Os terroristas confiscam o seu deus para matar pessoas. Artigo de Eugenio Scalfari

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13 Janeiro 2015

Hoje, o terrorismo nasce e se alimenta de raízes não apenas políticas, mas também religiosas. O chefe dos talibãs no Afeganistão era o mulá Omar. Bin Laden organizava atentados em todo o Ocidente, mas, ao mesmo tempo, rezava. O Califado é um fenômeno político, mas religioso ao mesmo tempo; a Al-Qaeda alimenta a fé em Alá com as armas nas mãos.

A opinião é de Eugenio Scalfari, jornalista e fundador do jornal italiano La Repubblica, 11-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O novo diretor do Charlie Hebdo, questionado por um jornalista sobre a linha que a sua publicação semanal satírica tomará depois do massacre sofrido pelos dois "jihadistas" na quarta-feira passada, disseram que o estilo do jornal não vai mudar: "Nós somos laicos, enquanto os terroristas são integralistas. Não religiosos, mas integralistas. Gritam 'Allah akbar', depois de cada crime que fazem, mas não lhes importa absolutamente nada de Alá. E então: laicos contra integralistas. Deus, qualquer Deus, não tem nada a ver. O confronto é apenas político, a nossa sátira é política, e o terrorismo é político".

Ouvi com grande interesse essa entrevista e, mesmo sendo eu também laico e também não crente, não estou totalmente de acordo sobre a tese de que o confronto é apenas político. Foi assim há 40 anos, quando o terrorismo ensanguentou a Europa e, em particular, a Itália e a Alemanha.

Ele foi combatido com argumentos políticos; a esquerda comunista cortou todos os laços com a esquerda terrorista, e esta foi a arma com a qual as Brigadas Vermelhas foram desfeitas e, depois, em uma pequena distância de tempo do assassinato de Aldo Moro, definitivamente derrotas. Mas a situação hoje não é semelhante à de então.

Hoje, o terrorismo nasce e se alimenta de raízes não apenas políticas, mas também religiosas. O chefe dos talibãs no Afeganistão era o mulá Omar. Bin Laden organizava atentados em todo o Ocidente, mas, ao mesmo tempo, rezava. O Califado é um fenômeno político, mas religioso ao mesmo tempo; a Al-Qaeda alimenta a fé em Alá com as armas nas mãos.

O confronto entre Israel e palestinos também é político e, ao mesmo tempo, religioso. Tanto é que o governo de Netanyahu quer rebatizar Israel como Estado Hebraico, mesmo que uma parte dos cidadãos sejam árabes e muçulmanos, e outros de etnia hebraica, mas não crentes.

Além disso, Maomé, quando lançou os árabes que seguiam as máximas do Alcorão e as disposições do Profeta, exortou-os a não matar as crianças, os velhos e as mulheres, mas combater no nome de Alá, seu Deus. Cristo era, segundo Maomé, um profeta, mas a religião construída não por ele, mas pelos seus seguidores, é inimiga de Alá.

A literatura e a poesia reuniram e amplificaram o confronto religioso e as guerras que daí se seguiram, começando pela Batalha de Roncesvalles, dos califados de Córdoba e da Andaluzia, vencidos depois de alguns séculos pela "reconquista" de Fernando e de Isabel.

Os católicos não ficaram para trás, as Cruzadas para a conquista da Terra Santa eram abençoadas pelo papa, os reis cristãos forneciam as tropas e as frotas, mas era o papa de Roma que dava o "imprimatur". Quando a Igreja, depois dos três primeiros séculos, descobriu o poder temporal, este foi o seu centro e sobre ele ela fundou a sua existência. Não por acaso o rei da Espanha era definido como católico, e o da França, como cristianíssimo. A Inquisição foi, durante séculos, o coração da Igreja, tendo na mira os descrentes, os judeus, os cátaros, os valdenses. Fé contra fé: por um milênio, foi essa a essência da Igreja de Roma.

O Papa Francisco foi o primeiro a denunciar o temporalismo, a lembrar que há um único Deus, que não é católico, mas ecumênico. Quem venera o Deus Pai, ou o de Moisés ou Alá venera o mesmo Deus, e o crime maior é o de distingui-Los e erguer os seus símbolos um contra o outro. Não por acaso Bergoglio foi a voz mais alta contra os terroristas que matam em nome de Alá: "Além de confiar a Deus as vítimas dessa crueldade – disse ele celebrando a missa em Santa Marta, na quinta-feira passada –, convido a todos, de todas as religiões, a interceder também pelos cruéis, para que o Senhor mude o seu coração".

Ao lado do papa, havia os quatro imanes franceses que divulgaram com ele uma declaração conjunta que salienta a necessidade de promover, com todos os meios, uma cultura de paz e de esperança, capaz de vencer o medo e de construir pontes entre os homens. Por fim, reiteraram que "o diálogo inter-religioso é o único caminho a percorrer juntos. O bem fundamental é a convivência pacífica entre as pessoas e os povos, superando as diferenças de civilização, de cultura e de religião".

Esse é o caminho. Para os laicos, esse caminho se identifica com a democracia; para as religiões, com o Deus único que ninguém pode supor como próprio: duas linhas paralelas que convergem no mesmo objetivo.

A guerra contra o terrorismo, junto com os lutos, com as tensões, com os medos, no entanto, tem um aspecto positivo que não deve ser subestimado: faz surgir também naqueles que até agora eram indiferentes ou mesmo hostis a necessidade de construir uma Europa unida a ser alcançada, em parte, com acordos específicos sobre questões de segurança e de investigação e, em parte, com deliberações dos 28 países da União Europeia, que equivalem a verdadeiros cedimentos de soberania.

O terrorismo parece ter escolhido a Europa como campo de confronto; a Europa só pode responder movendo um passo rumo à unidade, não mais apenas econômica, mas também política, e não apenas para os 19 países da zona do euro, mas para a União Europeia inteira, porque a imigração e a presença de cada vez mais numerosas minorias alocadas em muitos países do nosso continente há já duas ou três gerações tornam indispensável levar em conta a sua diversidade no quadro de um espaço comum onde todos devem conviver.

Essas minorias correm o risco de se tornarem terreno de proselitismo para os terroristas, mas também podem ser educadas para a democracia, para o trabalho, para os direitos e para os deveres que uma convivência civil envolve. Cidadãos europeus muito mais do que cidadãos das nacionalidades individuais.

Esse objetivo está se tornando fundamental, enquanto o fenômeno migratório engrossa especialmente entre as duas margens do Mediterrâneo, mas, para dar um resultado positivo, ele requer mais empregos, mais equidade social, mais investimentos, mais consumos, mais comércio intraeuropeu e internacional.

As condições econômicas e sociais necessárias para realizar esses objetivos são evidentes: é preciso combater a deflação, é preciso melhorar as taxas de juros, levando aquelas ainda altas demais a um equilíbrio substancial, e é preciso recuperar com as partes sociais e, em particular, com as que representam os trabalhadores uma concertação que produziu nos anos 1990 resultados excelentes e pode produzi-los novamente em uma fase em que as concorrências empresariais e locais valem mais do que as nacionais e requerem a presença constante dos sindicatos de empresa.

Não se trata, como muitas vezes se diz, de ouvir a todos e de decidir sozinhos. Ao contrário: fazendo prevalecer com a intervenção política, a concorrência empresarial ou local. A concertação ocorre nesse ponto, onde as partes estão objetivamente mais orientadas ao interesse comum.

Pode parecer estranho e teórico esse relançamento da Europa política que envolve um relançamento análogo da Europa econômica e de uma descentralização participada rumo à microeconomia e à microssocialidade, mas, ao contrário, é uma dinâmica absolutamente lógica que permite que se atribua a Mario Draghi o mérito de ter sido um dos primeiros a indicá-la e, no que diz respeito às suas competências, a implementá-la utilizando o instrumento monetário.

No próximo dia 22 de janeiro, o Banco Central Europeu (BCE) decidirá a implementação do "quantitative easing", ou seja, da aquisição de títulos da dívida pública nos países com maior necessidade, mas também naqueles mais sólidos e, portanto, chamados a contribuir com o crescimento geral.

Draghi confiará aos Bancos Centrais nacionais algumas tarefas importantes, mas o leme só pode permanecer nas mãos do diretório do BCE, do qual participam, por turno, os bancos nacionais. Fala-se de um "qe" de 500 bilhões. Acredito que o valor será maior, provavelmente o dobro, embora distribuído em um ou dois anos. No entanto, serão aquisições de títulos destinados a permanecer por muito tempo nos cofres do BCE, que, enquanto isso, também efetuará operações habituais de empréstimos longos aos bancos comuns e de intervenções no mercado interbancário com baixíssimas taxas de juros.

Draghi, para além do instrumento monetário, tem em mente uma Europa politicamente federada. Aqui também se trata de linhas paralelas convergentes que alimentam esperanças de um futuro melhor. (…)

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