Papa Francisco na Turquia, o abraço com Bartolomeu e a sombra da Erdogan. Entrevista com Claudio Monge

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28 Novembro 2014

O frei dominicano, que vive em Istambul há mais de uma década, explica os motivos da viagem de Bergoglio e as intenções do governo de Ancara: "Eles estavam relutantes a convidar o pontífice. Agora talvez esperem dissuadi-lo da visita à Armênia".

A reportagem é de Aldo Maria Valli, publicada no sítio Europa Quotidiano, 26-11-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

De novo um papa no Bósforo. Depois de Paulo VI (1967), João Paul II (1979) e Bento XVI (2006), é a vez de Francisco. Pedro vai se encontrar com o irmão André em uma terra marcada pela experiência de outro papa, João XXIII, que lá, quando ainda era Dom Angelo Giuseppe Roncalli, foi núncio por dez anos e aprendeu a amar os irmãos ortodoxos.

Mas por que Francisco vai para a Turquia? E com que perspectivas? Perguntamos isso a um dos maiores especialistas da presença cristã na Turquia: Claudio Monge, frei dominicano que vive em Istambul há quase 12 anos, responsável pelo Centro Dominicano para o Diálogo Intercultural, teólogo da Universidade de Friburgo e consultor do dicastério vaticano para a diálogo inter-religioso.

"Francisco – explica Monge – vem depois de um convite formal do Patriarca Bartolomeu, que continua uma tradição de presença dos representantes das duas Igrejas nas respectivas festas patronais: a dos santos Pedro e Paulo em Roma, e a de Santo André em Istambul. Entre os dois, instaurou-se uma intensa relação fraterna que levou a um aumento dos encontros também em outras ocasiões. Obviamente, depois, o convite do patriarca teve que ser seguido por um convite formal do presidente da República turca (sendo o papa também um chefe de Estado): convite que teve que ser esperado, dadas as repetidos relutâncias mostradas por Erdogan para se encontrar face a face com o papa de Roma (nos últimos anos, o ex-primeiro-ministro do país atacara várias vezes as personalidades turcas que tinham se alternado ao se encontrarem com o chefe da Igreja Católica)".

Eis a entrevista.

Quão grande, ou quão pequeno, é o rebanho de Patriarca Bartolomeu?

O rebanho de Bartolomeu em solo turco é numericamente irrelevante: é a menor Igreja cristã da Turquia (entre 600 e 1.000 unidades, no máximo), com exceção de um certo número de comunidades pertencentes ao arquipélago das novas Igrejas protestantes, que são praticamente comunidades domésticas. Mas, para além dos números pequenos, o que conta para o mundo greco-ortodoxo é a história da sede de Constantinopla, que, até hoje, sempre garantiu ao patriarca uma espécie de papel como primus inter pares em relação aos líderes das outras Igrejas autocéfalas da ortodoxia. Um primado a partir do qual Bartolomeu convocou, para 2016, o tão sonhado Sínodo pan-ortodoxo (uma espécie de Concílio vaticano da ortodoxia).

O que o governo turco espera obter com essa visita?

Depois de tantas relutâncias para formular o convite formal ao Papa Francisco, agora o governo turco seguramente busca ter um bom retorno midiático internacional, especialmente nesta fase de dramático isolamento da diplomacia turca em relação às chancelarias ocidentais e em particular em relação aos vizinhos da região, antigamente sócios nos negócios e agora inimigos acérrimos de Ancara. Uma esperança secreta, talvez, também é a de amansar o papa em relação aos seus propósitos, inquietantes para Ancara, de visitar a Armênia em vista do aniversário do trágico 1915.

O que o cidadão médio turco sabe da visita e de Francisco?

Por enquanto, pouco ou nada, porque o Papa Francisco, em um Estado de esmagadora maioria e cultura muçulmana, nada mais é do que um líder religioso dentre outros, embora da maior e mais difundida comunidade religiosa no mundo. Certamente, como já aconteceu com Bento XVI (que chegou, aliás, em circunstâncias certamente menos positivas para a figura papal, logo depois do famoso discurso de Regensburg e em plena crise internacional das caricaturas de Maomé), a atenção midiática vai aumentar nos dias efetivos da visita.

O papa vai levar uma mensagem de colaboração, mas a sociedade turca tem interesse nisso?

Na Turquia, há muitos neste momento que captam a gravidade dramática da situação na região do Oriente Médio: todos reconhecem ao Papa Francisco o fato de falar francamente e a força da sua denúncia dos ataques cotidianos contra a dignidade da pessoa perpetrados em nome de enormes interesses econômicos, aparentemente imparáveis mesmo diante de verdadeiras tragédias humanitárias. Acho que, para além das instrumentalizações, muitas vezes populistas, do poder, a base da sociedade percebe muito bem a necessidade de mudanças radicais no modo de compreender as relações entre os povos, assim como a relação com o ambiente natural que nos rodeia. Portanto, o discurso do Papa Francisco certamente não é estranho a esse sentimento.

Quantos são os cristãos católicos na Turquia?

As estatísticas são sempre muito difíceis, não dispomos de censos oficiais e, além disso, os dados dos últimos tempos também variam por causa das migrações e da chegada de um grande número de estudantes residenciais africanos que talvez em 40% são de tradição cristã. Isso quer dizer que, diante de uma diminuição da presença de cristã históricos (pensemos nos católicos "levantinos" e nos cristãos das Igrejas Orientais históricas dos outros três ritos católicos presentes no país, o armênio, o siríaco e o caldeu), não se pode falar de forma simplista, como se faz muitas vezes, de um progressivo desaparecimento da presença cristã na Turquia, mas de uma mudança substancial do rosto dessa presença.

Os assassinatos ocorridos na Turquia do Pe. Andrea Santoro (2006) e de Dom Luigi Padovese (2010) ainda são feridas abertas?

A morte de irmãos que amaram e trabalharam neste país só pode ser uma ferida ainda aberta, mas que, na fé, também é semente lançada e trará fruto nos tempos e nos modos que o Senhor quiser. Se por ferida entendermos que podem trazer prejuízo pesado nas relações entre cristãos e muçulmanos, a resposta só pode ser pessoal, porque o diálogo, em última instância, é uma questão de uma abertura pessoal ao encontro. Eu não acredito que os dois homicídios, cujo motivo nunca foi claramente determinado na fase processual, possam se configurar simplesmente como de matriz islâmica: eles são de matriz política, voltada a desestabilizar o país, aproveitando também o elemento religioso e contando com a repercussão midiática de tais atos.

Qual é a reação do Patriarcado Ortodoxo de Moscou diante das relações amigáveis entre Francisco e Bartolomeu?

As relações de autoridade no mundo ortodoxo não são as mesmas que caracterizam a Igreja Católica: o valor da autonomia das Igrejas é substancial (o princípio do autocefalismo) e muitas vezes também foi causa de tensões particularmente importantes. É claro que o mundo ortodoxo está em busca de uma relação mais compartilhada, de caminhos comuns de testemunho cristão em uma Europa que muda, e, para isso, é importante também um serviço à unidade de um primus inter pares. A sede constantinopolitana sempre reivindicou esse papel histórico, hoje fortemente contestado em nome de um dado acima de tudo estatístico: o patriarca de Constantinopla é pastor de uma comunidade que, em 99%, se encontra em diáspora, é um pastor sem rebanho ou, melhor, com um rebanho distante. Acho que a ideia da convocação de um Sínodo pan-ortodoxo visa a repensar as relações entre Igrejas e o modo de se comunicar com um mundo que, muitas vezes, contesta as próprias bases da fé. A nossa esperança, como cristãos, é que esse projeto possa finalmente se realizar e ter um impacto realmente significativo no coração da ortodoxia e de toda a cristandade.

Como o senhor, como religioso católico, vê a visita e o que deseja?

Como um desafio muito duro, muitas vezes para além das nossas forças organizacionais atuais, diante de relações eclesiais muito fracas! Somos uma Igreja Católica ofegante, que precisa de um novo impulso, para um testemunho consciente em um mundo complexo e em mudança. O fato de ser uma das raras conferências episcopais inter-rituais realmente poderia representar uma riqueza, mas, neste momento, mais do que qualquer outra coisa, é um fardo, uma complicação adicional que torna quase inexistente uma formação cristã cada vez mais urgente, mas negligenciada, para uma presença pastoral ágil, mas capaz de acompanhar os fiéis em um testemunho que não viva apenas de memórias nostálgicas, mas da esperança de um Reino sempre novo, por ser alimentado pelo frescor evangélico. Desejo? Eu já ficaria feliz se a Igreja da Turquia, sob o impulso do Papa Francisco, soubesse reconectar-se com a reflexão que precedeu o Sínodo para o Oriente Médio e que tocava questões importantes e de atualidade ainda mais urgente depois de alguns anos, mas que parecem um pouco esquecidas nos arquivos empoeirados das atas que custam a passar "do papel para a vida".

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