O Papa cita Romero e os esquadrões da morte na primeira audiência de 2015

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09 Janeiro 2015

O Papa citou o arcebispo de San Salvador, Óscar Arnulfo Romero, assassinado em 1980 pelos esquadrões da morte, na primeira audiência de 2015. O Pontífice argentino prosseguiu com o ciclo de catequeses sobre a família, em vista do próximo Sínodo de outubro, e refletiu sobre a figura das mães. No final da audiência, na aula Paulo VI, o Papa agradeceu ao circo que apresentou um breve espetáculo, e sublinhou que a “humanidade necessita de beleza”.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por Vatican Insider, 07-01-2014. A tradução é de Benno Dischinger.

“Toda pessoa humana – indicou o Pontífice – deve a vida a uma mãe e quase sempre deve a ela muito da própria existência subseqüente, da formação humana e espiritual. Mas a mãe, embora sendo exaltada do ponto de vista simbólico – tantas poesias, tantas coisas belas que se dizem poeticamente da mãe – é pouco escutada e pouco ajudada na vida cotidiana, pouco considerada em seu papel central na sociedade. Há mais, amiúde se aproveita da disponibilidade das mães a sacrificar-se pelos filhos, para “poupar” nos gastos sociais”. Também nas comunidades cristãs, constatou, sucede que “a mãe não é sempre devidamente valorizada e é pouco escutada”.

As mães “deveriam ser mais escutadas” – insistiu. Seria necessário compreender melhor sua luta cotidiana para serem eficientes no trabalho e atentas e afetuosas na família; seria necessário entender melhor a quê aspiram para expressar os frutos melhores e autênticos de sua emancipação. Uma mãe sempre tem problemas com os filhos, sempre trabalho. Eu recordo em casa, éramos cinco e enquanto um fazia “uma”, o outro pensava em fazer “outra” e a pobre mamá ia de um lado para o outro. Mas era feliz. Deu-nos tanto. As mães são o mais forte antídoto à difusão do individualismo egoísta. “Indivíduo” quer dizer “que não pode ser dividido”. As mães, em troca, se “dividem” desde quando acolhem um filho para dá-lo ao mundo e fazê-lo crescer”.

Segundo o Papa Francisco, são elas, as mães, “as que mais odeiam a guerra que mata seus filhos”. “Muitas vezes pensei naquelas mães quando tem recebido a carta: “Lhe digo que seu filho morreu em defesa da pátria...”. Pobres mulheres, como sofre uma mãe! São elas que testemunham a beleza da vida.

O arcebispo Óscar Arnulfo Romero dizia que as mães vivem um “martírio materno”. Na homilia para o funeral de um sacerdote assassinado pelos esquadrões da morte, recordou o Papa Francisco lendo uma passagem do texto de Romero, de 15 de maio de 1977, para o funeral do padre Alfonso Navarro Oviedo, “disse, tornando-se eco do Concílio Vaticano II: “Todos devemos estar dispostos a morrer por nossa fé, mesmo que o Senhor não nos conceda esta honra... Dar a vida não significa só que matem alguém; dar a vida, ter espírito de martírio, é dar no dever, no silêncio, na oração, no cumprimento honesto do dever, naquele silêncio da vida cotidiana, ir dando a vida, como a da mãe que sem rodeios, com a simplicidade do martírio maternal, concebe em seu seio a seu filho, dá à luz, dá de mamar, faz crescer, cuida com carinho de seu filho. É dar a vida – e estas são as mães. É martírio.” O Papa não se referiu ao processo de beatificação de Romero, que foi liberado dos entraves após sua eleição como sucessor de Pedro.

Uma sociedade sem mães, explicou Francisco, “seria uma sociedade desumana, porque as mães sempre sabem testemunhar, inclusive nos piores momentos, a ternura, a dedicação, a força moral. As mães amiúde também transmitem o sentido mais profundo da prática religiosa: nas primeiras orações, nos primeiros gestos de devoção que uma criança aprende, se inscreve o valor da fé na vida de um ser humano. É uma mensagem que as mães que crêem sabem transmitir sem muitas explicações: estas virão depois, mas a semente da fé está nesses primeiros, preciosíssimos momentos. Sem as mães, não só não haveria novos fiéis, senão que a fé perderia boa parte de seu calor simples e profundo. E a Igreja é mãe, com tudo isto. É nossa mãe! Nós não somos órfãos, somos filhos da Igreja, somos filhos da Virgem e somos filhos de nossas mães. Queridas mães, obrigado, obrigado pelo que são na família e por aquilo que dão à Igreja e ao mundo. E a ti, amada Igreja, obrigado, obrigado por ser mãe. E a ti, Maria, Mãe de Deus, obrigado por fazer-nos ver Jesus. E a todas as mamães aqui presentes, saudamo-las com um aplauso!”

No final da audiência, o Papa também recordou o 70º aniversário da liberação do campo de concentração de Auschwitz e saudou os peregrinos alemães e polacos, e também animou os casais dos recém-casados (“Eu vos digo valentes, porque se necessita valentia para casar-se!”).

O Papa dedicou um agradecimento especial aos membros do circo do Golden Circus de Liana Orfei, que apresentaram um espetáculo na Aula Paulo VI: “As pessoas que fazem espetáculos no circo criam beleza, são criadoras de beleza, e isto faz bem à alma. Quanto nós necessitamos de beleza!”. Na vida, prosseguiu, existe “a linguagem das mãos, fazer, a linguagem da mente, pensar, e a linguagem do coração, amar; e estas três linguagens se unem para criar harmonia na pessoa e ali radica a beleza. Esta gente que hoje fez este espetáculo é criadora de harmonia, de beleza, que ensina a via superior da beleza. Deus, por suposto, é bom, sabe fazer as coisas, criou o mundo, mas, sobretudo, Deus é belo, a beleza de Deus, e muitas vezes nos olvidamos da beleza. A humanidade pensa, sente, faz, mas ainda tem enorme necessidade da beleza.”

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