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Ervas resistentes ameaçam reinado do glifosato

A proliferação dos casos de plantas daninhas resistentes ao herbicida glifosato no mundo, notadamente na última década, fez disparar o custo dos transgênicos e deflagrou uma corrida em busca de alternativas contra o problema, um dos mais graves do setor atualmente. Gigantes do setor de sementes e defensivos têm ampliado as pesquisas de novas modificações genéticas e formulações de agroquímicos para fazer frente às "superervas", e uma leva de lançamentos com esse fim deve chegar em breve ao mercado brasileiro.

A reportagem é de Mariana Caetano, publicada pelo jornal Valor, 27-11-2014.

Há duas semanas, uma investida da Dow AgroSciences nos EUA reverberou também por aqui. A múlti anunciou que começará a vender em 2015 o herbicida Enlist Duo, que contém uma mistura de glifosato e outra substância, o 2,4-D. O produto foi desenvolvido para ser usado com uma nova tecnologia transgênica para soja e milho, que promete tornar essas plantas tolerantes aos dois ingredientes ativos e reforçar a defesa contra as invasoras. "Acredito que essa aprovação nos EUA possa agilizar a liberação do Enlist aqui no Brasil", afirma Adriana Brondani, diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB).

Mário Von Zuben, diretor de relações institucionais da subsidiária brasileira da Dow AgroSciences, diz que é "mais provável" que esse pacote tecnológico esteja disponível no país na safra 2016/17. "Além da tolerância ao glifosato e ao 2,4-D, o evento transgênico para a soja oferecerá também tolerância ao glufosinato de amônio, mas nós não teremos oferta comercial do produto". O Brasil é o maior mercado mundial para os defensivos agrícolas: em 2013, as vendas no país somaram US$ 11,5 bilhões, sendo US$ 3,7 bilhões de herbicidas - quase a metade vindo do glifosato.

A recente aceleração do avanço de ervas resistentes está estreitamente relacionada ao uso massivo do glifosato, que disparou a partir dos anos 1990 nos EUA e na década seguinte no Brasil, com o avanço de cultivos que carregam o gene Roundup Ready (RR), da americana Monsanto. O glifosato é um herbicida não-seletivo que deixa intactas as lavouras RR (geneticamente modificadas para resistir a ele) e mata as demais plantas. Ou matava.

Fernando Adegas, pesquisador da Embrapa Soja, lembra que há plantas que têm predisposição natural a não sucumbirem a determinados herbicidas, e a insistência no uso de um mesmo produto ou de diferentes produtos com o mesmo mecanismo de ação potencializa essa seleção. "Defensivos como o glifosato não provocam nenhuma mutação. Eles controlam ervas normais e sobram as resistentes, que dão sementes, multiplicam-se e podem tomar conta da área", explica.

Para ele, a situação se agrava pela postura reativa, e não preventiva, dos agricultores. "É uma questão cultural. Em vez de tomar o cuidado de rotacionar culturas e tecnologias, muitos esperam o problema aparecer". E, apesar de as companhias de agrotóxicos e sementes oferecerem orientações técnicas aos agricultores que usam seus insumos, por vezes esse treinamento não rende os resultados desejados e muitas recomendações são simplesmente deixadas de lado - o que, em certa medida, retardou o enfrentamento mais firme e eficiente da questão.

No Brasil, o problema cresceu de cinco anos para cá: já avançou para o Cerrado, mas ainda se concentra no Sul e na soja, que tem mais de 90% da área plantada no país dominada pela tecnologia RR. Quase um terço dessa área apresenta focos de resistência, segundo a Embrapa. Nos EUA, de 50% a 55% das áreas com grãos no Meio-Oeste estão afetadas. "O correto seria alternar tanto o uso de herbicidas quanto o de eventos transgênicos", afirma Adegas.

A alemã Bayer CropScience é outra gigante que aperta o passo para oferecer opções de controle das ervas daninhas. Sua grande aposta é a tecnologia Liberty Link (LL), que confere à planta tolerância ao glufosinato de amônio. O gene LL já foi liberado no Brasil, mas falta o aval para o herbicida (chamado "Liberty") e a aprovação pela China, que lidera as importações mundiais de soja. A expectativa da empresa é que sua primeira variedade de soja LL no país seja lançada em 2016.

Paralelamente, a Bayer iniciou há três anos um projeto com a rival Syngenta para o desenvolvimento de uma soja resistente a outro herbicida, o HPPD (hidroxifenilpiruvato dioxigenase). "Hoje, nenhum produto HPPD pode ser usado na soja, apenas no milho. Com essa nova tecnologia, haveria essa possibilidade, mas isso será viabilizado apenas no longo prazo", diz Mauro Alberton, diretor de estratégia de marketing para culturas e portfólio da Bayer CropScience no Brasil.

Outra alemã, a Basf, também aposta em parcerias. A companhia se uniu à Embrapa, por exemplo, para desenvolver a soja transgênica Cultivance. A variedade obteve liberação comercial no país em 2009, mas houve a opção por aguardar sua aprovação em mercados importadores antes de colocá-la no mercado - e falta o aval da União Europeia. "Nossa previsão é lançá-la na safra 2015/16", afirma Oswaldo Gomes Marques Júnior, diretor de marketing da divisão de proteção de cultivos da subsidiária brasileira. No ano de estreia, a expectativa da Basf é abocanhar até 10% do mercado de soja tolerante a herbicidas no país.

Há pouco mais de cinco anos, a Basf se associou à Monsanto em um projeto global que envolve uma tecnologia de tolerância a dois herbicidas: glifosato e dicamba. Nos EUA, o produto foi batizado de RR2 Xtend e ainda estão pendentes os processos regulatórios para a liberação comercial. No Brasil, a estimativa é que o lançamento aconteça em 2018 e inclua a tecnologia Bt (de resistência a insetos), conforme Marques Júnior.

A Monsanto, que patenteou o glifosato nos anos 1970, reconhece a necessidade de integrar manejos diversificados contra as ervas resistentes. Mas, para Ramiro Ovejero, gerente de regulamentação da múlti americana no Brasil, dificilmente o ingrediente sairá do sistema de produção. "O glifosato é único, fácil de trabalhar. Entendemos que protegê-lo e usá-lo de maneira mais 'sustentável' é fundamental", afirma. Para resguardar o herbicida, a Monsanto iniciou há quatro anos o Programa Roundup Ready Plus, que estimula os agricultores a adotarem boas práticas (químicas e não-químicas) em dias de campo e treinamentos.

Há também toda uma preocupação em torno do 2,4-D, que compõe o Enlist da Dow AgroSciences. O herbicida é muito criticado por ser um dos componentes do agente laranja, desfolhante usado na guerra do Vietnã.

Autoridades dos EUA liberaram a tecnologia, mas querem monitorar seu uso, observa Adriana Brondani, do CIB. "Foi uma aprovação diferente, já que serão feitas revisões em menor espaço de tempo".

Von Zuben, da Dow AgroSciences, espera que a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) faça já em suas próximas reuniões uma primeira deliberação sobre o Enlist, que está na pauta do órgão brasileiro desde 2012. Para Leandro Astarita, especialista em biotecnologia vegetal, a demora nas avaliações se deve ao "cuidado" na análise dos processos. "O objetivo é reduzir ao máximo o risco do aparecimento de plantas invasoras resistentes a herbicidas, principalmente ao 2,4-D", afirma ele, que foi membro da CTNBio por seis anos.

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