''Nada de comunhão para os divorciados. Acho que essa será a decisão do papa.'' Entrevista com Angelo Scola

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03 Dezembro 2014

"Como diremos aos jovens que se casam hoje – para os quais o "para sempre" já é muito difícil – que o matrimônio é indissolúvel, se eles sabem que, no entanto, sempre haverá uma saída? É uma questão pouco levantada, e isso me admira muito."

Essa é a opinião do cardeal arcebispo de Milão, na Itália, Angelo Scola, em entrevista a Aldo Cazzullo, publicada no jornal Corriere della Sera, 02-12-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Cardeal Scola, no Sínodo, a Igreja se dividiu. Surgiram uma maioria e uma minoria. É normal? Ou é preocupante?

A palavra divisão está deslocada. Surgiram posições diferentes. Houve um debate, às vezes forte, sempre voltado à comunhão. Não é uma novidade. Basta pensar nos concílios.

Qual é a sua posição?

Pessoalmente, sugeri que se pensasse a questão na raiz, à luz de uma reflexão antropológica sobre a diferença sexual e, no plano teológico, aprofundando a relação matrimônio-eucaristia. E fiz uma proposta que vai na direção – indicada várias vezes pelo papa – de permanecermos fiéis à doutrina, mas de tornar mais próximas do coração das pessoas e mais rápidas as verificação de nulidade do matrimônio. Lancei a ideia de envolver o bispo mais diretamente nos procedimentos.

Sem que os fiéis devam pagar?

A esse respeito, circulam várias lendas urbanas. A Conferência Episcopal Italiana (CEI), há muito tempo, garante o financiamento dos tribunais e introduziu advogados públicos gratuitos. Hoje, na Itália, qualquer pessoa que queira abrir uma causa de verificação de nulidade pode fazê-lo, mesmo que não tenha dinheiro. Depois, se há advogados que cobram abusivamente, isso deve ser duramente criticado.

Mas, sobre o ponto da comunhão aos divorciados em segunda união, qual é a sua posição?

Tenho discutido sobre isso intensamente, em particular com os cardeais Marx, Danneels, Schönborn, que estavam no meu "círculo menor", mas não consigo ver as razões adequadas de uma posição que, de um lado, afirma a indissolubilidade do matrimônio como fora de discussão, mas, de outro, parece negá-la nos fatos, quase operando uma separação entre doutrina, pastoral e disciplina. Esse modo de sustentar a indissolubilidade a reduz a uma espécie de ideia platônica, que está no empíreo e não entra na concretude da vida. E coloca um grave problema educativo: como diremos aos jovens que se casam hoje – para os quais o "para sempre" já é muito difícil – que o matrimônio é indissolúvel, se eles sabem que, no entanto, sempre haverá uma saída? É uma questão pouco levantada, e isso me admira muito.

Então, no Sínodo, o senhor votou com a minoria?

No máximo, com a maioria, mesmo que eu não pensaria nesses termos: sobre as propostas que não atingiram os dois terços, pode ter havido uma votação transversal. Certamente, a posição do magistério pareceu-me, nos relatórios dos "círculos menores", decididamente a mais seguida.

E se, ao invés, no fim do Sínodo, o papa tomasse uma posição com que o senhor não compartilha?

Eu acredito, justamente, que ele não vai tomar. Mas, desse debate, já saiu e vai se reforçar uma atenção tanto para os divorciados em segunda união, quanto aos homossexuais, que até agora não havia. Os benefícios do animado debate sinodal já são evidentes. Ainda mais porque fez surgir um conteúdo fundamental: a família como sujeito, e não só objeto, de anúncio do Evangelho. A família é chamada a testemunhar a beleza de enfrentar, com o olhar da fé, o cotidiano: afetos, trabalho, repouso, dor, mal, procriação e educação, construção de uma vida boa. Em suma, para fazer realmente uma experiência de Igreja em saída de si mesma.

O papa também poderá deixar inalterada a doutrina, mas, sem dúvida, deslocou a ênfase para outros temas, particularmente para o social.

Devemos reconhecer: o estilo – mas o estilo, dizia Lacan, é o homem – desse papa representou para nós, europeus, uma pró-vocação, no sentido etimológico da palavra. Colocou-nos diante da urgência de assumir a nossa tarefa de cristãos de forma diferente. E isso traz consigo uma salutar dose de desestabilização, porque, se não formos provocados, não mudamos. No entanto, eu vi no Sínodo, mas também nas congregações pré-conclave, uma densidade de comunhão milenar. Ela urge a todos a reconhecer no ministério petrino o pilar que garante a unidade da Igreja.

Pode haver um diálogo aceso, até mesmo dialético, e momentos de incompreensão, mas, no fim, todos convergem. O estilo do papa pede a cada um de nós, fiéis, a humildade de escutá-lo muito e de entrar na sua perspectiva. Partindo da sua experiência latino-americana, que tem por trás uma cultura e uma teologia sobre a qual, no mínimo, nós, europeus, não estávamos adequadamente informados, o papa enfatiza aspectos que nós talvez estávamos acostumados a enfrentar com uma modalidade um pouco mais "sentada", um pouco mais "burguesa".

O senhor disse que a Igreja tem sido lenta ao se abrir aos homossexuais. Ruini lhe respondeu que a onda libertária vai refluir, como aconteceu com a onda marxista. O senhor concorda?

Vinte anos atrás, eu escrevi que a revolução sexual colocaria à prova a proposta cristã, talvez mais do que a revolução marxista. Agora isso está ocorrendo. Poderá haver um refluxo, já vemos alguns sinais disso. Por exemplo, nos EUA, surgiram associações de jovens que optam por chegar virgens ao matrimônio. E há uma realidade de base, nas nossas terras ainda relevante, que vê a fidelidade à família em termos cada vez mais conscientes e se dispõe a estilos de fraternidade, à hospitalidade, à confiança, à adoção.

Concordo com o cardeal Ruini a ideia de que a opinião pública não coincide, de fato, com a opinião midiática. Mas o caminho certo é o caminho de pagar pessoalmente. Nós, no respeito aos procedimentos da sociedade plural, não podemos nos exonerar de tomar uma posição pública e, portanto, de propor leis que consideramos as melhores. Hoje, o risco mais grave é o de destruir a filiação através da barriga de aluguel, que significa pôr no mundo filhos órfãos de pais vivos, com a enorme carga de problemas que isso já está produzindo.

Então, na sua opinião, ainda faz sentido falar de valores inegociáveis? O senhor sabe que o papa não se reconhece nessa expressão.

Não gostaria de parecer presunçoso, mas eu nunca a usei. Sempre falei de princípios irrenunciáveis. Em todo o caso, com a expressão "inegociável", não se queria dizer que não estamos dispostos a dialogar com todos; mas, justamente, há princípios irrenunciáveis para nós, como o oxigênio para a vida. Estou convencido de que, em uma sociedade plural, é necessária a operação de que Ratzinger fala no seu diálogo com Habermas. Situo integralmente a minha visão dentro de uma sociedade que registra a presença de sujeitos com pontos de vista diferentes e busco constantemente o debate. Mas não possa renunciar a certos princípios: se a minha posição não for acolhida, vou recorrer à objecção de consciência.

A que pontos o senhor se refere?

Devemos nos decidir a pensar em unidade a tríade "direitos, deveres, leis". Não é possível fazer leis justas, sem fazer referência a direitos e a deveres tomados em conjunto. Hoje, a tríade não é apresentada unitariamente. Cada inclinação subjetiva pretende ser até um direito fundamental. Justamente quando se invoca a máxima liberdade, constrói-se uma malha cada vez mais estreita de leis que a reduzem.

Estamos às vésperas do seu discurso de Santo Ambrósio. Milão, hoje, vive a degradação das periferias e a revolta social.

Vou me referir à tese do Papa Francisco sobre a "mega-city" de Buenos Aires. A força de Buenos Aires – diz o papa – é o fato de ser um poliedro: todas as faces talvez sejam desiguais, mas o poliedro permanece um solidamente. Milão não é uma "mega-city", mas já é uma metrópole, em que certas áreas de bairros periféricos tornaram-se um concentrado de marginalização muito grave. Os meus párocos e a Cáritas dizem que, nessas situações, quase apenas 20-25% da população são constituídos por pessoas estáveis com uma renda segura. Não há mais um sujeito capaz de conter os fenômenos de ocupação de casas, de sem-teto, de membros da comunidade Rom, de pequenos ou grandes submundos.

Paradoxalmente, entre nós, o problema pode se tornar menos controlável em relação aos slums ou às favelas ou às villas miseria, justamente porque os fenômenos de marginalidade em Milão estão difundidos de modo irregular. Há pouco tempo estive em Baggio e em Forlanini e vi filas de blocos de apartamentos em que esses problemas explodiram, mas em Corvetto encontrei outros, em Quarto Oggiaro outros ainda. Com o paradoxo escandaloso de que existem casas sem moradores e moradores de rua.

Que impressão o senhor tem de Matteo Salvini [secretário federal da Liga Norte e vereador de Milão] aliado a Marine Le Pen?

Parece-me que agora ele tem um projeto nacional. Portanto, é preciso entender quais são as instâncias profundas de onde parte a sua proposta. Entre a nossa gente, o medo é grande, e seria abstrato considerar que o fenômeno migratório, com o rápido cruzamento de estilos de vida tão fortemente diferentes, não aumente o medo. Mas o medo é um mau conselheiro: é preciso ouvi-lo até o fim e dar as razões para superá-lo. Se, ao contrário, o medo é alimentado, ele se torna raiva, e a raiva é o terreno fértil para a ideologia. A raiva pode se tornar violência ou resignação narcisista. Isso vale para todos, inclusive para nós, cristãos.

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