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10 Dezembro 2014

Na véspera da sexta reunião do Conselho dos Cardeais, parece que o caminho da reforma da Cúria Romana chegou a um impasse – o próprio Papa Francisco disse que as reformas não se realizarão no próximo ano. Houve um impasse quanto aos postos de maior alcance durante o último Sínodo dos Bispos, conduzido pelos que eram considerados os mais próximos do pontífice. No final deste mesmo Sínodo, houve um impasse em muitas das decisões finais do Papa Francisco. Estes eventos sugerem haver grupos que querem impedir que o Papa Francisco leve adiante as reformas. Com uma nuance: as reformas que não devem ser levadas a cabo são as de Bento XVI, não as do Papa Francisco. É como se, colocando entre parênteses o pontificado de Bento XVI, houvesse a necessidade de se voltar atrás.

A reportagem é de Andrea Gagliarducci, publicada pelo Monday Vatican, 08-12-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Que muitos não gostaram da revolução silenciosa de Bento XVI é evidente, bastando olhar para os ataques (quase sempre injustos) a que o seu pontificado esteve sujeito. E que a revolução de Bento XVI está sendo bloqueada e desacelerada ficou evidente em muitos exemplos durante o pontificado do Papa Bento XVI. Talvez o exemplo mais importante é o relato presente no livro “The Great Reformer” [O grande reformador], escrito por um jornalista de Londres, Austen Ivereigh.

Ex-porta-voz do cardeal Cormac Murphy O’Connor, de Westminster, e ex-editor da revista católica progressista inglesa “The Tablet” e atual gestor do CatholicVoices, Ivereigh reportou que a assim-chamada “Equipe de Bergoglio” trabalhou nos bastidores para eleger o arcebispo de Buenos Aires como papa.

Segundo Ivereigh, esta “equipe” era composta pelos cardeais Murphy, Walter Kasper, Carl Lehmann e Godfried Daneels. Ivereigh escreveu, gerando certa polêmica, que os quatro cardeais “garantiram o assento de Bergoglio” (embora esta afirmação será modificada nas reimpressões do livro). Levantou-se a questão da validade da eleição de Bergoglio, uma vez que a “Universi Dominici Gregis”, a Constituição que regula as eleições papais, proíbe todo e qualquer acordo “político” antes de um conclave.

Por outro lado, a Constituição não proíbe a troca de opiniões, os jantares informais e o debate sobre possíveis candidatos. E os cardeais da Equipe de Bergoglio (Murphy nem mesmo poderia participar no Conclave, pois ainda não era cardeal) fizeram exatamente isto: jantares, troca de opiniões e assim por diante. No entanto, os quatro pediram ao Pe. Federico Lombardi, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, que contestasse o relato do livro, o que ele fez. Ao que o autor, Ivereigh, respondeu ressaltando que eles estavam apenas negando que os cardeais tiveram uma tal agenda, não que eles haviam pedido pela eleição de religioso argentino.

Ivereigh escreve que os quatro apoiaram Jorge Mario Bergoglio durante o Conclave de 2005, e que o próprio Bergoglio os dissuadiu de continuarem votando em seu favor – votos que estavam servindo para impedir a eleição de Ratzinger. Este parece um minúsculo detalhe, mas, na verdade, é uma peça de informação relevadora. Após oito anos de Bento XVI, os cardeais escolhem olhar para trás. É até mesmo uma escolha simbólica, num mundo onde tudo tem um significado. E o significado é este: deveríamos ter percorrido um caminho diferente.

Os escândalos e ataques contínuos ao pontificado de Bento XVI devem ser lidos dentro deste contexto: os ataques forneceram uma desculpa para os cardeais trocarem os temas dos encontros pré-conclave, dos problemas universais da Igreja e do anúncio do Evangelho ao problema urgente de resolver as controvérsias práticas. Eles também apoiaram a noção de que os problemas urgentes podem ser resolvidos com uma reforma da reforma. Ou seja, retornar ao passado, mascarando-a como uma grande novidade.

Boa parte do debate tendencioso nos encontros pré-conclave está espelhado no atual debate. A tão discutida reforma da Cúria foi apoiada por muitos durante estes encontros. No entanto, somente uns poucos cardeais sabiam, profundamente, o que é a Cúria Romana, como ela funciona. A questão financeira foi considerada fundamental. Mas grande parte das informações era a que vinha dos jornais, e nem sempre eram informações exatas.

Provavelmente, este contexto é o motivo pelo qual o cardeal George Pell, prefeito da Secretaria para a Economia e membro do Conselho dos Cardeais, escreveu um artigo recente publicado na revista The Catholic Herald.

O título do artigo – “Os dias de desvios de dinheiro no Vaticano acabaram” – é verdadeiro: muito foi roubado do Vaticano durante estes anos todos. E o cardeal Pell deseja, sinceramente, fazer uma limpeza no Vaticano. Algumas passagens do texto são válidas de nota.

Pell ressaltou que o Vaticano não está quebrado, já que há muitos milhões em “balanços financeiros seccionais”. O Pe. Federico Lombardi esclareceu as afirmações de Pell no dia após a publicação do artigo, observando que o cardeal não estava falando a respeito de fundos escondidos, como suas palavras podem sugerir.

A afirmação de que “milhões estavam escondidos” é, talvez, a afirmação mais marcante. Vale observar também que o texto do cardeal Pell pode sugerir que Ettore Gotti Tedeschi foi demitido de seu posto de presidente o Conselho de Superintendência do IOR porque se encontrava em meio a uma luta de poder; e que os conselhos e congregações pontifícios tinham, no mínimo, uma administração ingênua de suas finanças – mas, na realidade, manteve-se que elas deverão apresentar os seus balanços financeiros para a Prefeitura dos Assuntos Econômicos para uma supervisão.

É verdade, a racionalização da organização das estruturas financeiras vaticanas pode estar em ordem. Mas é verdade, também, que aquilo que o cardeal Pell descreveu como “fundos seccionais” são, provavelmente, os fundos da Secretaria de Estado, da Congregação para a Evangelização dos Povos e da Congregação para as Igrejas Orientais: todas estas têm os seus próprios orçamentos, que não se refletem no orçamento geral da Santa Sé/Estado da Cidade do Vaticano.

Todas estas instituições abdicaram dos seus fundos e orçamentos no intuito de defender a liberdade da Igreja. Por exemplo, se num país onde os padres não podem ter uma conta bancária e nem suas paróquias, o Núncio Apostólico presente no país pede por auxílio financeiro à Secretaria de Estado. Esta deve ter condições de dar a assistência a ele em dinheiro vivo. Esta é parte da missão da Igreja: apoiar as dioceses em missão.

No intuito de garantir a liberdade da Igreja, uma reforma financeira que aderisse aos padrões internacionais e, ao mesmo tempo, preservasse a especificidade do Estado da Cidade do Vaticano foi esboçado durante o pontificado do Papa Bento XVI. E uma reforma da Prefeitura para os Assuntos Econômicos foi posto em prática também, dando, assim, a esta prefeitura tarefas semelhantes àquelas de um ministério vaticano de finanças. O Instituto para as Obras de ReligiãoIOR iniciou revendo todas as contas bancárias de seus clientes, enquanto as finanças do Vaticano passaram, como um todo, por uma avaliação externa feita pela comissão MONEYVAL do Conselho da Europa. O relatório do MONEYVAL achou que as finanças vaticanas estavam, em grande parte, em conformidade com os padrões internacionais, enquanto que um relatório posterior da mesma agência (publicado em dezembro de 2013) confirmou a seriedade do empenho do Vaticano neste sentido.

O artigo de Pell sugere a necessidade de uma reforma completa. Por outro lado, dever-se-ia considerar as reformas de Bento XVI e o enorme impacto advindo delas. Da mesma forma, dever-se-ia reconhecer que este caminho já havia começado a ser percorrido sob o Papa João Paulo II. Este novo projeto para as finanças aparentemente visa a consolidação total dos orçamentos, sob o controle único da Secretaria para a Economia. Diferentemente disso, a reforma do Papa Bento baseava-se na colegialidade, mas ninguém, na verdade, ressaltou este aspecto.

O pontificado de Bento XVI não foi compreendido em sua potencialidade revolucionária. Por outro lado, tudo o que é feito pelo Papa Francisco é (muitas vezes erroneamente) descrito como uma ruptura com o passado.

Entre cardeais, bispos e funcionários da Cúria, muitos estão se sentindo um pouco desapontados, decepcionados, já que esta nova abordagem – alimentada pela imprensa – aparentemente não mantém nada do que foi feito no passado. Por exemplo, a ênfase num novo compromisso pastoral pode sugerir que a Igreja carecia de acompanhamento pastoral no passado; as menções contínuas ao mau funcionamento da Cúria pode dar a entender que, na Cúria, não havia homens de boa vontade, ou que tudo era mal administrado até então. Obviamente, o Papa Francisco não quis que as coisas se parecessem assim. Ele simplesmente quis resolver os problemas.

É verdade, as coisas podem ter melhorado – e elas vão melhorar. Por outro lado, a imprensa deveria evitar a tentação de retratar a Cúria como um ninho de pessoas não profissionais, ou como um lugar de negócios ilícitos.

Que a reforma de Bento XVI é válida e que está em curso pode ser inferida a partir da resistência de muitos bispos e cardeais para com suas mudanças. O Sínodo dos Bispos – durante o qual os prelados expressaram suas preocupações, num debate aberto – foi um campo importante de testes. Um outro campo de testes foi a reunião do papa com os chefes dos dicastérios, em 24 de novembro.

Ao debater as propostas de reforma do Conselho dos Cardeais, os chefes dos dicastérios vaticanos levantaram – segundo fontes locais – muitas objeções. Não houve nenhum problema quanto à proposta de consolidar as duas grandes congregações (de Justiça e Paz, e dos Leigos e da Família) que incluem cinco secretarias cada uma (isto é, escritórios). O problema foi – destacaram os críticos – que a reforma deveria somente ser levada a cabo segundo os critérios institucionais, levando em consideração as responsabilidades de cada dicastério e de suas contribuições valiosas. Os chefes dos dicastérios também levantaram algumas questões de ordem pragmática. Por exemplo, para onde vão os funcionários dos dicastérios assimilados? Todas estas dúvidas não estavam presentes nas informações dadas aos chefes presentes.

Não por acaso que o cardeal Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga, coordenador do Conselho dos Cardeais, concedeu uma entrevista para reiterar a disposição de todos em levar a cabo as reformas. A verdadeira interrogação, porém, é que as reformas podem não mudar nada em termos substanciais, mas simplesmente na forma como cada dicastério é gerido. No relatório do dia 24 de novembro, há muitas “lacunas” e os chefes dos dicastérios notaram isto. Eis a razão pela qual o anúncio principal esperado da reforma não aconteceu.

O mesmo ocorreu durante o Sínodo dos Bispos. As pressões no sentido de mudanças rápidas levaram a um primeiro esboço (o relatório intermediário) que não foi aprovado pela maioria dos bispos. O relatório final teve que levar em conta muitas das questões levantadas nos pequenos grupos. O relatório final não foi, no entanto, completamente aceito, mas é, afinal, um compromisso quase certo.

A forma como o Sínodo foi conduzido deu a impressão de que as mudanças estavam sendo impostas secretamente, sem levar em consideração as diferenças de opinião – como provado pelo sigilo das discussões (a Secretaria Geral do Sínodo não quis torná-las públicas) bem como pelo debate animado sobre tornar públicas as observações apresentadas ao relatório intermédio.

Este assunto é algo em que o Conselho dos Cardeais deve manter seus olhos atentos, enquanto se preparam para realizar a sua 6ª reunião neste dia 9 de dezembro. Muitas das reformas trazidas por eles apresentam-se como verdadeiras reviravoltas. Pode-se supor que as reformas de Bento XVI, baseadas na colegialidade e na responsabilidade pessoal, assustou as pessoas. Elas pressionaram a Igreja a ir adiante e tiveram um grande impacto na arena internacional. A grande reforma da caridade; a grande reforma das finanças vaticanas; a reforma do Código de Direito Canônico (que o Papa Francisco promulgou)... todas iniciativas introduzidas sob o comando de Bento XVI, quem viu claramente a necessidade de um novo tipo de relação, e foi por isso que ele começou as suas reformas mudando os critérios de admissão aos seminários. É bastante irônico que um de seus últimos discursos (e um discurso profético, à luz do que aconteceria mais tarde) foi aquele proferido a seminaristas em Roma.

Se o compromisso da Santa Sé em transformar o Vaticano num Estado moderno, embora mantendo a sua própria especificidade, não foi compreendido, é porque o lado oposto representa o modelo de uma Igreja pop, parecida com uma empresa, que almeja atiçar as consciências com palavras simples que as pessoas gostam de ouvir.

Mas a Igreja não é só pop. A Igreja é também história, missão e soberania. E a soberania do pequeno território do Estado da Cidade do Vaticano é fundamental para a Santa Sé exercer a sua missão. Em tempos em que a própria Europa virou as costas para os valores cristãos, a soberania torna-se uma nova ferramenta para atuar, plenamente, como uma autoridade moral.

O grande desafio do Papa Francisco é o de completar as reformas do Papa Bento XVI. O grande desafio da imprensa, por outro lado, é ir além do paradigma da descontinuidade. A imprensa precisa entender que, entre um papa e outro, há uma série de reformas que precisam ser realizadas a fim de serem eficazes, e que Francisco não pode levar nada adiante sem apreciar e valorizar o trabalho de seu predecessor. Por exemplo, assim como Francisco, Bento falou abertamente de uma Igreja pobre para os pobres. Ele assim o fez em sua visita de 2011 à Alemanha, quando delineou uma Igreja que precisava ser menos mundana, menos conformada em sua própria estrutura.

Para a rica Igreja alemã, foi um tapa na cara. Bento XVI revogou a “latae sententiae commination” de excomunhão para os que não pagam o “Kirchensteuer”, o imposto para a Igreja. Esta excomunhão foi o resultado do fato de que, quando alguém declarava que não ia pagar o imposto porque ele não mais era católico, esta declaração era considerada o equivalente a um ato de apostasia. Os bispos alemães responderam com um documento que afirmava que não pagar o Kirchensteuer equivalia a um “pecado público grave”, o que resultou, ao final, nas mesmas consequências de uma excomunhão. Até hoje, este é o único “pecado público grave” que os bispos alemães listaram, enquanto que para todos os demais “pecados públicos graves”, incluído aquele de se divorciar e casar novamente no civil (o que também tem um impacto social), os bispos do país (incluindo os ex-cardeais Marx, Kasper e Lehmann) pedem para se agir com misericórdia.

Estas pequenas contradições são alimentos para o pensamento. Deveríamos ir além do paradigma da descontinuidade do Papa Francisco. Mas também deveríamos reconhecer que muitos, entre aqueles que o elegeram, têm sua própria agenda – desse modo, por que eles deveriam ser tão ativos? Resta saber ainda o quanto desta agenda o Papa Francisco vai seguir. O ativismo deles, porém, indica que o papa, no final, não irá endossar todos os seus movimentos.

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