Proteção da criação, uma encíclica entre expectativas e ceticismo

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27 Janeiro 2015

Fontes espanholas indicavam a sua publicação no fim de janeiro. Na Itália, alguns estavam certos da sua publicação em março. Mas o Papa Francisco, a uma pergunta específica na coletiva de imprensa no retorno da viagem à Ásia, informou sobre o estado dos trabalhos, anunciando que a encíclica está prevista para junho-julho. "O importante é que haja um pouco de tempo entre a publicação e o próximo encontro sobre o clima de Paris" (COP 21), comentou.

A reportagem é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada no sítio Vatican Insider, 23-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Sobre esse texto, absolutamente o primeiro documento de um pontífice a se ocupar do tema da proteção da criação (com a exceção de todo o capítulo quarto da Caritas in veritate, de Bento XVI, sobre o "Desenvolvimento dos povos, direitos, deveres, ambiente"), discute-se há muito tempo em diversos ambientes – também por causa das diversas e amplas colaborações e consultas –, mas as reações e os comentários são, para dizer pouco, conflitantes.

De fato, em certos grupos de católicos, especialmente dos EUA, as críticas se somam àquelas, ácidas, sobre o tema da crítica ao capitalismo, da qual aquela frase "Esta economia mata", contida no número 53 da exortação apostólica Evangelii gaudium é uma ótima síntese de um pontificado que nunca deixa de colocar os pobres no centro da atenção da Igreja. Mas que é difícil de digerir para uma boa parte dos fiéis.

O mesmo comprimento de onda diz respeito ao criado, porque muitos abririam mão, de bom grado, de um papa também ambientalista. Sabe-se que a questão das mudanças climáticas encontra muito céticos nas alas mais conservadoras, inclinados a ignorar, por motivos políticos, o que foi confirmado também pelo recente 5º Relatório do IPCC, o organismo internacional, com sede em Genebra, que reúne dados dos melhores centros de pesquisa e universidades do mundo.

"A grande responsabilidade humana pelas mudanças climáticas é inequívoca", lê-se no texto divulgado no ano passado. Anthony Leiserowitz, diretor do Projeto de Yale sobre as mudanças climáticas, considera que a maior resistência para agir contra as mudanças climáticas se localiza nos ambientes conservadores dos Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha e Austrália.

"O papa não sabe do que está falando", é a afirmação peremptória, e muitos o acusam de mascarar, de fato, uma agenda digna dos ambientalistas: mais uma vez, assim como para a crítica à economia de mercado, ele estaria muito à esquerda. "Deveríamos, talvez, dar ouvidos a um papa que fala de aquecimento global?", questionou-se a Fox News.

E isso que a preocupação com o estado do planeta e as suas implicações sobre as populações em desenvolvimentos faz parte do magistério dos papas da Populorum progressio em diante, e Bento XVI tinha sido definido como o pontífice "mais verde" da história por causa das suas inúmeras intervenções: "Como ficar indiferentes perante as problemáticas que derivam de fenômenos como as mudanças climáticas, a desertificação, o deterioramento e a perda de produtividade de vastas áreas agrícolas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da biodiversidade, o aumento de calamidades naturais, o desmatamento das áreas equatoriais e tropicais? Como ignorar o fenômeno crescente dos chamados 'prófugos ambientais'?", dissera ele na sua mensagem para o dia 1º de janeiro de 2010 (n. 4).

"As mudanças climáticas se tornaram uma questão cultural totêmica, como o aborto e o casamento gay", escreve, de modo muito crítico, Thomas M. Doran, citando um artigo de Matt Ridley no Wall Street Journal, para depois concluir, como católico, que "foi dado ao homem o domínio sobre a terra e as mulheres e os homens, os únicos animais inteligentes, também devem ser bons mordomos deste mundo e dos seus recursos".

Se é verdade que também muitos bispos seriam muito críticos, começando pelo cardeal Pell (que ainda na Austrália pronunciava afirmações que despertaram reações por parte de diferentes técnicos), em uma grande parte de católicos, incluindo hierarquias, a expectativa é forte, embora alguns (poucos, contudo) sejam tentados a extinguir os entusiasmos. "Certamente, não será uma declaração romântica sobre o ambiente", muito menos "uma espécie de manifesto ambientalista", ouve-se por aí.

De fato, são muitos os que esperam um documento forte e claro sobre a responsabilidade dos cristãos em relação à criação e aos seus recursos, dom de Deus para ser compartilhado entre todas as populações do planeta, como ensinam a moral social e o magistério.

Entre aqueles que estão mais comprometidos para explicar o porte da primeira intervenção papal sobre o tema, colocam-se precisamente os seus coirmãos da Companhia de Jesus no portal Ecojesuit.

"É altamente provável que a encíclica será influenciada pelas intuições daqueles que trabalham com as pessoas afetadas pela degradação ambiental, particularmente na região amazônica e um pouco em toda a América Latina", escreveu Henry Longbottom, SJ, que cita como fontes de inspiração Erwin Kräutler, bispo emérito do Xingu, na floresta tropical brasileira, e o teólogo Leonardo Boff, e lembra as palavras de Bergoglio na Universidade de Molise, em julho de 2014, ao longo das linhas do patriarca "verde" Bartolomeu I: "A exploração inaceitável da terra é um pecado".

E aumenta a lista das diversas intervenções também de outros expoentes da Igreja Católica, como a do secretário de Estado, Parolin, às Nações Unidas ou os cardeais Rodríguez Maradiaga e Onaiyekan, que assinaram uma declaração inter-religiosa para pedir que os Estados da ONU "trabalhem de modo construtivo por um acordo global e de amplo porte sobre o clima em Paris, em 2015".

"Todos nós vemos a necessidade de um documento sobre o ambiente", declara o cardeal brasileiro Claudio Hummes, franciscano, amigo e eleitor de Bergoglio.

Um dos responsáveis da Cafod (a organização inglesa membro da Caritas Internationalis), disse ao jornal Observer: "A expectativa em torno da próxima encíclica do Papa Francisco é sem precedentes. Temos milhares de pessoas que se comprometem em fazer com que os seus parlamentares saibam que as mudanças climáticas estão afetando as comunidades mais pobres do planeta".

É esse, no fundo, o verdadeiro objetivo do Papa Francisco que fala da criação sem nunca desconectá-lo da situação dos pobres da terra, os primeiros a sofrer as suas consequências, com a esperança de que, em dezembro, em Paris, a sua voz possa ser ouvida. Mas, obviamente, ele não pode ser deixado sozinho.

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