Papa manda instalar chuveiros para os sem-teto debaixo da colunata de São Pedro

Revista ihu on-line

SUS por um fio. De sistema público e universal de saúde a simples negócio

Edição: 491

Leia mais

A volta do fascismo e a intolerância como fundamento político

Edição: 490

Leia mais

Maria de Magdala. Apóstola dos Apóstolos

Edição: 489

Leia mais

Mais Lidos

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

14 Novembro 2014

"Padre, eu não posso ir com você ao restaurante, porque eu estou fedendo..." Franco é um sem-teto natural da Sardenha, com a barba seca e cinza, e a pele danificada pelo sol. Foi ele que, nos primeiros dias de outubro, explicou ao bispo que o convidava para jantar, para comemorar o seu aniversário, qual é a maior necessidade para os desabrigados de Roma: "Aqui, ninguém morre de fome, sempre se consegue um sanduíche todos os dias. Mas não há lugares para ir ao banheiro e para se lavar".

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no jornal La Stampa, 13-11-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Aquele bispo é Konrad Krajewski, o esmoleiro do Papa Francisco.

A mensagem é imediatamente implementada: na segunda-feira, 17 de novembro, começarão os trabalhos para instalar três chuveiros dentro dos banheiros para os peregrinos que se encontram debaixo da colunata de São Pedro.

Serão dedicados aos sem-teto que perambulam nos arredores da basílica. Eles poderão se lavar e trocar a sua roupa debaixo das janelas do Palácio Apostólico. E, a convite do esmoleiro do papa, uma dezena de paróquias romanas nos bairros mais frequentados pelos sem-teto já instalaram chuveiros para colocar à sua disposição.

Dom Krajewski, conhecido por todos como "Padre Corrado", há anos leva ajudas e alimentos aos que vivem acampados pelas ruas. O Papa Francisco o escolheu justamente para isso, nomeando-o bispo e confiando-lhe a Esmolaria: ele tem a tarefa de ser a sua "pronta-intervenção", de levar pequenas ajudas financeiras a quem está em dificuldades.

Assim, o prelado polonês conta aquele encontro do início de outubro, que lhe abriu os olhos. "Eu tinha acabado de sair da igreja do Santo Spirito, onde vou confessar. Na Via della Conciliazione, encontrei Franco, um sem-teto. Ele me disse que, justamente naquele dia, ele estava completando 50 anos e que há dez vive na rua".

O bispo o convidou para jantar no restaurante. Ele ouviu como resposta: "Mas... eu fedo". "Eu o levei mesmo assim comigo. Fomos comer comida chinesa. Enquanto estávamos à mesa, ele me explicou que, em Roma, sempre se encontra algo para comer. O que falta são lugares para se lavar".

Na capital, existem os refeitórios da Cáritas, há o refeitório da Comunidade de Santo Egídio, mas também há muitas iniciativas das paróquias. Aqueles que vivem na rua sabem para onde ir. Há também lugares onde é possível tomar um banho.

A Comunidade de Santo Egídio, na vanguarda da ajuda das pessoas que vivem na rua, publicou um manual atualizado, intitulado "Onde comer, dormir, lavar-se". "Mas sempre tem muita gente – explicou Franco – e, além disso, há pouco tempo à disposição. Por isso, eu prefiro guardar algum dinheiro e reservar de vez em quando uma cabine de banho na estação Termini".

O esmoleiro do papa, que até aquele momento sempre tinha considerado as refeições como a necessidade básica dos sem-teto, não perdeu tempo. Ele está acostumado a agir rápido, sem fazer grandes projetos, sem organizar coletas de fundos que levam meses.

"No Evangelho, Jesus sempre usa a palavra 'hoje'... E é hoje que devemos de responder à necessidade." Assim, ele decidiu visitar uma dezena de paróquias romanas, em cujo território param muitos desabrigados. Ele entrou nas instalações paroquiais. Se já não existem, ele pediu para serem instalados chuveiros, pagos com a caridade do papa.

Não se trata de projetos caros, não devem se tornar grandes centros de agregação. Ao contrário, um serviço capilar, destinado às pessoas do bairro, em uma cidade onde os banheiros públicos estão fechados, e os sem-teto não podem entrar nos bares para ir ao banheiro.

"Não é simples – explica Dom Krajewski –, porque é mais fácil preparar sanduíches do que gerir um serviço de chuveiros. São necessários voluntários, toalhas, roupas."

Aos párocos, o "Padre Corrado" diz: "O Santo Padre paga!". E a Providência não deixa de se fazer sentir. Andrea Bocelli, com a sua fundação, entregou um cheque consistente. Um senador do Norte envolveu uma empresa que doou os trabalhos para instalar os chuveiros nas paróquias que não os têm.

O Vaticano também faz a sua parte. Há algum tempo, o Governatorato estava planejando reformar os banheiros para os peregrinos que se encontram debaixo da colunata, a poucas dezenas de metros do Portão de Bronze, à direita de quem olha para a basílica.

As exigências expressadas por Franco, o desabrigado de 50 anos com dez anos de vida nas ruas e tantos companheiros que morreram de frio, fizeram com que se estudasse com toda a pressa uma alternativa significativa para o projeto, com a bênção de Francisco.

Três chuveiros para os sem-teto debaixo da imponente colunata de Bernini, um dos mais lugares bonitos e mais visitados do mundo.

"A basílica existe porque o Corpo de Cristo a mantém – observa Krajewski ao repórter que lhe pergunta se alguns turistas poderiam torcer o nariz –, e, nos pobres, nós servimos o corpo sofredor de Jesus. Desde sempre, na história de Roma, ao redor das basílicas, reuniam-se os pobres."

Nos chuveiros à sombra da Cúpula, como naqueles das várias paróquias da capital, não haverá sinais externos. O serviço é pensado e dedicado àqueles que já vivem na área, para descongestionar os grandes centros de assistência.

O esmoleiro do papa está tentando envolver os alunos de uma escola para cabeleireiros, para que possam oferecer, de vez em quando, além do chuveiro, também o corte dos cabelos. Poder se lavar e manter-se arrumado tornará os desabrigados – na verdade, os "peregrinos sem teto", como o "Padre Corrado" os chama – menos vulneráveis às doenças que são transmitidas com a sujeira.

Começando por Franco, que, naquela tarde de um dia ensolarado de outubro, tinha vergonha de ser convidado para jantar no restaurante.