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Vem a “outra” esquerda

Essa “esquerda radical” sopra do Sul não apenas com ideias novas, mas também com outra maneira de formulá-las, com outro estilo de encarná-las e, sobretudo, com um vigoroso e renovado apoio da população.

A reportagem é de Eduardo Febbro e publicada no jornal argentino Página/12, 24-01-2015. A tradução é de André Langer.

O tempo do partido grego Syriza ou do espanhol Podemos pode ser também o tempo para a reformulação de uma esquerda diferente em vários países da Europa, a começar pela França. Essa “outra esquerda” ou “esquerda radical” sopra do Sul não apenas com ideias novas, mas também com outra maneira de formulá-las, com outro estilo de encarná-las e, sobretudo, com um vigoroso e renovado apoio da população que nenhum outro país da União Europeia alcança. O partido Syriza de Alexis Tsipras pode converter-se neste domingo, dia 25 de janeiro, no primeiro movimento da esquerda radical que chega ao poder mediante as urnas no Velho Continente. O clima de saturação globalizado que certas sociedades atravessam com o modelo liberal, a traiçoeira transformação dos partidos socialistas em mansos agentes do sistema financeiro e o roubo do voto popular por estes mesmos partidos socialdemocratas gerou rupturas profundas na esquerda, que agora se traduzem em ações mais firmes, cuja meta é a transformação e a formulação de outro modelo.

Na França, cerca de 500 dirigentes políticos oriundos do Partido Socialista, da Frente de Esquerda de Jean-Luc Mélenchon, do Partido Comunista, assim como economistas, artistas, sindicalistas, ecologistas ou intelectuais acabam de lançar um vasto programa de renovação da esquerda baseado não em um princípio de confrontação, mas de inclusão cidadã para elaborar uma alternativa. Em um texto publicado no dia 22 de janeiro e intitulado “Obras para o futuro”, os abaixo-assinantes se pronunciam pelo princípio de “construir uma alternativa com a urgência de reconstruir uma perspectiva comum diante das desigualdades que explodem”.

Esse pronunciamento público é inédito por suas características. Até agora, os surgimentos destes objetores de consciência da esquerda limitavam-se a debates ou fóruns sem que as iniciativas ultrapassassem a mera exposição de ideias carentes de uma linha diretora comum. Esse não é o caso da proposta contida em “Obras para o futuro”. A plataforma desta esquerda dissidente é mais global, mais estruturada e articulada que outras iniciativas precedentes. Longe da verborragia consensual, o texto se pergunta, por exemplo, “como um presidente eleito com a força de 17 milhões de votos (François Hollande) pôde permitir-se aplicar uma política que ele mesmo denunciava antes? Como uma parte da esquerda que afirmava, no entanto, um ideal de mudança, de progresso social e de justiça, pôde dar as costas às exigências que a levou ao poder? Ambas as perguntas são tanto mais pertinentes quanto que os socialistas franceses se fizeram eleger com uma retórica onde “o inimigo” era “o sistema financeiro” para depois fazer desse inimigo e desse sistema o eixo de sua política de governo.

O texto é apenas o começo de uma aventura política com grandes ambições. A partir de fevereiro serão organizados debates e encontros sob o tema “Obras de esperança” para tratar, separadamente, os grandes temas da modernidade: a ecologia, a exclusão ou o meio ambiente... Esta iniciativa nascente terá uma logo própria, um portal na internet e acontecerá em uma dezena de cidades do país. Clémentine Autain, porta-voz de uma das organizações que são o eixo desta plataforma, a Juntos, explica que “em nome da esquerda este governo pratica uma política que nos põe contra o muro. Temos a responsabilidade de construir uma esperança em proveito de uma transformação social e ecológica”. A esquerda da esquerda francesa parece, assim, colocar-se em marcha com esse modelo associativo, descentralizado, aberto, transparente e comunicativo que tanto sucesso teve na Espanha ou na Grécia.

Entre a socialdemocracia pactista, o Partido Socialista, prisioneiro do governo e uma parte da esquerda pulverizada em um monte de correntes, a esquerda francesa parecia semimorta. Por isso, Marie-Pierre Vieu, membro da direção do Partido Comunista, defende que “é preciso retomar os debates, pesar, emitir um sinal de que há vida na esquerda”. Estes debates e encontros inspiram-se muito nas “assembleias cidadãs” organizadas em 2012 pela Frente de Esquerda. Marie-Pierre Vieu explica que “desta vez queremos que a iniciativa escape dos partidos políticos, queremos que se converta em um movimento de implicação cidadã”.

Ambos os termos, implicação e cidadania, soam com novos acentos em um país onde o sistema político e os partidos são como entidades petrificadas, uma espécie de clube de poder dramaticamente desconectado da população. Subidamente, em meio a esta agitação de ideias, saem expressões ou afirmações que estavam como que anestesiadas pelo socialismo de governo: transição ecológica, ultrapassar a monarquia eletiva, propostas cidadãs. Esta ampla convergência é tanto mais inédita quanto que seus postulados estão cheios de palavras e ideias positivas. Clémentine Autain comenta que “pela primeira vez podemos mostrar que a alternativa não se coloca contra, mas a favor da elaboração de algo positivo”.

Paris olha com atenção para Atenas. O que acontecer ali neste domingo 25 de janeiro será decisivo para a persistência destas “Obras para o futuro”. Clémentine Autain admite que o que ocorrer na Grécia “fará muita gente vir para os nossos debates. Porque ali se forja a ideia de que podemos estar no centro e não à margem do poder político”.

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