Spielberg: o que entendi sobre as tatuagens de Auschwitz

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30 Janeiro 2015

"O modo mais eficaz para combater esta intolerância e prestar honra àqueles que sobreviveram e àqueles que morreram é o de exortar-nos uns aos outros a fazer aquilo que os sobreviventes já fizeram: recordar e não esquecer jamais", escreve Steven Spielberg, diretor e produtor cinematográfico, em artigo publicado por La Repubblica, 28-01-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o artigo.

Quero agradecer a tantos sobreviventes e a seus familiares pela possibilidade de estar aqui, para compartilhar este momento convosco. Tem um enorme significado para nós, é para mim pessoalmente é uma grande honra. Cinquenta e três mil de vocês doaram à nossa fundação as vossas histórias de vida e de morte. Desde então me sinto como se pertencesse a cada um de vocês. Todos nós nos sentimos assim. Quando somos jovens vivenciamos experiências profundas, das quais na ocasião não nos damos conta, mas que lançam as bases do nosso modo de conceber o comportamento humano, e mais especificamente a dor e o trauma. Eu disse no passado que uma das minhas primeiras experiências de aprendizagem, uma das minhas primeiras recordações, é de quando aprendíamos a ler os números dos sobreviventes do Holocausto, os quais me faziam ver as suas tatuagens: minha avó e meu avô ensinavam o inglês a Cincinnati, a sobreviventes húngaros, e eu, com minha mente de criança, entendia o que diziam aqueles números, mas certamente não conseguia captar sua importância, não conseguia entender que se tratava, na realidade, de marcas indeléveis de morte, de sofrimentos inimagináveis. Mas agora sei que descobrir as raízes de minha identidade de judeu é um processo em contínua evolução. Sobretudo a aprendizagem dos números, como criança. Depois, como adolescente, ver o anti-semitismo em alguns dos meus colegas de aula e em pessoas do meu quarteirão, e ainda, como adulto, a minha chegada aqui a Cracóvia para girar Schindler’s List. Se fordes sobreviventes do Holocausto, a vossa identidade de judeus esteve ameaçada pelo Terceiro Reich. A vossa identidade está inundada de mortalidade, e de atos de ódio indizíveis, mas é também uma identidade permeada de resistência e de uma estima incomparável pela vida, a despeito de todos aqueles que procuraram vo-la tirar. 

A vossa identidade está na coragem que tendes demonstrado contando as vossas histórias. A vossa identidade está no terdes confiado a mim e à Shoah Foundation a custódia de algumas das vossas histórias. Vós sobrevivereis enquanto crianças puderem escutar as vossas palavras, e também perscrutar aquilo que dizem os vossos olhos, e poderão transmitir as vossas mensagens ao futuro e a todas as gerações vindouras.

Esta é a missão que nos demos nós da Shoah Foundation. Se vós nascestes judeu após o Holocausto, como eu, a vossa identidade poderá ser explorada até o fundo somente se estiverdes disposto a reconhecê-la e a abraçá-la, se estiverdes ansiosos por escovar e extirpar o que evocou o Holocausto e desencadeou aquelas e tantas outras atrocidades sob forma de genocídio e terrorismo.

O Holocausto, e esta é uma coisa que compreendemos e respeitamos, o Holocausto, embora para vós e talvez até para vós, seja algo incompreensível. E, é girando a película Schindler’s List aqui em Cracóvia e falando com os sobreviventes que procurei pessoalmente, que procuro compreender o Holocausto. Quando falei com os sobreviventes, eles me disseram que o pensamento sobre o dia em que teriam podido ser escutados, no qual tivessem podido compartilhar as suas histórias e as suas identidades, lhes tinha dado alívio.

E eu sou reconhecido a estes sobreviventes, não só pela sua coragem diante do genocídio, mas porque, procurando ajudá-los a encontrar a sua voz consegui encontrar a minha, pela voz consegui encontrar a minha identidade judaica. Se fordes judeus hoje, e mesmo, se sois pessoas que crêem na liberdade de religião, na liberdade de palavra, na liberdade de expressão, sabeis que, como muitos outros grupos nos encontramos novamente a fazer frente aos demônios eternos da intolerância. Os anti-semitas, os extremistas radicais e os fanáticos religiosos que estimulam crimes de ódio: todas essas pessoas querem, de novo, espoliar do vosso passado, da vossa história e da vossa identidade, e mesmo agora, enquanto estamos aqui a falar das nossas histórias pessoais e daquilo que fez de nós o que somos, estas pessoas rebatem as vossas teses, por exemplo, com as páginas do Facebook que assinalam os judeus com nome, cognome e endereço, com o objetivo de agressão, e com os esforços crescentes para expulsar os judeus da Europa.

O modo mais eficaz para combater esta intolerância e prestar honra àqueles que sobreviveram e àqueles que morreram é o de exortar-nos uns aos outros a fazer aquilo que os sobreviventes já fizeram: recordar e não esquecer jamais. Assumir esta tarefa é uma enorme responsabilidade. Significa preservar lugares como Auschwitz, para que as pessoas possam ver com os seus olhos como as ideologias do ódio podem tornar-se atos tangíveis de homicídio.

Significa compartilhar e sustentar os testemunhos de quem vivenciou diretamente aquele horror, para que possam perpetuar-se em benefício dos professores e dos estudantes de todo o mundo: os testemunhos oferecem a cada sobrevivente uma vida imperecível, e oferecem a todos nós um valor imperecível. E isto nos leva ao agora, ao septuagésimo aniversário da libertação de Auschwitz: não obstante os obstáculos que devemos enfrentar, sinto-me confortado com os nossos esforços comuns para combater o ódio. E minha esperança para a comemoração é que os sobreviventes que estão aqui e os sobreviventes de qualquer parte do mundo possam estar certos que estamos renovando o seu apelo a recordar, que não só faremos conhecer a sua identidade, mas que, fazendo conhecer sua identidade contribuiremos à formação de uma consciência coletiva importante para as gerações vindouras.

Neste aniversário devemos sentir-nos todos encorajados pela consciência de que a nossa causa é uma causa justa, e faremos de modo que os ensinamentos do passado permaneçam conosco no presente, para conseguir, agora e para sempre, encontrar modos humanos para combater a desumanidade. É uma honra estar aqui com todos(as) vós.

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