entrevista é de Sonia Santoro e publicada no jornal Página/12, 23-02-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Existe a classe média?

Ezequiel Adamovsky: A classe média existe, mas como identidade; não há um grupo sociocultural concreto da população que seja uma classe como tal. É uma identidade que, no entanto, não tem por trás de si uma verdadeira classe. É um conjunto de ideias sobre o que significa ser de classe média que muita gente compartilha; mas as pessoas que compartilham essas ideias não necessariamente têm muito em comum entre si ou o suficiente em comum para que a consideremos verdadeiramente uma classe social.

Sergio Visacovsky: Habitualmente, por exemplo, quem mede determinadas propriedades com base em indicadores de uma população, estabelece a priori o que vai medir e determina que o que vai medir é precisamente uma categoria que é a classe média. A confusão que costuma resultar, em consequência, destas medições é que essa medição resultante não necessariamente se traduz em comportamentos e crenças reais e efetivas. Isso se pode verificar facilmente em qualquer pesquisa empírica de caráter histórico, de caráter etnográfico ou sociológico. Agora, evidentemente, as pessoas invocam uma forma de adesão a uma espécie de identidade coletiva que se denomina classe média, que não necessariamente tem uma relação com as categorias sociológicas ou econômicas. Dentro dessa população que habitualmente é homologada nessa categoria, pode existir uma grande heterogeneidade, uma grande diversidade. E o problema justamente está em estudar essa diversidade, mas ao mesmo tempo entender porque toda essa heterogeneidade adere a uma mesma categoria.

Patricia Vargas: O desafio da etnografia está precisamente em tratar de compreender de maneira situada os processos de autofiliação e de atualização dos usos produtivos que esta categoria tem (classe média) como forma de classificação em diferentes contextos: em processos produtivos, educativos, de consumo. Qual é o sentido da atualização da categoria? Para que serve? Para demarcar fronteiras sociais, para distinguir-se, para aproximar-se de outros?

Então, por que grande parte da sociedade se reconhece como fazendo parte da classe média, embora, como vocês dizem, quando se toma certas variáveis, não o seria? Vocês explicam isso em um artigo a partir de uma “performatividade ideológica” do conceito. O que quer dizer?

Ezequiel Adamovsky: Essa noção de performatividade ideológica tem a ver com o fato de que a categoria de classe média não é meramente descritiva da realidade, mas produz uma realidade, recorta um terceiro espaço, uma classe intermediária entre a classe alta e a classe baixa. Ou seja, é uma categoria que dispara uma imagem mental de que a sociedade se divide em um acima, em um meio e em um abaixo. Isso é puramente uma imagem; a realidade não tem um volume no qual se possa assinalá-los. De modo que essa categoria recorta essa distinção em três e, além disso, associa o espaço intermediário com o espaço do equilíbrio, do justo meio entre extremos. E esse equilíbrio é, por isso mesmo, um lugar de baluarte de garantia moral. Nesse sentido é que a própria categoria de classe média trafica sentidos ideológicos e políticos, e valoriza determinado conjunto da população acima dos outros.

Patricia Vargas: Estava pensando no caso que trabalhei para a tese de doutorado sobre desenhistas. E aí a classe média ajuda a pensar esta dimensão moral em termos nativos para distinguir-se de outras pessoas em relação aos processos produtivos e de consumo. Para distinguir-se dos empresários e dos comerciantes, por exemplo. E para reafirmar-se como empreendedores em termos morais, que em princípio pode parecer uma categoria econômica, mas que, no entanto, atende a um modo de se relacionar com os trabalhadores, a um modo de produção.

Muito interessante a descoberta da sua pesquisa: dois irmãos, um artesão e outro desenhista, vendendo as mesmas bolsas, a preços diferentes...

Patricia Vargas: E da circulação dos objetos e como também isso performa o sentido ou não que um objeto tem como desenho ou como artesanato, e a circulação e a biografia destes sujeitos.

Sergio Visacovsky: Quero acrescentar duas coisas. Por um lado, eu não diria que há uma espécie de confusão, por exemplo, quando setores muito empobrecidos da população aderem a uma identidade de classe média. Na realidade, isto se poderia entender melhor pelo lugar que tiveram precisamente esta identidade e uma série de relatos constitutivos desta identidade dentro da sociedade argentina. Ou seja, por um lado, temos que falar de uma categoria sociológica que tem certas características universais vinculadas ao desenvolvimento do capitalismo.

Mas, por outro lado, há uma especificidade que poderíamos definir como histórica e culturalmente própria do desenvolvimento argentino em relação com o que se entende por classe média na Argentina. Isso está vinculado a questões muito centrais, por exemplo, à origem e desenvolvimento da Nação, ao papel da imigração e, particularmente, desta imigração europeia à qual se atribui certos valores morais de superioridade sobre outros contingentes populacionais; valores centrados no esforço, no sacrifício, etc. Tudo isto muito vinculado a todo o relato da mobilidade social ascendente, que foi tão fundamental. Pode-se fazer estudos concretos que mostrem o que as pessoas concretas estão fazendo com esta categoria, porque há sentidos muito diversos. Há a narrativa positiva, centrada na mobilidade social; e há também um contra-relato da classe média...

Podemos vê-lo na crise de 2001...

Sergio Visacovsky: Eu estudei o modo como os meios de comunicação definiram e caracterizaram as mobilizações urbanas, sobretudo na Cidade de Buenos Aires e na Grande Buenos Aires. E as qualidades que atribuíam por ser de classe média eram incrivelmente convergentes. Todo o arco ideológico dos meios de comunicação coincidia em definir precisamente essas mobilizações como de classe média. E, ao mesmo tempo, surgiu quase paralelamente um debate em torno de se a classe média havia mudado definitivamente, se havia, finalmente, se dado conta de que seu lugar era estar na rua, na mobilização, junto com o povo, junto com os despossuídos, ou se isso era algo completamente conjuntural, que tinha a ver basicamente com o fato de que tocou no bolso. O que estava em jogo aí eram esses dois sentidos, associados a um relato positivo e a um relato negativo ou contra-relato sobre a classe média, que são também constitutivos desta força, que é de algum modo constitutivo da ideia de nação.

Neste momento em que temos um governo que se diz popular, o que acontece com a classe média e suas manifestações?

Ezequiel Adamovsky: Embora tanto os grupos de oposição como o Governo estejam de acordo em afirmar que a classe média está por trás das manifestações contra o Governo, não se pode falar nestes anos da classe média como sujeito político que esteja agindo em bloco com esta ou aquela identidade. O que os estudos de sociologia eleitoral mostram, por exemplo, é que boa parte dos setores médios votou em Cristina Fernández nas eleições, de modo que não é correto dizer que “a classe média” em seu conjunto esteja agindo desta ou daquela maneira.

De alguma maneira, por motivos diferentes, convém a todos os setores políticos do momento apresentar uma imagem segundo a qual a classe média é, sim, um sujeito político e age desta maneira. Convém aos opositores, porque de alguma maneira reclamam para si a representação da classe média como força moral da Nação e esta ideia está muito presente nos discursos de vários dos políticos, particularmente de Elisa Carió. E convém aos setores afins ao Governo porque, por um lado, permite situar-se a si mesmos como os representantes do popular, do povo; e, por outro lado, utilizar um discurso difamatório da classe média, que na Argentina é muito efetivo, que é aquilo que comentava o Sergio da classe média como um grupo que não compreende as necessidades do país, que está sempre disposto a identificar-se com as reivindicações das classes altas, que despreza o popular e os outros. Este é um discurso muito particular na Argentina.

Só na Argentina?

Ezequiel Adamovsky: Sim, com o nível de força que tem. Não conheço outros casos de um país, por exemplo, onde um político que pretende ganhar eleições se permita publicamente a difamar a classe média, contando com o fato de que essa ideia é compartilhada por uma parte importante do eleitorado justamente de classe média. O discurso crítico da classe média, evidentemente, existe na subcultura da esquerda em todas as partes, mas que ela tenha essa presença midiática e pública entre os partidos majoritários é algo muito notável do nosso caso. Portanto, penso que se pode fazer afirmações de como a classe média age ou deixa de agir, porque não penso que seja um sujeito político enquanto tal.

Sergio Visacovsky: Se analisarmos o discurso de Néstor Kirchner na Assembleia Legislativa quando assume a presidência e várias outras intervenções públicas até 2006 aproximadamente, no lugar modelo de país que tem presente, veremos que a classe média ocupa um lugar central. Isso é fantástico, porque o processo depois foi se transformando. Então, é possível pensar o que foi que se transformou. Transformou-se a relação de uma suposta classe média com o governo nacional? Foi se transformando o discurso do governo nacional? Eu creio que é difícil pensar em uma transformação da classe média na medida em que é complexo falar de uma classe média. Não há um sujeito com capacidade de decisão e homogeneidade que possa ser caracterizado desse modo. De um ponto de vista socioeconômico, setores que podem ser catalogados como de classe média podem encontrar-se com adesões políticas muito diversas; portanto, esse caminho é bastante errático.

Diz-se que a Argentina é o país com maior classe média em relação aos países da região. O que há de verdade nisso? Mudou nos últimos anos?

Patricia Vargas: Isso está vinculado a narrativas de origem que seguem tendo muita eficácia com a questão da migração e as narrativas de mobilidade ascendente que seguem funcionando como processos de legitimação social para poder fazer um uso produtivo destas filiações à classe, de invocar a classe para questões diversas.

O Sergio trabalhou muito o tema do sacrifício como categoria de apelação, que permitiu pensar a questão da classe em três gerações. E o que estamos observando com outros colegas é a coexistência que aparece com muita força – sobretudo depois da crise, que para alguns constituiu uma oportunidade – da ideia do esforço com prazer, o trabalho duro e a realização pessoal que atende a categorias do capitalismo, que tem a ver com uma ideia de pessoa mais holística e que permite outro tipo de articulação. Então, é possível perceber entre os estudantes da (Universidade) Jauretche, por exemplo, que eles também invocam, para deixar a faculdade ou não, uma questão de realização pessoal; e isto habilita também uma possibilidade de pensar-se entre a primeira geração de estudantes universitários mais ligados em termos de valores ao que poderia ser a classe média e atualizar-se também dessa maneira.

Sergio Visacovsky: Há duas leituras da pergunta. A primeira tem a ver com uma escala de medida que permite, por exemplo, entender em que medida uma sociedade está deixando de ser mais pobre ou menos pobre (os relatórios do Banco Mundial utilizam este tipo de escala para ver, por exemplo, o que está acontecendo na região). Na medida em que, a partir da caracterização de um dos estratos – a classe média – com vistas a alcançar determinado nível de renda, ocupação, escolaridade, etc., é possível falar de processos de inclusão de setores que estiveram decididamente excluídos durante boa parte dos anos 1990, pode-se dizer então que a classe média, do ponto de vista dessa escala, recuperou um nível histórico, sempre comparado com algum momento. Agora, voltando à questão inicial, não se deve confundir essa escala com a forma como a classe média existe socialmente. Ou seja, a forma como a categoria é interpelada, utilizada em uma realidade social concreta. O outro aspecto é o lugar que esta apelação de classe média tem na Argentina. E aí a questão é mais difícil de apreender, porque há a necessidade de muito mais estudos.

Em um artigo falam das fissuras que há na definição. Pontualmente mencionam a situação das mulheres e das minorias étnicas como setores para os quais seria mais difícil serem incluídos nesta classe.

Sergio Visacovsky: Tradicionalmente, um dos modos de decidir que tipo de ocupação é de classe média e que tipo de ocupação não, foi considerar de classe média aquelas ocupações que permitem um canal de ascensão social; por exemplo, ocupações de trabalho não manual, administrativo, que permitem uma carreira de ascensão de postos mais baixos para postos gerenciais. E parte da justificativa de por que um emprego de baixa categoria, no qual na melhor das hipóteses se ganha menos que com um trabalho manual, no entanto corresponde considerá-lo de classe média, porque permite a ascensão. As pesquisas empíricas mostram que efetivamente esse tipo de emprego pode permitir canais de ascensão, mas não para qualquer pessoa, mas para determinadas pessoas. No caso das mulheres, é muito menos frequente que uma mulher ascenda de um posto administrativo baixo para um posto gerencial alto. O mesmo vale para grupos de minorias étnicas. Então esse tipo de pesquisa mostra os desvios de gênero e étnicos na própria definição da categoria de classe média, que implicitamente está apontando para uma categoria de classe média que é masculina e branca.

Patricia Vargas: A primeira pesquisa que fiz para a minha tese de mestrado foi sobre a filiação étnico-nacional entre trabalhadores da indústria da construção: bolivianos, paraguaios e argentinos. E aí o que apareceu fortemente foram duas questões: uma, entre as motivações para migrar, a ideia de progresso ligada a vir a civilizar-se, que tem uma conotação muito forte relacionada com a aprendizagem do trabalho, mas com a ideia de poder ascender em um ofício em um ramo que o permite. E, por outro lado, a filiação étnico-nacional a partir da condição de conterrâneo, ligada à nacionalidade – ser paraguaio, boliviano ou argentino – como uma forma de poder articular a possibilidade de ascensão, de passar de meio oficial a oficial em termos desta vinculação. Isto um pouco para discutir em seu momento a ideia de que os migrantes ocupavam os piores lugares. No entanto, este trabalho permite-lhes pensar-se a si mesmos como empreiteiros. E inclusive alguns, 10 anos depois dessa pesquisa, como investidores e donos dessas construtoras.

Em geral, as primeiras migrações europeias aparecem ligadas à classe média. Não sei se para o comum das pessoas relacionam-se as migrações dos países limítrofes com esta classe.

Sergio Visacovsky: Na realidade há duas questões. Por um lado, uma leitura objetiva em termos de contingentes populacionais que migram da Europa para a Argentina, e que na segunda ou terceira geração se dá uma mobilidade social ascendente. Esse movimento é o que de algum modo faz emergir e crescer os segmentos de classe média na Argentina. Esta é uma versão padrão, tradicional. É o relato de origem da classe média, e é mais interessante ainda que não somente pode ser encontrada em textos acadêmicos, mas nas histórias de vida de descendentes de imigrantes europeus. O que mostra que tem uma vigência e uma força que é cultural, na medida em que permite uma forma de identificação, por um lado, com determinadas origens e com determinados modos de ascender socialmente e não outros. Por exemplo, aqueles que trilham o caminho da privação, do esforço.

Agora, o que se diz habitualmente? Que isso não é algo que é defendido ou que é um valor brandido somente por aqueles que se dizem fazer parte da classe média. Sempre dou o exemplo do Diego Maradona contando como sua mãe dizia, na hora de comer, que lhe doía o estômago; então a comida ficava para seus filhos. Ele disse: “Muito tempo depois descobri que o que minha mãe estava fazendo era sacrificar-se para que nós pudéssemos comer”, e, em última instância, progredir. Então, mais além da realidade, da adequação empírica do relato, o que mostra é a força, a vigência que tem, o papel que exerce. E é algo que se estende muito além dos setores que têm determinado capital econômico ou cultural. O problema, e o que é mais interessante estudar em termos empíricos, é como não qualquer forma de esforço ou de sacrifício tem o mesmo valor. Isso é crucial. E na boca de quem. Ou seja, que se pode ascender através de meios considerados lícitos para este relato, mas para este outro relato nem tudo é legítimo. E evidentemente o corte de caráter racial parece ser definitivo.

Aí estaria a diferença entre os imigrantes europeus e os latino-americanos...

Patricia Vargas: Claro. Porque não se pode falar de uma classe média universal exatamente por estes aspectos que tem a ver com a historicidade, com a dimensão propriamente cultural. Não quer dizer que sejam exclusivos da Argentina, porque há estudos para o Brasil que mostram que o tema da cor em termos raciais também é significativo do ponto de vista das classificações socioeconômicas. Mas, ao contrário, devemos enfatizar que quando se estuda como isso funciona do ponto de vista social, quando se estuda práticas concretas, evidentemente não se pode dizer que as invocações à cor, que há cores boas e ruins, cores moralmente superiores e cores inferiores, sejam um elemento acessório ou puramente acidental, ou que se resolve simplesmente questionando o racismo, mas que há uma relação constitutiva entre o que se poderia definir entre as ideias ou as narrativas de classe média na Argentina e estas qualidades propriamente étnico-raciais. Como dizia no começo, isto ainda requer muito mais trabalho e pesquisa.

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