Reconhecido o martírio de Romero

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09 Janeiro 2015

Romero é mártir. Foi morto in odium fidei. João Paulo II já repetia isso com voz flébil em novembro de 2003, falando com alguns bispos salvadorenhos que foram a Roma em visita ad limina. Também atestaram nessa quinta-feira, com voto unânime, os membros do Congresso dos Teólogos da Congregação para as Causas dos Santos, reconhecendo o martírio formal e material do arcebispo, morto no altar enquanto celebrava a missa no dia 24 de março de 1980.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada no sítio Vatican Insider, 09-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A revelação é de Stefania Falasca no jornal Avvenire, acrescentando que "agora, segundo a práxis canônica, só resta o juízo do Congresso dos Bispos e dos Cardeais e, enfim, a aprovação do papa para a conclusão do processo que o levará em breve à beatificação".

Percorrendo todos os passos do processo, a autora do artigo ressalta que o pronunciamento sobre o martírio de Romero "certamente marca o ápice de uma causa conturbada", em que acusações e as tentativas de frear ou de encobrir o caminho do bispo mártir rumo à beatificação muitas vezes haviam se revestido de argumentações teológicas e doutrinais.

Por isso, o pronunciamento dos teólogos que colaboram com o dicastério vaticano para os Santos e parece dirimente e crucial, bem mais do que o próximo – e evidente – nihil obstat dos bispos e dos cardeais membros da própria Congregação.

O reconhecimento do martírio de Romero confirma de maneira definitiva que o arcebispo salvadorenho foi morto in odium fidei. O que impulsionou os executores não foi a simples ânsia de matar um inimigo político, mas o ódio desencadeado pelo amor pela justiça e pela predileção dos pobres que Romero manifestava como reverberação direta da sua fé em Cristo e da sua fidelidade ao magistério da Igreja.

No delírio sangrento que martirizava El Salvador naqueles anos atrozes, Romero foi o bom pastor disposto a oferecer a vida para seguir a predileção pelos pobres própria do Evangelho. A fé – reconheceram os teólogos do dicastério vaticano – era a fonte da sua obra, das palavras que ele pronunciava e dos gestos que ele fazia no contexto conturbado em que ele era chamado a agir e a viver como arcebispo.

O pronunciamento dos teólogos da Congregação limpam décadas de operações voltadas a propagandear uma interpretação apenas política da eliminação de Romero. O reconhecimento do seu martírio in odium fidei confirma que, no El Salvador dos esquadrões da morte e da guerra civil, a Igreja sofria uma perseguição feroz por parte de pessoas que, ao menos sociologicamente, eram cristãs.

O desencadeamento do ódio que o matou era cultivado e compartilhado também por setores da oligarquia, acostumados a ir à missa ou a fazer ofertas e doações para as instituições eclesiásticas. Incluindo as associações das chamadas "mulheres católicas" que publicavam nos jornais acusações e maldades fabricadas artisticamente contra ele.

O nihil obstat dos teólogos também dissipa a cortina de fumaça de insinuações montadas artisticamente para creditar a fábula do Romero pró-guerrilheiro, agitador político, influenciado e subjugado pelo marxismo. O processo para a causa de beatificação – cujo postulador é o arcebispo Vincenzo Paglia – verificou com autoridade e definitivamente aquilo que sempre repetiam todos os amigos do bispo mártir: Romero – como escreveu o professor Roberto Morozzo della Rocca – era um "sacerdote e bispo romano, obediente à Igreja e ao Evangelho através da Tradição", chamado a desempenhar o seu ministério de pastor "naquele Ocidente extremo e abalado que era a América Latina daqueles anos", onde as forças militares e os esquadrões da morte reprimiam ferozmente um povo inteiro em nome da oligarquia. Onde os sacerdotes e os catequistas eram mortos e, no campo, tornava-se perigoso possuir um Evangelho. Onde bastava pedir justiça para ser tachado de comunista subversivo. Onde a Igreja era perseguida porque se isentava do papel de braço espiritual do poder oligárquico.

No entanto, por anos, depois do ano 2000, a causa de Romero permaneceu parada, com a motivação de que todas as homilias e os escritos do bispo salvadorenho deviam ser submetidos a exame pela Congregação para a Doutrina da Fé, para verificar a sua ortodoxia. Naqueles anos, que assumiu um papel preponderante na gestão do dossiê Romero – e que pressionou para que a causa não seguisse em frente – foi particularmente o cardeal colombiano Alfonso López Trujillo, naquele tempo influente consultor do ex-Santo Ofício, falecido em 2008.

Naquele momento, chegaram à Congregação para as Causas dos Santos disposições orientadas no sentido do adiamento. Segundo alguns setores, levar Romero à honra dos altares equivalia a beatificar a Teologia da Libertação ou até mesmo os movimentos populares de inspiração marxista e as guerrilhas revolucionárias dos anos 1970. Por isso, de acordo com alguns, as motivações do martírio in odium fidei não podiam ser aplicadas ao seu caso, enquanto haviam servido para levar à honra dos altares, em 2010, Jerzy Popieluszko, o sacerdote de 37 anos assassinado em 1984 por um comando dos serviços de segurança da Polônia comunista.

Agora, parece ter chegado o momento também de Oscar Arnulfo Romero. Só resta esperar. E não será preciso esperar muito, se levarmos em conta que, para a beatificação dos mártires, não é necessária a confirmação canônica de um milagre realizado pela sua intercessão.

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