Primo Levi e a carta inédita: o holocausto explicado a uma menina

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26 Janeiro 2015

"Em vez de crueldade, eu acusaria os alemães da época de egoísmo, de indiferença e, sobretudo, de ignorância voluntária, porque quem queria conhecer a verdade podia conhecê-la e dá-la a conhecer." Primo Levi nasceu no dia 31 de julho de 1919 em Turim, onde morreu no dia 11 de abril de 1987.

A reportagem é de Monica Perosino, publicada no jornal La Stampa, 23-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eu tinha lhe perguntado: como eles podiam ser tão maus? Aos 11 anos, em 1983, eu tinha acabado de ler É isto um homem. Eu o tinha lido durante as férias de Natal e o reli poucos dias depois da Epifania. Mas permaneciam perguntas sem resposta: existe a maldade?

É isto um homem estava na lista dos livros para ler compilada pela professora de italiano, Maria Mazza Ghiglieno. Nem ela, que também sempre tinha as perguntas e as respostas certas, podia resolver o dilema.

Assim, impulsionada pela lógica sem curvas de uma criança de 11 anos, pareceu-me óbvio ir à fonte. Procurei o endereço de Primo Levi no guia telefônico para perguntar diretamente a ele: porque ninguém fez nada para parar o extermínio? Os alemães eram maus?

Nem por um instante eu pensei que estava escrevendo ao escritor de fama mundial. Para mim, era "apenas" Primo Levi, e o seu livro também era um pouco meu. Pedir explicações para ele me parecia ser a coisa mais natural do mundo. Ele devia saber, por força. Peguei o meu papel de carta favorito, cheio de flores e bichos de pelúcia, e escrevi uma pequena página de letras tortas. E também aproveitei para convidá-lo para a minha escola.

A resposta chegou, datada de 25 de abril, e não captei a logo coincidência até o fim. O conceito de "ignorância voluntária" não era a explicação que eu esperava. Eu queria saber se o mal existia. Parei de reler a carta três anos depois, no dia 11 de abril de 1987, quando encontraram o corpo de Primo Levi no vão das escadas. Fiquei sem o homem que podia me dar explicações. A carta acabou em uma gaveta, junto com outras. Agora, 32 anos depois, voltar a despertar durante uma mudança, com todas as suas respostas.

Eis a carta.

25/4/83

Cara Monica,

a pergunta que tu me fazes, sobre a crueldade dos alemães, deu muito pano para as mangas dos historiadores. A meu ver, seria absurdo acusar todos os alemães da época; e é ainda mais absurdo envolver na acusação os alemães de hoje. Porém, é certo que uma grande maioria do povo alemão aceitou Hitler, votou nele, aprovou-o e aplaudiu, enquanto ele teve sucessos políticos e militares; no entanto, muitos alemães, direta ou indiretamente, deviam saber o que acontecia, não só nos campos de concentração, mas também em todos os territórios ocupados, e especialmente na Europa Oriental.

Por isso, em vez de crueldade, eu acusaria os alemães da época de egoísmo, de indiferença e, sobretudo, de ignorância voluntária, porque quem queria verdadeiramente conhecer podia conhecê-la e dá-la a conhecer, mesmo sem correr riscos excessivos. A coisa mais feita vista nos campos de concentração, eu acho que foi justamente a seleção que eu descrevi no livro que tu conheces.

Agradeço-te por ter me escrito e pelo convite para ir à tua escola, mas, neste período, estou muito ocupado e me seria impossível aceitar. Te saúdo com afeto

Primo Levi

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