Thomas Merton: viagem em busca do homem

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29 Janeiro 2015

"No último dia de janeiro de 1915, sob o signo de Aquário, em um ano de uma grande guerra e debaixo das sombras de algumas montanhas francesas na fronteira com a Espanha, eu vim ao mundo. Livre por natureza, à imagem de Deus, entretanto, eu era prisioneiro da minha própria violência e do meu próprio egoísmo, à imagem do mundo em que nasci. Esse mundo era a imagem do Inferno, cheio de homens como eu, amando Deus e, no entanto, odiando-O; tendo nascido para amá-l'O, mas, ao contrário, vivendo no medo e em desesperados apetites autocontraditórios."

A reportagem é de Marco Roncalli, publicada no jornal Avvenire, 28-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Assim diz Thomas Merton, (na foto, o terceiro da esq. para a dir.) no início do seu trabalho talvez mais conhecido, A montanha dos sete patamares, de 1948, recordando o dia do seu nascimento, em Prades, de Owen, neozeolandês, e de Ruth Jenkins, estadunidense, pintores globetrotters.

Um aniversário a ser destacado por mais de uma razão, que encheu uma vida de apenas 53 anos, mas intensa e original como a sua espiritualidade. Escritor que relembra um pouco o visionário William Blake, Merton foi protagonista de um corajoso compromisso com a paz (fonte de rixas com os superiores, depois valorizado por João XXIII e por Paulo VI, com quem manteve trocas de correspondência), além de ser um ponto referência para o movimento não violento pelos direitos civis, analista de uma "paz sobre a terra", fundada em razões evangélicas e confiada ao testemunho ("uma parte essencial da boa nova é que as medidas não violentas são mais fortes do que as armas: com armas espirituais, a Igreja primitiva conquistou o mundo romano inteiro") que permanece em toda a sua atualidade, como mostra o seu livro La pace nell’era postcristiana [A paz na era pós-cristã] (Qiqajon).

Ainda antes, no entanto, Merton foi principalmente um monge inquieto, mas que transformou a ermida, com a pena, em um púlpito sem fronteiras e, com a oração, em um tabernáculo para se conservar, junto à Eucaristia, cada irmão; um trapista defensor da vida monástica eremítica e comunitária, convencido de "manter viva no mundo moderno a experiência contemplativa e manter aberta para o homem tecnológico dos nossos dias a possibilidade de recuperar a integridade da sua interioridade mais profunda". Até transformar a sua própria parábola em um relato incessante da busca de Deus, vivendo-a entre solidão e comunhão, contemplação e ação.

Merton, além disso, deve ser lembrado como homem do ecumenismo e do diálogo, respeitoso das diferenças e concentrado no essencial. No diálogo inter-religioso, mais explorativo do que funcional, ele esteve pronto para se abrir aos hindus, budistas, judeus, islâmicos, para buscar as fontes vitais das outras religiões ("Se eu me afirmo como católico meramente negando tudo o que é muçulmano, judeu, protestante, hindu, budista etc., no fim, eu vou ver que não sobrou muito para me afirmar como católico: e, certamente, nenhum sopro do Espírito para afirmar isso") e com uma grande atenção pelas expressões orientais: vejam-se as suas reflexões reunidas por William H. Shannon (L’esperienza interiore, Ed. San Paolo) ou a sua coleção que reinterpreta um dos Padres do taoísmo (La via semplice di Chuang Tzu, que as Edizioni Paoline reapresentam agora em uma nova edição).

E também o diálogo com os não crentes, expressado na capacidade de ver sinais de "fé inconsciente" nos ateus ou de "ateísmo inconsciente" nos crentes ("O grande problema é a salvação daqueles que, sendo bons, pensam que não precisam mais ser salvos e imaginam que a sua tarefa seja tornar os outros tão bons quanto eles").

Uma vida contemplativa, nunca isolada da realidade. E uma vida consagrada, concebida como porta aberta ao amor. Um itinerário que, depois de muitos perfis traduzidos, encontrou agora o seu "relato italiano", graças a Antonio Montanari, Maurizio Renzini e Mario Zaninelli (da Associação Thomas Merton Itália), autores do livro Il sapore della libertà [O sabor da liberdade] (Ed. Paoline).

Tendo ficado órfão muito jovem, com o seu irmão John Paul (perdeu a mãe em 1921, depois o pai em 1931), Thomas, tendo passado parte da infância nos Estados Unidos e a sua formação na França e na Inglaterra (mas, aos 18 anos, também visitou Roma, "a cidade transformada pela Cruz"), chegou a Nova York em 1934, completando os estudos na Columbia University.

Desembarcou no catolicismo em 1938, deixando para trás também períodos vividos como libertino folião ("A minha conversão foi ajuda de Deus, como toda conversão, e, de minha parte, foi estudo e pesquisa"), três anos depois, durante a Segunda Guerra Mundial, entrou na Abadia de Nossa Senhora do Gethsemani, no Kentucky, entre os cistercienses da estrita observância e, em 1949, foi ordenado sacerdote.

Um "marco", depois de um percurso marcado por estudos, viagens, deslizes, encontros, por um contínuo interrogar-se sobre o sentido da vida, até à atração pelo claustro. Um percurso cujas etapas se refletem em tantas páginas mertonianas, às vezes atormentadas, mas orientadas na direção da Graça, espalhadas entre Nenhum homem é uma ilha (1953); O sinal de Jonas (1952), Sementes de destruição (1966), Diário de uma testemunha culpada (1067), traduzidos ao italiano pela editora Garzanti, sem esquecer Sementes de contemplação (de 1949, agora no catálogo da editora Lindau) e outros escritos, em que a vida contemplativa nunca é fuga do mundo, mas um modo para entrar em um diálogo profundo com o homem.

Esperando uma editora pronta para apresentar a versão completa dos seus diários, talvez se possa reabrir Scrivere è pensare, vivere, pregare [Escrever é pensar, viver, rezar] (Ed. Garzanti), editado pelo frei Patrick Hart e Jonathan Montaldo, uma síntese cujo resultado é dado por uma compilação de "sete salas", para se atravessar seguindo o fio condutor daquele diário que Merton começou a escrever aos 16 anos e do qual se separou apenas na morte.

Do quarto de número 35, na Perry Street, em Manhattan, e dos quartos de hotel ocupados em Miami e em Cuba, onde viveu depois da conversão em 1938, até o bangalô de Bangkok, onde um ventilador o fulminou no dia 10 de dezembro de 1968 (ele se encontrava lá para um congresso sobre o monaquismo e, como documenta o Diário Asiático, agora reproposto pela Gabrielli Editori, estava bem preparado), passando pelos lugares familiares a ele na Abadia de Gethsemani (a enfermaria, a cripta dos livros raros, onde ele escrevia, o depósito escolhido como ermida), a sequência de interiores irradia os pensamentos do monge "viandante de Reinos" que nasceu há 100 anos. Tão longe e tão perto.

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