Leituras do encontro do trans Diego Lejárraga com o Papa Francisco

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28 Janeiro 2015

O Vaticano não confirma. Por outro lado, lembra Gian Guido Vecchi no jornal Corriere della Sera, "nunca se faz isso quando se trata de telefonemas ou de encontros pessoais do pontífice". Mas não há grandes dúvidas sobre o fato de que o papa, no sábado à tarde, recebeu, em Santa Marta, Diego Neria Lejárraga. É a primeira vez que um bispo de Roma acolhe, na sua casa, um transsexual.

A reportagem é de Matteo Matzuzzi, publicada no sítio Formiche, 27-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quem revelou tudo foi Diego Lejárraga ao jornal espanhol Hoy. O primeiro telefonema, conta, remonta ao último dia 8 de dezembro: "Era um número desconhecido. A verdade é que eu não sei bem por que eu respondi. Eu nunca respondo a esses telefonemas". Do outro lado da linha, uma voz: "Soy el Papa Francisco". O papa disse a Diego que tinha lido a sua história, que tinha ficado tocado e que queria encontrá-lo. No dia 20 de dezembro, chegou o segundo telefonema, em que Francisco marcava o encontro para o dia 24 de janeiro. Ele e a sua namorada em Santa Marta.

O precedente de Buenos Aires

A história, observa Paolo Rodari, no jornal La Repubblica, é "sintomática do caminho que o novo pontificado está percorrendo: a Igreja deve se curvar sobre as feridas de cada homem, sem temores. De fato, como disse Bergoglio ao encerrar a primeira parte do Sínodo dos Bispos sobre a família, ela não tem medo de comer e de beber com as prostitutas e os publicanos".

De todos os modos, lembra o vaticanista do jornal dirigido por Ezio Mauro, o que aconteceu não é nenhuma surpresa: "Ainda em Buenos Aires, na Sexta-feira Santa, Bergoglio lavava os pés também dos transexuais". Portanto, ele "age como qualquer bom pároco deveria fazer: acolhe sem fechar nenhuma porta, escuta para compreender, para não fugir diante da problemática da realidade. Até porque, para realmente entender o tamanho de uma ferida, é preciso reconhecê-la pessoalmente, dar-se conta face a face".

"Filha do diabo"

"Se eu pudesse escolher, não teria escolhido a minha vida", disse Diego ao papa, lembrando que o seu pároco, ao contrário, definira-o como "filha do diabo". "Nunca antes eu teria me atrevido, mas, com o Papa Francisco, sim; depois de ouvi-lo em muitos discursos, eu senti que ele me escutaria."

Alguns, durante a missa do domingo, depois da cirurgia com que ele mudaria de sexo, lhe diziam: "Como você ousa vir aqui com a sua condição? Você não é digno". Quem o ajudou a escrever para Francisco foi o bispo de Plasencia, Amadeo Rodríguez Magro, que lhe ofereceu incentivo, apoio e conforto.

A condenação de gênero

Giacomo Galeazzi, no jornal La Stampa, escreve que "o espírito de acolhida e de abertura do papa aponta para uma Igreja que se inclina sobre as feridas do mundo, que não pode e não deve ser uma 'alfândega da fé'. A sua Igreja não fecha as portas nem mesmo a quem, pelo desconforto de um corpo que não sentia como seu, optou, com sofrimento, por mudar de sexo".

O jornalista de Turim destaca que, embora Francisco tenha "estigmatizado a teoria de gênero" durante o voo de Manila a Roma há pouco mais de uma semana, "isso, porém, não o impediu de estender a mão a uma pessoa que tinha se voltado a ele para compartilhar o sofrimento da marginalização".

O cristianismo aberto de Newman

Mas também há resistências, diz Rodari, embora seria bom lembrar que "o teólogo John Henry Newman já professava um cristianismo aberto, acolhedor, no desenvolvimento da história, não marcado pela polêmica contra o mundo".

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