Um novo humanismo para a sociedade interconectada. Entrevista com Piero Dominici

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20 Novembro 2014

"A tecnologia, as redes sociais e, mais em geral, a revolução digital, mesmo tendo determinado uma mudança de paradigma, ainda não são capazes de garantir que as redes de interação criadas gerem relações profundamente comunicativas. Em outras palavras, a rede cria um novo ecossistema da comunicação, mas, mesmo redefinindo o espaço do saber, não pode garantir, em si e por si, horizontalidade ou relações mais simétricas. A diferença, mais uma vez, está nas pessoas e nos usos que se fazem da tecnologia, para além dos muitos interesses em jogo."

Publicamos aqui a entrevista realizada por Marco Minghetti, professor da Universidade de Pavia, com o sociólogo italiano Piero Dominici, professor da Universidade de Perugia.

A entrevista foi publicada no blog Le Aziende InVisibili, 17-11-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"A sociedade interconectada é uma sociedade hipercomplexa, em que o tratamento e a elaboração das informações e do conhecimento já se tornaram os principais recursos; um tipo de sociedade em que, ao crescimento exponencial das oportunidades de conexão e de transmissão das informações, que constituem fatores fundamentais de desenvolvimento econômico e social, ainda não corresponde um análogo aumento das oportunidades de comunicação, por nós entendida como processo social de partilha do conhecimento, que implica paridade e reciprocidade (inclusão). A tecnologia, as redes sociais e, mais em geral, a revolução digital, mesmo tendo determinado uma mudança de paradigma, criando as condições estruturais para a interdependência (e a eficiência) dos sistemas e das organizações, e intensificando os fluxos imateriais entre atores sociais, ainda não são capazes de garantir que as redes de interação criadas gerem relações profundamente comunicativas, isto é, baseadas em relações simétricas e de partilha real. Em outras palavras, a rede cria um novo ecossistema da comunicação, mas, mesmo redefinindo o espaço do saber, não pode garantir, em si e por si, horizontalidade ou relações mais simétricas. A diferença, mais uma vez, está nas pessoas e nos usos que se fazem da tecnologia, para além dos muitos interesses em jogo."

Esse é o início do novo livro de Piero Dominici, intitulado Dentro la società interconnessa. Prospettive etiche per un nuovo ecosistema della comunicazione [Dentro da sociedade interconectada: perspectivas éticas para um novo ecossistema da comunicação]: uma fascinante e muito bem documentada viagem dentro da contemporânea "sociedade interconectada" que termina na necessidade de "uma nova ética que (...) parece ser, para todos os efeitos, uma refundação a partir dos conceitos de comunicação, nova subjetividade, responsabilidade, reciprocidade, partilha, escolha prático-racional e não simplesmente pragmático-técnica, mas, acima de tudo, humanismo do outro homem, isto é, abertura ao novo, ao diferente, embora sempre humano. Com a Pessoa no centro da rede". (...)

Eis a entrevista.

Um dos pontos de partida do seu raciocínio é constituído pelo fato de que "as arquiteturas do novo ecossistema comunicativo entram em conflito com a hierarquia e as tradicionais lógicas de controle/vigilância próprias dos sistemas de poder". Desde sempre, sem querer usar os antolhos do tecnoentusiasta "puro e duro", eu estou envolvido na denúncia do invasivo neoludismo com que a elite dominante continua defendendo vigorosamente os seus privilégios, graças também ao apoio das mídias tradicionais. Em que time você joga, a dos apocalípticos ou dos integrados (não vale responder "in medio stat virtus")?

Em primeiro lugar, gostaria de lhe agradecer por essa oportunidade de debate e partilha que eu considero fundamental em muitos aspectos, não por último o repensamento abrangente da relação entre teoria e pesquisa, entre teoria e práxis. Uma relação há muito tempo interrompido, que continua alimentando e reproduzindo erros estratégicos no caminho da pesquisa e da inovação social: teoria e pesquisa, desde sempre, se alimentam reciprocamente. Non existe pesquisa que não seja conceitual e teoricamente orientada e, ao mesmo tempo, não existe modelo ou práxis organizacional que não seja suportado por um paradigma e por estudos realizados anteriormente.

Mas voltemos ao nosso diálogo e à sua primeira pergunta. Embora compartilhando a sua posição no que diz respeito ao neoludismo (nos meus trabalhos, emerge claramente a atenção dada às relações de poder e às oportunidades para minar hierarquias e estruturas tradicionais), a minha resposta não será tão clara, mesmo que não pretenda absolutamente evitar essa questão que você me faz, muito menos remeter-se a uma posição intermediária de vantagem, entre as duas dicotomias. Continuo convencido de que o debate entre apocalípticos e integrados, definido por alguns como "os profetas de um olho só", deva ser superado – e eu defendo isso desde o distante 1996, ano do meu primeiro emprego.

Trata-se de duas posições analíticas e interpretativas que contêm, ambas, elementos ao menos em parte compartilháveis; posições que, pontualmente, se representam no debate científico e público, todas as vezes em que a inovação tecnológica acelera – junto com a contribuição de inúmeros outros fatores – o processo de mudança. E o acelera a ponto de tornar rapidamente obsoletas e superadas as análises, as interpretações, até mesmo as narrativas que são produzidas e desenvolvidas em relação à civilização digital e ao novo ecossistema da comunicação.

Continuo convencido – e sobre essa abordagem desenvolvi as minhas pesquisas – de que a inovação tecnológica constitui desde sempre um fator estratégico de mudança dos sistemas sociais e das organizações, mas que ela, se não for apoiada por uma cultura da complexidade e por políticas de longo prazo capazes de desencadear e apoiar a mudança cultural (centralidade estratégica de escola, educação, universidade), se revela sempre uma extraordinária oportunidade para poucos e/ou, melhor dizendo, para elites mais ou menos iluminadas.

A partir desse ponto de vista, em relação àquela que eu defini como "sociedade interconectada", a horizontalidade e a democraticidade dos procedimentos e dos sistemas não podem ser garantidas pela tecnologia em si e por si, já que o que faz a diferença são sempre o fator humano e a qualidade das relações sociais e dos laços de interdependência, dentro e fora dos sistemas sociais; dentro e fora das organizações complexas. Portanto, embora acreditando na estreita correlação existente entre comunicação, acesso e partilha do conhecimento, cidadania, vejo como discutível e dificilmente demonstrável (a partir de um ponto de vista científico) a existência de um nexo de causalidade direta entre, por um lado, as novas tecnologias da conexão e, por outro, as dinâmicas ligadas aos complexos processos de participação, cidadania, democracia etc.

Creio, por outro lado, que se inclinar com os apocalípticos ou com os integrados (hoje rotulados como tecnocéticos versus tecnoentusiastas) corresponde também a cometer um erro metodológico de fundo: confiar as análises e a explicação dessa realidade hipercomplexa a teorias e fórmulas deterministas e reducionistas. Questão, esta sim, verdadeiramente crucial para a evolução de um conhecimento e da produção de um saber multidisciplinar que deve recuperar necessariamente uma perspectiva de análise global e abrangente. Para concluir, e espero ter-lhe respondido, fenômenos como a globalização, a sociedade do conhecimento, a sociedade interconectada, a inovação social e tecnológica já devem ser considerados como "dados de fato": é inútil, estéril e improdutivo ser pró ou contra a priori.

Precisamos urgentemente de explicações e análises fundamentadas em dados e pesquisas, mas também precisamos terrivelmente de uma abordagem teórico-crítica para a complexidade, que nos coloque em condição de sair das areias movediças do determinismo monocausal, mas também, em um nível menos comprometedor, de um novismo acrítico de estilo, que nos levou a nos convencermos, nestes anos, de que tudo era fantástico apenas por ser "novo".

"A comunicação – você escreve ainda – tem assumido uma relevância estratégica em todas as esferas da práxis individual e coletiva, e percebe-se a urgência de um modelo teórico interpretativo capaz de explicar a complexidade da mudança em curso. Adverte-se, dentro do sistema tecnocapitalista global, a exigência de uma cultura da partilha que possa efetivamente criar as condições para a realização de uma cidadania ativa e partícipe do bem comum." Supondo que você tivesse a possibilidade de gerir as alavancas necessárias para permitir a realização dessas condições, quais seriam as três primeiras iniciativas fundamentais que você realizaria?

A resposta não é simples, porque criar e difundir uma "cultura da partilha" realmente funcional à realização de uma cidadania ativa e partícipe (não apenas) põe em causa diversos aspectos, níveis problemáticos e planos de discurso: econômico, jurídico, político, social, cultural. Remetendo você a outras ocasiões de debate e de aprofundamento das questões aqui discutidas, atenho-me às suas indicações, propondo algumas possíveis "iniciativas" que poderiam contribuir para desencadear, talvez acelerar, dinâmicas em parte já em curso. Primeiro, porém, uma breve premissa sobre o meu modo de entender – e de analisar – a comunicação, que é processo social de partilha do conhecimento (poder), em que estão envolvidos "atores", pessoas de carne e osso: e, considerando fundamentada a equação conhecimento = poder, segue-se daí que todos os processos, as dinâmicas e os instrumentos voltados à partilha do conhecimento só poderão determinar uma partilha do poder ou, pelo menos, uma reconfiguração dos sistemas de poder e das hierarquias dentro das organizações.

No entanto, é preciso ressaltar, mais uma vez, que uma cidadania realmente ativa e partícipe do bem comum não se realiza apenas com cidadãos "conectados", "internautas" especialistas, capazes de acessar as informações disponíveis online. Não é uma questão somente de competências técnicas e/ou digitais. Um sistema político que pretenda ser realmente democrático precisa de cidadãos informados e criticamente formados, e de uma esfera pública que saiba reconquistar uma autonomia própria em relação à política. Ao mesmo tempo, apenas para falar de uma "cultura da partilha", é preciso superar aquele que representa uma espécie de "lugar comum", profundamente enraizado, que diz respeito, de modo particular, às organizações: a complexidade organizacional (e social) deve ser gerida, em primeiro lugar, prestando atenção ao fator jurídico e, depois, ao tecnológico. O fator cultural, organizacional, a qualidade das relações, a comunicação (processo, partilha de conhecimento e competências, ambiente, clima organizacional etc.) são considerados níveis e planos problemáticos menos importantes, secundários e, em todo o caso, sucessivos na estratégia geral. Feita essa premissa, chego aos pontos:

  1. promoção de programas formativos voltados a eliminar a lacuna entre o perfil do cidadão "real" e o "ideal";
  2. promoção de programas formativos voltados a reduzir/eliminar o digital divide e o cultural divide (subestimado) dentro das administrações públicas; investir na formação dirigida e qualificação dos funcionários públicos.
  3. investir na formação e qualificação do corpo docente das escolas;
  4. investir (concretamente e invertendo a tendência dos últimos anos) em pesquisa e universidade, redefinindo todo o sistema de avaliação do ensino e da pesquisa;
  5. promover o uso de plataformas colaborativas e a adoção de softwares open-source;
  6. promover projetos de social-networking.

Um elemento-chave da sua reflexão diz respeito ao tema ético centrado na questão da responsabilidade individual. "O renascimento do interesse pela ética está ligado ao surgimento de novas problemáticas nunca enfrentadas anteriormente, justamente por estarem ligadas ao advento da modernidade complexa, fundamentada em um capitalismo industrial em rápida evolução rumo a uma economia cada vez mais interconectada e baseada em processos de abertura que escapam das tradicionais lógica de controlo e vigilância (...) requer uma atenta revisitação crítica das regras da ética tradicional e, se possível, uma reformulação delas de forma mais atual, especialmente porque finalmente parece ter se afirmado um novo conceito de subjetividade responsável, baseado em uma maior autonomia individual e em espaços de liberdade mais amplos." Você pode tentar explicar melhor em que consiste esse "novo conceito"?

De fato, a extraordinária potencialização das modalidades comunicativas e a radical diferenciação dos canais da oferta formativa (policentrismo formativo) resultaram em uma crescente capacidade de autodeterminação por parte do Sujeito (para alguns, trata-se de uma conquista, para outros, de um risco destinado a enfraquecer o laço social), mais autônomo e independente nas escolhas, nas avaliações, nos juízos de valor, na adoção de modelos de comportamento e de esquemas cognitivos. O que é abalado no seu conjunto é também o sistema simbólico compartilhado junto com o (medium) linguagem que tenta descrever e representar mais essa mudança. Mas também estão modificando rapidamente as modalidades pelas quais nós conhecemos a realidade, arquivamos e elaboramos informações. Para todos esses níveis de análise, uma maior autonomia significa, concretamente, mais responsabilidade nas escolhas, não apenas comunicativas.

Liberdade e responsabilidades, como se sabe, são conceitos relacionais, que implicam a presença e o confronto com o Outro (comunicação – reciprocidade) e, consequentemente, a necessidade, mais, a relevância estratégica dos processos de partilha (questão sempre muito presente nos trabalhos e nas pesquisas realizadas nesses anos) que, inevitavelmente, definem as condições para colocar novamente no centro a Pessoa e a qualidade das relações, também e sobretudo, dentro das organizações. O que também está em jogo é aquela passagem do castelo à rede (Butera), que, no entanto, requer uma profunda mudança cultural (de longo prazo), também fora dos sistemas organizacionais. Em outras palavras, o fator "cultura" e o fator humano – na minha opinião – são absolutamente decisivos e, muitas vezes, subestimados... Podem obstaculizar ou, ao contrário, agilizar a mudança organizacional e sistêmica.

Ao mesmo tempo, ainda muito fraca e pouco difundida é a consciência de que as mudanças profundas, as que deixam vestígios, sempre ocorrem a longo prazo e são de tipo "cultural". A tecnologia certamente contribui para acelerá-las, mas, como eu repito frequentemente, a inovação tecnológica sem cultura é sempre uma oportunidade para poucos, uma mudança parcial e limitada.

No seu trabalho, como nos anteriores, você insiste na mutação antropológica estreitamente ligada às mudanças decorrentes da difusão dos novos instrumentos de comunicação. Quais são as características dessa mutação e quais são as suas consequências? É possível traçar um paralelo com o conceito, caro ao Humanistic Management, de "identidade múltipla" (comum, no entanto, a muitos sociólogos, começando por Bauman)?

Absolutamente sim. Um conceito de transformação antropológica que lembra o de novas subjetividade, e que eu encontrei plenamente e muito bem explicado, mesmo que em outros termos, na definição e análises das variáveis e das características relacionadas com a social organization. Na minha análise, eu parto deste pressuposto fundamental: hoje, como nunca antes no passado, a tecnologia começou a fazer parte da síntese de novos valores e de novos critérios de juízo (1996), pondo em discussão os processos de socialização e os de construção social das identidades. Os atores sociais encontram-se diante da possibilidade de operar um irreversível salto de qualidade (digital divide, alfabetização, cultural divide e competências...), que, por enquanto, diz respeito – como documentado por muitas pesquisas e estudos – a elites e a grupos de poder restritos.

No meu último livro eu defendo que o conceito de inteligência colaborativa se presta particularmente bem para descrever a essência do trabalho colaborativo nas organizações e pode contribuir para a superação/integração de conceitos já abusados como inteligência coletiva (vejam-se P. Lévy, L’intelligence collective. Pour une anthropologie du cyberspace, Paris, La Découverte, 1994; P. Lévy, Collective Intelligence: Mankind’s Emerging World in Cyberspace, New York, Plenum Presse, 1997) e inteligência conectiva (com a qual De Kerckhove adaptou a definição de Levy ao contexto tecnológico das redes, visando à conexão das inteligências como abordagem e encontro sinérgico dos indivíduos para alcançar um objetivo). A abordagem centrada no conceito de inteligência colaborativa nas ciências sociais valoriza a experiência e a especificidade individual. Na perspectiva da inteligência colaborativa, as prioridades potencialmente conflitantes dos sujeitos interessados e o entrelaçamento de interpretações diferentes dos fenômenos decorrentes de abordagens disciplinares diferentes ("metadisciplinaridade" na linguagem do humanistic management) são fundamentais para a solução dos problemas. Eu acrescentaria ainda que o conceito de inteligência colaborativa, na acepção proposta no livro, engloba também o golemaniano de inteligência emotiva, dada a fundamental importância da empatia. Qual é a sua opinião sobre isso?

Li com interesse o seu livro e devo reiterar, mais uma vez, as muitas "afinidades" e os inúmeros pontos de convergência seja em termos de categorias conceituais adotadas, seja em termos de abordagem a uma complexidade cada vez mais imprevisível e incerta (uma convergência detectada não apenas no que diz respeito ao conceito de "inteligência colaborativa"... em todos os meus trabalhos, além disso, sempre falei de comunicação como processo de partilha funcional à gestão da imprevisibilidade e à mediação dos conflitos, de economia da partilha, de relevância estratégica do "saber compartilhado", 2003).

Uma realidade tão complexa – constituída por infinitas possibilidades cognoscitivas nem sempre selecionáveis e realizáveis – que requer uma abordagem multidisciplinar para a complexidade (desculpem-me pela repetição) e uma capacidade de observar e compreender os fenômenos sociais e organizacionais em uma perspectiva que não pode não ser sistêmica. Mas também uma capacidade de ir além das tradicionais lógicas de controle e vigilância estendidas a todos os campos do saber (um saber cada vez mais fragmentado) e da práxis, em virtude das relações de poder, hierarquias e estruturas ainda consolidadas. A tecnologia não pode desmantelá-las sozinha. Sempre contarão o fator humano e as culturas organizacionais hegemônicas.

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