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Por: André | 23 Janeiro 2015

“São deixados a sós e indefesos como os judeus”, denuncia um conhecido rabino. Com a ilusão de que isso favoreça a paz com os muçulmanos. O contexto da situação descrito por um especialista jesuíta israelense.

 
Fonte: http://bit.ly/1L2IFOk  

A reportagem é de Sandro Magister e publicada no sítio Chiesa, 20-01-2015. A tradução é de André Langer.

Da viagem do Papa Francisco à Ásia fica na memória o que disse sobre os massacres de Paris, quando mostrou que compreendia a reação violenta de quem vê insultada e escarnecida a sua própria fé: “Se um amigo me diz uma grosseria contra a minha mãe, dou-lhe um soco! É normal! É normal!”

Estas suas palavras deram a volta ao mundo e soaram como música para grande parte do mundo muçulmano, que se solidariza com o assassinato dos ímpios chargistas do Charlie Hebdo.

Mas, na mesma entrevista coletiva, Francisco também disse outra coisa ao ser perguntado sobre os perigos envolvendo sua segurança: “Para mim, sempre o melhor modo de responder é a mansidão. Ser manso, humilde como o pão, sem agredir”.

E estas suas outras palavras soaram como um mandamento para os cristãos que moram na terra muçulmana: dar a outra face, mesmo quando o inimigo não apenas os ofende e ridiculariza, mas os mata em nome de Alá.

Em um instigante comentário publicado no Corriere della Sera de 13 de janeiro, um rabino italiano dos mais estimados, Giuseppe Laras, de 79 anos, ex-amigo fraterno do cardeal Carlo Maria Martini, fez um alerta sobre a “estratégia desastrosa” daqueles que acreditam que se deve “facilitar uma paz cultural e religiosa com o Islã político”, começando por “deixar os judeus e o Estado de Israel sozinhos” e prosseguindo por deixar indefesos os cristãos:

“É uma estratégia desastrosa que os cristãos árabes tentaram com o panarabismo e o antissionismo. Os resultados são bem conhecidos: depois quase todos os países islâmicos se “livraram” dos seus judeus, concentraram-se com violências e massacres sobre as bem nutridas minorias cristãs. É uma história que se repete e que vai do genocídio armênio (há um século), aos cristãos coptas do Egito, aos cristãos etíopes e nigerianos, até Mossul. E muitos países europeus, uma classe inteira de intelectuais e muitos cristãos do Ocidente têm as mãos gotejantes de sangre dos cristãos do Oriente, já que eles se dispuseram a sacrificá-los nos altares do pacifismo, do oportunismo político, de uma concepção mal compreendida da tolerância, da elegante cultura bem-pensante e ‘radical chic’ e da boa consciência”.

Na raiz desta abdicação o rabino Laras vê o eclipse do judeu-cristianismo:

“A crise que vivemos não é somente econômica e demográfica: é uma crise cultural e de valores, vinculada à crise do cristianismo e, de um certo modo, de conhecimento da Bíblia, a pedra angular de toda a nossa cultura. Tinha razão o cardeal Carlo Maria Martini ao dizer que a Bíblia é o livro do futuro da Europa e do Ocidente, mas não foi ouvido. Tinha razão Bento XVI na bem conhecida conferência de Regensburg, mas foi vítima do descrédito midiático e cultural. Referir-se à Bíblia como fundamento da cultura e da ética é um compromisso religioso possível, de extraordinária fecundidade, compatível entre judeus e cristãos.”

Mas, voltemos novamente aos cristãos que moram em terra muçulmana e em particular no Oriente Médio. Uma notável e atualizada contextualização de sua dramática condição apareceu no primeiro número deste ano da revista La Civiltà Cattolica, dos jesuítas de Roma, que é impressa com o controle prévio das autoridades vaticanas.

O autor é David Neuhaus, um judeu israelense que se converteu ao cristianismo e depois entrou na Companhia de Jesus, atualmente vigário do patriarcado latino de Jerusalém para os católicos de língua hebraica.

O futuro dos cristãos no Oriente Médio, por David Neuhaus S.J.

Todo discurso que se pode fazer hoje sobre a situação dos cristãos no Oriente Médio deve começar tomando nota do medo que tomou conta dessas comunidades ao ver as horríveis cenas difundidas a partir do Iraque e da Síria. [...]

O medo está associado a uma expressão que vem facilmente aos lábios de todo aquele que observa a situação presente: “a perseguição dos cristãos”. Não há nenhuma dúvida de que os cristãos são assassinados porque seus verdugos muçulmanos extremistas consideram-nos infiéis, politeístas ou espiões do Ocidente.

E, no entanto, como assinalou o Comitê Justiça e Paz da Assembleia dos ordinários católicos da Terra Santa: “Em nome da verdade, devemos destacar que os cristãos não são as únicas vítimas desta violência e destes ferozes ataques. Os muçulmanos leigos, todos eles assinalados como hereges, cismáticos ou simplesmente não alinhados são atacados e assassinados da mesma maneira”. [...]

Medo de quê?

O medo é um péssimo conselheiro. Para enfrentá-lo e vencê-lo, deve-se entendê-lo. Os cristãos são uma porção particularmente vulnerável do mundo árabe, porque um bom número deles sempre se negou a organizar-se de acordo com linhas confessionais, como partidos políticos ou milícias.

Durante décadas, desde o final do século XIX, os mais motivados dentre eles do ponto de vista político e social consumiram suas energias para desenvolver em suas diferentes formas o nacionalismo árabe laico. Neste projeto trabalharam junto com muçulmanos e membros de outras comunidades minoritárias com as quais compartilhavam as mesmas convicções.

O que se conhece normalmente pelo nome de “despertar árabe” foi coroado de sucesso quando os árabes desenvolveram o sentido da própria identidade, fundamentada no idioma e na cultura árabe-muçulmana, no âmbito dessa vasta região do mundo que foi o centro das antigas civilizações que deram ao mundo o judaísmo, o cristianismo e o islã.

Sobre a onda da guerra árabe-israelense de 1948, os regimes monárquicos foram derrocados por revoluções nacionalistas em diversas regiões do mundo árabe. Mas, na sequência, estes regimes, com muitas vezes apoiados firmemente pelo exército e a polícia, transformaram-se em ditaduras, instaurando brutais sistemas de repressão para sufocar qualquer oposição. Entre as vítimas desses regimes encontravam-se membros de alguns movimentos que buscavam reforçar a identidade muçulmana e desenvolver modelos de governo islâmicos e antiocidentais.

O documento do Comitê de Justiça e Paz, antes citado, afirma: “sob estes regimes ditatoriais, os cristãos viveram em uma segurança relativa. Temiam que, no caso desta autoridade forte desaparecer, prevaleceriam o caos e os grupos extremistas, os quais, apoderando-se do poder, exerceriam a violência e perseguições. Isto explica porque alguns cristãos tendiam a apoiar esses regimes. Ao contrário, a lealdade à própria fé e a preocupação com o bem do próprio país teriam, talvez, impulsionado a expressar-se antes, proclamando a verdade e invocando as reformas necessárias para obter uma maior justiça e um maior respeito dos direitos humanos, junto com outros numerosos cristãos e muçulmanos que se atreveram a tomar a palavra”.

Parece, então, que os piores pesadelos dos cristãos se tornaram realidade quando os regimes ditatoriais relativamente laicos foram desafiados pelo islã político.

A irrupção deste último suscitou um medo legítimo nos cristãos, que, no melhor dos casos, encontram-se marginalizados no interior de um sistema político que coloca o acento na identidade confessional e define a sociedade em termos confessionais. Pelo contrário, no pior dos casos, os cristãos são assassinados, expulsos de suas próprias casas, privados dos direitos e obrigados a sofrer extorsões e humilhações. [...]

O medo poder ser superado no momento em que os cristãos entram diretamente em contato com os responsáveis pelas diferentes correntes do islã, mas também no momento em que os desafiam a refletir sobre as consequências de suas ideologias e de suas perspectivas.

Com efeito, diferentes correntes islâmicas começaram a refletir sobre o desafio representado pela diversidade confessional e já começaram a dialogar com os cristãos.

O medo tende a fazer crer que todos os muçulmanos defendem uma única perspectiva, na qual os cristãos não teriam nenhum lugar. Superar o medo significa ser capaz de perceber a diversidade no interior desse fenômeno complexo que é o despertar islâmico.

Superar o medo e o isolamento

O primeiro fruto do medo é a tendência a se isolar. Uma tendência visível entre os cristãos do Oriente Médio é isolar-se nos próprios bairros, em suas próprias instituições e em seus próprios círculos. Após terem rechaçado durante décadas as tendências isolacionistas no campo político, alguns cristãos hoje gostariam de ter seus partidos políticos.

Os mais extremistas propõem inclusive que a identidade cristã exclua o elemento árabe, seu idioma e sua cultura. Segundo essa perspectiva, os cristãos seriam arameus na Síria, fenícios no Líbano, coptas no Egito, caldeus no Iraque, arameus em Israel, mas, sobretudo, seriam não árabes.

Superar o medo e o que se desprende dele, isto é, o isolamento, supõe que os cristãos saiam dos guetos que se impuseram, com a finalidade de encontrar todos aqueles que, no mundo árabe em sentido amplo, são ameaçados da mesma maneira por perspectivas islâmicas monolíticas que colocam em risco a própria composição da sociedade médio-oriental.

Em primeiro lugar, deve-se reconhecer que as primeiras vítimas do extremismo islâmico são precisamente os muçulmanos que não estão de acordo com o ponto de vista dos extremistas. Estes últimos mataram mais muçulmanos que cristãos. Um maior número de muçulmanos fugiu por medo.

Em segundo lugar, um perigo ainda maior que aquele que afeta os cristãos é aquele que correm outras minorias, como os yazidis, os drusos e os alauitas, porque os extremistas consideram que a fé e as práticas deles vão além do que um muçulmano pode tolerar quanto à diversidade religiosa.

Instituições e discursos cristãos

Na exortação Ecclesia in Medio Oriente, Bento XVI acentua o papel prioritário das instituições cristãs na missão realizada nesta parte do mundo. [...]

Centenas de escolas, universidades e instituições para os pobres, os idosos e deficientes, hospitais e outras instituições que oferecem educação e serviços sociais e que pertencem à Igreja estão espalhadas por todo o território do Oriente Médio.

Na prática, todos estes institutos caracterizam-se por sua dedicação e pelos serviços que oferecem às comunidades nas quais se encontram e pela abertura a cada pessoa e a todos, muçulmanos e cristãos, assim como a outras minorais. Estas instituições revelam o rosto de uma presença cristã que quer servir não somente aos cristãos, mas também à sociedade em seu conjunto.

Estas instituições representam um progresso muito significativo em relação ao medo e o isolamento. Particularmente importante são as que servem quase exclusivamente a populações muçulmanas, mostrando o rosto de uma Igreja que procura contribuir para a construção de uma sociedade fundada sobre a convivência e sobre o respeito. Na Faixa de Gaza, 98% dos alunos das escolas cristãs são muçulmanos.

Por outro lado, pode-se recordar que depois das revoluções do partido Baaz no Iraque e na Síria, quase todas as instituições cristãs foram nacionalizadas, e isso levou ao desaparecimento desta forma de presença cristã na sociedade. É possível que a atual catástrofe não esteja privada de vínculos com este fato. [...]

A fé contra o medo

Diante dos temores que os cristãos seguirão experimentando enquanto o Oriente Médio for sacudido pela instabilidade e pelo caos, o único antídoto cristão é a fé. Os cristãos levam o nome do seu Mestre, que não lhes prometeu uma vida fácil. A quem o seguia, Cristo disse: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e em siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e da Boa Notícia, vai salvá-la” (Mc 8,34-35). Estas palavras guiaram gerações de cristãos, que deram sua vida para dar testemunho da própria fé no Evangelho.

Compreende-se facilmente por que muitos preferem garantir aos próprios filhos um futuro melhor em um mundo que parece mais seguro na Europa, nos Estados Unidos ou na Austrália. Uma diáspora dos cristãos médio-orientais pode inclusive proporcionar um apoio a quantos decidem conscientemente permanecer em seu país ou àqueles que simplesmente não têm os meios para partir.

Mas há outros que, inspirados por sua própria coragem, por sua própria determinação e por sua fé, apesar de todas as circunstâncias adversas, decidem permanecer na terra dos próprios antepassados, porque sabem que isso resulta da sua vocação e da sua missão, e decidem levar o testemunho de Cristo na terra sobre a qual ele caminhou.

Estes são os cristãos que, com seu sentido da missão, garantem o futuro da Igreja no Oriente Médio. Eles arregaçam as mangas e não olham para trás, não fogem. Não têm medo; nem sequer acusam ter medo; não se isolam atrás de barreiras confessionais; não se deixam paralisar pela amargura que sentem; antes, olham para frente, buscando reconhecer o caminho que leva mais longe.

A fé é, para além do medo e do isolamento, o único caminho seguro que conduz à abertura e ao serviço, quando se coloca na busca de Cristo e quando se coloca no caminho d’Aquele que foi ao encontro de todos, inclusive daqueles que estavam mais longe. A fé é o sentimento profundamente arraigado de que a vitória já foi conquistada pela ressurreição e que quaisquer que sejam as cruzes encontradas ao longo do caminho – o extremismo, o ódio e o rechaço – as forças da morte foram superadas na Cruz de Cristo. Em definitiva, é a vida que vence.

No Oriente Médio, entre os cristãos provados duramente, a renovação da fé passa seguramente por um sentido mais consolidado da unidade cristã que supera as divisões confessionais do passado. Em várias ocasiões o Papa Francisco colocou o acento no “ecumenismo de sangue”, como fez em seu discurso diante do Santo Sepulcro de Jerusalém, onde se encontrava em companhia de Bartolomeu, o patriarca ecumênico de Constantinopla. [...]

Do mesmo modo, a renovação da fé passa por um esforço no diálogo com os muçulmanos (e com os judeus no território israelense-palestino), no apelo autêntico e honesto ao respeito recíproco e por um trabalho compartilhado com a finalidade de construir uma sociedade livre da opressão, da ignorância e do medo. Isto reforça também o pedido para que haja igualdade entre os cidadãos, gozando os mesmos direitos e assumindo as mesmas obrigações.

Esta é a voz da fé que se pode perceber na declaração da Comissão Justiça e Paz, quando afirma: “Nós rezamos por todos, pelos que unem seus esforços aos nossos e pelos que hoje nos fazem o mal, e inclusive pelos que nos matam. [...] Nossa única proteção está no Senhor e, como Ele, também nós oferecemos as nossas vidas por aqueles que nos perseguem, assim como também pelos que, junto conosco, defendem o amor, a verdade e a dignidade”.

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