Êxodo, mais reis que deuses. Um colossal com pouca inspiração

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Por: André | 09 Dezembro 2014

Êxodo: Deuses e Reis nos recorda que o relato bíblico é uma fonte inesgotável de argumentos para o cinema. Neste caso colocando a serviço do espetáculo audiovisual todo o novo aparato tecnológico (3D, efeitos especiais especialmente para as massas e nas pragas, assim como para reconstruções históricas do contexto). O argumento centra-se na rivalidade entre Moisés e Ramsés, com a vitória do primeiro, que abre o caminho para a libertação de seu povo obedecendo ao mandamento de Deus, neste caso representado, com originalidade e acerto, por uma criança.

A reportagem está publicada no sítio espanhol Religión Digital, 06-12-2014. A tradução é de André Langer.

O britânico Ridley Scott já havia ressuscitado o gênero do peplum no oscarizado Gladiador (2000), onde um bom roteiro ficou completado com uma grande produção que contou com as atuações destacadas de Russell Crowe e Joaquin Phoenix. Entre seus primeiros filmes recordamos Alien, o 8º passageiro (1979), Blade Runner (1982) e Thelma e Louise (1991), que se converteram em obras de culto. No entanto, em seus últimos filmes parece ter perdido a inspiração. Em que grupo devemos incluir Êxodo: Deuses e Reis? Entre os filmes imprescindíveis ou entre os exclusivamente comerciais?

Se há algo de significativo em Êxodo: Deuses e Reis é uma realização sensacional onde em muitos momentos se vê a mão de um mestre da composição. Ressaltemos especialmente a batalha dos hititas, as 10 pragas e o milagre da passagem do mar. No entanto, o filme se ressente de um roteiro superficial em relação ao estudo das fontes históricas egípcias e bíblicas, com desequilíbrio e desproporção no relato, na falta de dramaticidade dos personagens secundários e na desorientação da temática de fundo. Vê-se que a acumulação de roteiristas, inclusive do sobressalente Steven Zaillian – de quem devemos destacar Tempo de Despertar (1990), A Lista de Schindler (1993) e Gangues de Nova York (2002) – não é sinônimo de acerto.

O filme gira em torno do eixo, durante a maior parte do excessivo metragem (150 minutos), do enfrentamento entre Moisés, o melhor do filme é a atuação de Christian Bale, e Ramsés, correto Joel Edgerton. Ambos sob o olhar, no começo, do faraó Seti, interpretado por John Turturro. Para depois ficar quase sozinho o duelo de interpretações assinalado, com a companhia fugaz e limitada de Nun (Ben Kinsgley), de Séfora a mulher de Moisés interpretada por María Valverde, de Tuya (Sigourney Weaver) e de Josué (Aaron Paul), entre outros. Após uma interessante apresentação da vocação de Moisés no episódio da sarça ardente, um desenvolvimento sensacional das pragas e da passagem pelo mar, o filme acaba mal e com pressa passando na ponta dos pés pelo Sinai e fazendo apenas uma alusão à terra prometida.

O filme referência de Os 10 Mandamentos (1956), do reincidente Cecil B. DeMille, que também fez outro filme com o mesmo título, é um modelo ruim. Os tempos não apenas mudaram nas técnicas, mas também na interpretação dos textos que servem de base. Os grandes temas do relato, assim como a eleição e a aliança, o deserto e a terra prometida ou, em definitiva, a constituição do povo de Deus ficam eclipsados por tanto fogo de artifício.

Pontos obscuros

Teria sido inteligente colocar um narrador-escritor bíblico, o que teria dado mais jogo às possíveis interpretações que vencem uma leitura literal. Assim, por exemplo, a figura do menino para representar Deus teria ficado mais simbolicamente coerente, embora seja uma das melhores descobertas do roteiro. A apresentação das pragas e a questão dos primogênitos oferece mais o espetáculo do que o sentido. Ao final, fica uma imagem de um Deus sádico, por mais menino que seja. A intenção do texto bíblico é ressaltar a defesa por parte de Deus dos primogênitos de Israel como futuro da humanidade. “Deus tem um desígnio para o seu povo e, através dele, para a humanidade; e que a oposição a este desígnio, nesse momento e outras muitas vezes depois, acarreta inevitavelmente sofrimento” (Joseph Blenkinsopp). A ausência de protagonismo de Aarão, Josué e os próprios Nun, Jetro e Séfora concentra muito a ação sobre Moisés apagando a imagem do seu povo. Assistimos, pois, a um bom espetáculo durante duas horas e meia, mas a visão comercial, que segue os mesmos parâmetros das velhas glórias de Hollywood, sacrifica o sentido. Colossal sim, mas com pouca inspiração.

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