Fiéis self made, membros do jihad por acaso

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12 Janeiro 2015

Presidente do Centro de Informações e estudos sobre migrações internacionais de Paris e pesquisador junto ao Institut Français du Proche-Orient, de Beirute, o sociólogo Vincent Geisser é um dos maiores estudiosos do Islamismo francês ao qual dedicou diversas obras, entre as quais Marianne et Allah (La Découverte) e Ethnicité républicaine (Pressesde Sciences Po). 

A entrevista é de Guido Caldiron, publicada pelo jornal italiano Il manifesto, 09-01-2015. A tradução é de Ivan Pedro Lazzarotto.

Eis a entrevista.

Os responsáveis pelo ataque a Charlie Hebdo nasceram e cresceram em Paris. Como é possível que tenham se transformado em fanáticos pelo Jihad?

Se deve deixar claro que estamos falando, muito antes do que de muçulmanos, de terroristas e criminosos de profissão. Parar sobre este ponto é algo decisivo não por motivos morais ou para distinguir a religião dos seus atos, mas para entender verdadeiramente o que os transformou em membros do Jihad, para compreender o significado da sua trajetória de morte. Por que digo isso?

Porque nesses casos, como já aconteceu para Mohammed Merah (o jovem da periferia de Toulouse que matou alguns militares e atacou uma escola hebraica matando também crianças em 2012), se tende a subvalorizar o percurso que conduz a estes atos terríveis. Do contrário, e confirmam grande parte dos estudos sobre tal argumento, os relacionamentos do antiterrorismo, como também os relatos que me foram feitos por parentes e amigos de alguns terroristas que conheci, a maior parte destes indivíduos se forma nas sedes do banditismo, da vida desregrada.

Aprenderam as técnicas depois colocaram-nas em prática nos atentados, como se usam armas em assalto ou se foge de uma perseguição policial, nestes ambientes muito mais seguidamente do que nos campos paramilitares de preparação no Oriente Médio. A pessoa em que se transformam, fruto de vários fatores que seria difícil generalizar e analisar em poucas palavras, já iniciou a se formar muito antes que fizessem “o grande salto” para o terrorismo islâmico.

Mas o que pode os ter despertado para procurar uma razão para suas ações exatamente no que se refere ao Islamismo e ao Jihad?

Para dar uma resposta geral, se pode imaginar que o itinerário pessoal destes jovens tenha conhecido momentos de ruptura, de crises, ligadas a fatores sociais como familiares ou emotivos que os despertou para uma radicalização, para a violência, e que tenham escolhido o Islamismo para dar uma visibilidade também exterior do quanto sentiam. Não é um caso que “a fé” que expressam é um tipo de self made. Em uma grande maioria vêm de famílias onde o Islamismo não é particularmente presente, frequentaram pouco as mesquitas e estudaram ainda menos o Corão. A sua “socialização muçulmana” acontece muito nas prisões, onde acabavam devido aos seus crimes comuns, por furtos ou tráfico de diversas origens, como a droga ou carros roubados. Com uma fórmula que eu diria que mais que radicalizar-se através da adesão ao islamismo, optam por aquilo que lhes parece como um símbolo de uma escolha extrema, a mais radical entre aquelas que se tem em frente. Por isso se transformam em membros do Jihad.

Fica a pergunta: por que tantos jovens franceses, muitas centenas a exemplo daqueles que teriam combatido no Oriente Médio, têm escolhido exatamente a adesão à ideologia do Jihad?

Porque simbolicamente, mesmo que possa parecer paradoxal, a identificam com a rebelião, com a revolta. Na sua trajetória de ruptura com a sociedade, muitas vezes também com a família ou com os seus afetos, no seu mal estar existencial, os símbolos terminam por contar mais do que a realidade, as formas exteriores mais do que o conteúdo das coisas. E assim é através da TV e da internet, com as imagens terríveis que chegam dos cenários de guerra internacional, que estes jovens formam uma opinião superficial sobre o quanto acontece na Síria ou no Iraque e acabam por se identificar com os membros do Jihad.

A doutrinação político-religiosa e o contato com os grupos organizados chega num segundo momento. E esse tipo de fascínio absurdo pelo extremo, pela violência, por aquilo que parece como a coisa mais distante, e oposta, ao mundo que se tem em volta, absorve cada vez mais jovens que não têm nenhuma ligação com a cultura muçulmana: jovens nascidos na província francesa, em famílias católicas e brancas. Como aquele adolescente bretão que procurou encontrar os membros do Jihad na Síria da qual se ocupou recentemente a imprensa do nosso país.

A extrema direita europeia procura especular sobre o massacre a Charlie Hebdo assimilando os terroristas aos imigrantes. Os novos membros do Jihad são, pelo contrário, franceses e a cultura muçulmana está cada vez mais integrada. Um paradoxo?

Não, somente a confirmação de um lado que a imigração não está envolvida com estes fenômenos e de outro que parece que não envolve muito a prática e a cultura religiosa. Na França existem milhões de muçulmanos que não vivem somente nas periferias mas fazem parte também da classe média e dos profissionais liberais. Existem diversas situações, diversos parlamentares e também alguns ministros. A grande mesquita de Paris data do período entre as duas guerras mundiais, e o islamismo, em todas as suas tendências e almas, é parte do espaço cultural francês há muito tempo.

Todavia, a referência à presença muçulmana é seguidamente provocada para evocar medos e alarmar, como Sarkozy, que denunciava o papel dos islâmicos nas revoltas nos subúrbios. Hoje as coisas mudaram?

Diria que não muito. Mesmo se com Sarkozy se alcançou por assim dizer o pico da manipulação política do Islã na França. Sarko tinha por um lado contribuído com o nascimento de um Conselho representativo das associações muçulmanas, para depois denunciar, contemporaneamente, o risco de uma derivação “comunitária” da República, tudo enquanto se encontrava com os “jovens barbudos” das periferias. Ao invés, uma coisa é a fé, outra as revoltas urbanas, outra ainda o terrorismo.

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