A democracia na época das paixões tristes

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Por: Jonas | 25 Fevereiro 2015

“Uma democracia radical que não valorize a capacidade de tocar e sentir não merece que se lute por ela”, escreve Antoni Aguiló, filósofo e professor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, que também considera que “vivemos em uma época marcada pelo predomínio das paixões tristes, que as elites dominantes utilizam para fomentar a passividade e gerar impotência frente ao que se apresenta como inevitável”. O artigo é publicado pelo jornal espanhol El Diario, 20-02-2015. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Acabam de completar 338 anos da morte de Spinoza. A plena vigência de seu legado nos oferece a oportunidade de relacioná-lo com os debates atuais sobre legitimidade democrática e democracia radical. À luz das vicissitudes pelas quais a democracia atravessa (desafeição crescente em relação à política convencional, ascensão de formas de participação para além dos partidos, elevada abstenção eleitoral, etc.), quais são as principais contribuições da filosofia política de Spinoza para construir poder popular a partir de baixo e impulsionar as energias democráticas da sociedade?

O pensamento de Spinoza abre horizontes para uma ação política radical baseada no esforço vital (conatus) de cada pessoa em dar o melhor de si. Para o filósofo, o ser humano se realiza por meio da ação. Tende por natureza para aquilo que aumenta sua capacidade de atuar e rejeita o que a limita ou reprime. “A alma se esforça o quanto pode para imaginar as coisas que aumentam ou favorecem a potência de operar do corpo”, escreve em sua Ética. O interessante está em que o poder de atuar mantém um estreito vínculo com o conatus presente em cada indivíduo: “Operar, viver e conservar seu ser (estas três coisas significam o mesmo)”. Em outras palavras: nossa vitalidade se relaciona de maneira dinâmica com as experiências que propiciam ou entorpecem o desenvolvimento de nossas potencialidades. Quando a vida nos sorri, nossa força vital se desenvolve, ao passo que quando nos golpeia, retrai e se estanca. Em virtude disso, a ética de Spinoza ensina a cultivar as paixões alegres, aquelas que fortalecem nosso poder de ação e estimulam nossos desejos de viver, em oposição às paixões tristes, que as restringem e fragilizam, posto que “a alegria é a transição do ser humano de uma menor para uma maior perfeição”, enquanto que “a tristeza é a passagem de uma maior perfeição para outra menor”.

Ao incidir na ação individual e coletiva, as paixões revelam sua extraordinária fecundidade política. E aqui a contribuição de Spinoza para o enriquecimento da democracia é chave. A democracia surge da luta contra o que diminui ou prejudica a força do conatus, impedindo-lhe de se tornar um sujeito de mudança. Os ditados e abusos do poder provocam uma indignação (o “ódio a quem fez mal o outro”) que atua como matéria-prima para gerar um poder popular de multidão e transformador. Por isso, Spinoza nos convida a pensar a democracia não a partir das coordenadas da política representativa liberal dominante, mas, sim, como uma prática radicalmente participativa, mediante a qual as pessoas envolvidas aumentam sua capacidade de autogoverno. Neste sentido, a democracia é um exercício de autonomia, resistência e inclusive de desobediência aos poderes que oprimem, exploram e nos roubam a alegria (ou a dignidade, para usar um termo mais em voga); é o desenvolvimento de nossa potência de atuar por meio das paixões alegres ou, dito de outro modo, é a luta contra a tristeza, a docilidade e o medo infundidos na sociedade. Por isso, não resulta estranho que no Tratado político-teológico Spinoza caracterize a democracia como o “mais natural dos regimes políticos”.

Frente à frieza da racionalidade política instrumental privilegiada pela modernidade ocidental, Spinoza também incorpora uma sabedoria dos afetos que permite avançar nos caminhos da nova política para uma democracia real, surgida nas ruas e praças. Trata-se de uma sabedoria para a transformação e a libertação que abre espaços para a afetividade e persegue outras formas de construção da política que não se diluem em categorias abstratas (classe operária, povo, etc.), mas, sim, convidam a se comprometer com a vida e a acompanhar as lutas emancipadoras. É uma sabedoria terrena que não separa o sentir do pensar e cujas práticas políticas implicam em um alto grau de reciprocidade e empatia. Por isso, a filosofia de Spinoza constitui um farol de referência para os ativismos que buscam reconectar a política com as preocupações emocionais e práticas da vida diária: os que cercam congressos e bancos, os que param despejos, os que agitam as mãos para buscar consensos, os que têm a coragem de dizer não e de gritar “já basta!”, os que formam marés humanas de camisetas verdes e brancas, os que cantam em meio (e apesar) as restrições policiais, os que se desnudam e exibem a fragilidade do corpo golpeado pelos cortes, os que diante dos cassetetes ameaçantes se sentam pacificamente no chão para pedir a paz e a palavra, os que disparam versos em favor do público, etc. Quem presenciou um despejo compreende melhor do que ninguém o poder mobilizador e emocional de um abraço, o que coloca em relevo o potencial político dos afetos, praticamente suprimidos do espaço público por uma ordem que lhes nega sua politicidade. Uma democracia radical que não valorize a capacidade de tocar e sentir não merece que se lute por ela.

No entanto, vivemos em uma época marcada pelo predomínio das paixões tristes, que as elites dominantes utilizam para fomentar a passividade e gerar impotência frente ao que se apresenta como inevitável. Por isso, enquanto o poder popular for um broto efêmero e não esse conatus que nos impulsiona a continuar lutando de maneira constante e apaixonada, ali, onde for necessário, a democracia radical estará mais próxima da tristeza do que da alegria.

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