"Polícia morre e mata muito. Temos que mudar", diz comandante interino da PM

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14 Novembro 2014

Se não fossem o distintivo e o uniforme, ninguém diria que Ibis Silva é policial há 31 anos, ainda mais comandante da Polícia Militar. Com os seus poucos mais de 1,60 metro de altura e corpo franzino, o coronel com pose de intelectual cita Guimarães Rosa, o escritor russo Dostoiévski e a filósofa alemã Hannah Arendt quando fala sobre como vai comandar a tropa até a posse do coronel Alberto Pinheiro Neto, no dia 2 de janeiro, que se recupera de uma cirurgia. Mesmo com pouco tempo de gestão, Ibis tem planos grandes, como aumentar a punição de policiais corruptos.

A entrevista é de Constança Rezende, publicada pelo jornal O Dia, 10-11-2014.

Entre os casos que o novo comandante promete observar está o caso da Máfia da Saúde, em que O DIA denunciou fraudes em compras do Hospital Central da Polícia Militar. Esta entrevista exclusiva foi feita depois de uma inspeção na unidade, no sábado, dia em que Ibis trocou o comando de 11 unidades, inclusive na corregedoria na PM. Segundo o comandante, outras mudanças estratégicas serão feitas esta semana.

Eis a entrevista.

Quais as condições do hospital da PM?

Estão bem precárias. Estão faltando investimento, higiene, manutenção, principalmente nos elevadores e nos aparelhos de ar-condicionado. Vamos corrigir isso. Mas me impressionou muito a dedicação dos profissionais da saúde. Se não fosse isso, a situação estaria pior, já teria entrado em colapso. 

E em relação às denúncias de corrupção em hospitais da Polícia Militar?

Temos inquéritos instaurados. Não conheço todo o teor dos processos, o que está sendo apurado, apenas sei das denúncias de um modo geral. A gente chama isso de corrupção porque não encontra um termo mais terrível sobre desviar da saúde, que é colocar em risco a vida de policiais. Esse hospital é mantido pelo dinheiro deles próprios. É um ato repugnante. Não tenho dúvidas de que as pessoas responsáveis serão identificadas e presas. Com o Ministério Público à frente, isso não vai acabar em pizza.

Como avalia a corrupção policial?

Corrupção gera descrédito. Quando a polícia se envolve em corrupção, sua imagem fica diretamente comprometida e, consequentemente, o seu trabalho também. As pessoas passam a não confiar mais na polícia e não a procuram mais para denunciar os crimes dos quais são vítimas. Quando isso acontece, não temos capacidade de planejar. A corrupção é lesiva.

O que pode ser feito para combatê-la?

Uma reforma estrutural. As pessoas se corrompem por conta dos valores e da oportunidade. Veem facilidade nas coisas e acham que podem aproveitar. A primeira coisa a se fazer é sinalizar que não se tolera isso e que quem insistir em se envolver com corrupção será responsabilizado criminalmente. As pessoas têm que entender que não existe brecha para roubar, e que há uma estrutura para investigar.

"Prender um policial porque não corta o cabelo e não punir o corrupto é anacronismo"

Como fazer isso?

Revendo a legislação. Os regulamentos que estruturam a polícia, e sem os quais não se pode prender ninguém, são anteriores à Constituição Federal, que é voltada para o Estado de Direito Democrático. A nossa, que é da época da ditadura militar, tem que estar adaptada a isso. Como é hoje uma grande colcha de retalhos, cheia de emendas, é uma legislação onde é possível provocar lentidão nos processos. Um bom dispositivo tem que ser rápido. Uma pessoa não pode levar sete anos para ser excluída de uma corporação, e depois a sua história é de abandono. Só se resgata isso com diálogo. Não se faz polícia de cima para baixo. A gente tem que dizer que corrupção não vale a pena. Colocar um policial na prisão porque não corta o cabelo e não punir o corrupto é um anacronismo.

Quando a legislação poderá ser mudada?

Isso não é uma coisa que vamos conseguir de um dia para o outro. Temos que apresentar o projeto ao Poder Executivo e discutir na Assembleia Legislativa. Mas já estamos costurando isso. Não quero chegar para o secretário de Segurança e dizer: olha, isso aqui é uma legislação que eu e meia dúzia de coronéis pensamos. Quero dizer que a gente discutiu com as associações, soldados, sargentos e que o projeto é um consenso. Meu desafio como comandante interino e futuro chefe de gabinete de coronel Pinheiro Neto é conseguir resolver o que só depende de mim.

As UPPs estão incluídas nisso?

A Secretaria de Segurança está empenhada em mapear todas as unidades de polícia pacificadora para conhecer as especificidades de cada uma. A gente precisa conversar com as pessoas, ouvir as críticas que elas têm sobre o programa. A lógica desse policiamento exige a construção de um diálogo com as comunidades e o resultado disso passa pelo que a sociedade quer. O nosso maior desafio é a Maré. São 16 comunidades, tem milícia. Mas é uma comunidade politizada, e isso é o melhor da Maré, o nosso maior trunfo. Quando as pessoas são conscientes de seus direitos e obrigações, cobram e sabem de quem cobrar. Está mobilizada e isso já facilita o diálogo. Temos interlocutores lá. Sem críticas, nós não evoluímos.

Muitas das queixas dos moradores envolvem o tratamento de alguns policiais e a corrupção. O que pode ser feito?

Uma mudança na estrutura da nossa corregedoria. Ela tem que estar na rua, investigando e fiscalizando a conduta dos policiais, indo aos batalhões, às unidades. Hoje ela trabalha muito dentro da lógica do papel, solucionando processos, sindicâncias. Podemos fazer isso sem mexer no efetivo, pela tecnologia, interligarmos as corregedorias, apesar de termos dificuldade com a nossa internet, por incrível que pareça. Como podemos falar de inteligência com internet ruim em pleno 2014?

O governador reeleito Luiz Fernando Pezão costuma dizer que hoje temos uma polícia formada para a guerra. O senhor concorda?

Sim, e por isso a palavra de ordem é humanização. O que acontece quando a lógica é a guerra? Se desumaniza, os marcos morais sofrem abalo, e já não se sabe o que é certo e errado. Quem despreza a vida não está preocupado com a corrupção. Enfrentamos as drogas invadindo favela, tentando prender traficante, trocando tiros. Imagina o que passa na cabeça de um garoto de 25 anos que deve entrar num caveirão de madrugada? Vai se transformar num bruto, numa máquina de matar e morrer e, quando isso acontece, está a um passo da corrupção. Se ele não respeita a vida, não respeita mais nada. O grande mérito das UPPs é que ela opera com outra lógica.

Isso passa por diminuir os elevados índices de auto de resistência dos policiais?

Sim. A polícia tem que garantir a dignidade humana e isso não combina com auto de resistência elevado. Hoje a polícia mata cinco pessoas por dia no país. Ela morre e mata muito. É um ciclo perverso de brutalidade. Temos que mudar isso. A violência está comprometendo o futuro. Cerca de 70% dos homicídios são de jovens negros, pobres e moradores de periferia. Isso é barbárie.

Como mudar?

Podemos começar cuidando do nosso efetivo, tornando as academias mais humanas, melhorando as escalas. Trabalho policial é afetivo, com a redução do medo da sociedade. Por isso que a arte e a poesia amenizam isso.

O senhor usa a literatura para lidar com policiais?

Sim. Meu escritor favorito é Guimarães Rosa. Em ‘Grande Sertão: Veredas’, o personagem Riobaldo diz que comandante é para aliviar os aflitos. A gente precisa aliviar a alma dos nossos comandados, filosofia também de Dostoiévski.

Qual será seu principal desafio?

Conseguir mapear todas as medidas que a gente precisa tomar imediatamente. Já identifiquei os problemas, agora tenho que fazer o panorama operacional. É o que São João Batista fez com Jesus, pacificar o caminho para o Salvador. O meu papel é ser uma espécie de João Batista para o Pinheiro.

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