No ventre de um paradoxo: a vida de Thomas Merton

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04 Novembro 2014

Monge trapista, eremita e conselheiro dos grandes papas do século XX. Se alguém tivesse que descrever a vida de Thomas Merton, teria que desenhar uma linha que segue caminhos surpreendentes.

A reportagem é de Emanuele D'Onofrio, publicada no sítio Aleteia, 22-10-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele mesmo descreve a sua parábola existencial deste modo: "Eu sinto que a minha vida, de modo particular, está selada com o grande sinal que o batismo, a profissão monástica e a ordenação imprimiram a fogo nas raízes do meu ser, já que, como Jonas, eu também me encontro viajando rumo ao meu destino no ventre de um paradoxo".

Escritor e poeta, ele foi principalmente inimigo da guerra, uma posição que o levou a olhar com simpatia e atenção também para as sensibilidades e para as expressões religiosas da Ásia, bastante propensas ao tema da paz.

Mas ele permaneceu profundamente monge, embora buscando dentro da regra os espaços que podiam garantir liberdade à sua expressão e ao seu pensamento. De fato, Thomas Merton. Il sapore della libertà (Paoline, 2014) é o título desta biografia, rica em muitos textos de Merton e de uma atenta e rica bibliografia do monge, recém-publicada e escrita por Antonio Montanari, Maurício Renzini e o padre Mario Zaninelli.

O sítio Aleteia entrevistou o padre Zaninelli, que é um dos fundadores e atual coordenador científico da Associação Thomas Merton Itália.

Eis o texto.

Como nasceu esse trabalho?

Nós pensamos em realizar uma biografia escrita por italianos. Até agora, todas as biografias eram traduzidas do inglês, então pensamos em dar este livro nas mãos do público italiano pensando como italianos. O seu verdadeiro valor é o de fazer os textos de Merton falarem, coletados e selecionados depois de dois anos de pesquisas realizadas em nível mundial. Queremos dar a conhecer esse monge, escritor e poeta ao público italiano. Por muitos anos, os seus livros estiveram presentes na Itália, depois desapareceram de cena, e, como em 2015 ocorre o aniversário do seu nascimento, permitimo-nos propor este livro às Paulinas italianas. Felizmente, elas aceitaram a ideia.

Qual é o aspecto mais marcante do personagem Merton?

Merton tem um nascimento europeu: ele nasceu na França de pais de línguas inglesa, norte-americanos e neozelandeses. O seu percurso é de busca contínua, que tende à liberdade e à espiritualidade. Ele não nasceu cristão, converteu-se ao conhecer na Itália os mosaicos que encontramos em várias basílicas, especialmente em Roma, onde ele ficou, e é assim que começa o seu caminho de busca. A sua conversão nasce do estudo da literatura e do entrar em si mesmo, das perguntas sobre o sentido da vida.

A partir daí, ele entra no mosteiro, onde percebe que a realidade principal é a do diálogo, da escuta, da acolhida, do entrar nas profundezas da espiritualidade e na questão sobre o que Deus realmente quer de cada um de nós. É Deus que nos leva por esses pensamentos e por esse caminho: se você quiser percorrê-lo com Ele ao seu lado, então realmente você redescobre quem é e qual é o seu significado dentro desse quebra-cabeça do "mundo". Merton emerge como uma pessoa capaz de dar a entender que a oração e a espiritualidade são para todos e pode, ajudar a desenvolver o percurso humano, através da crise de cada pessoa.

Também se fala de uma decepção decorrente da experiência monástica, é verdade?

É preciso fazer uma premissa: Merton entra em uma situação de conversão graças ao encontro com alguns professores. Depois, ele se apaixona por essa experiência monástica. Os seus diários – e eu espero encontrar uma editora que queira traduzi-los na íntegra – nos falam de uma experiência monástica típica, por muitos anos. Depois, diante de um pedido dele de se tornar monge também para o lado de fora, ele é silenciado. Dizem-lhe: "Você não pode escrever sobre a guerra". Eram os anos da Guerra Fria, do Vietnã, e ele toma uma posição dura, difícil de sustentar para um monge.

Aqui, entra em cena, um pouco, a decepção: "Mas como, ele se pergunta, este mundo monástico que sempre me ajudou na busca agora me silencia?". Mas é uma decepção que dura pouco. Ele iria para Bangkok, onde, infelizmente, morreria, e lá recuperaria o desejo de permanecer no monaquismo, dizendo-se: "Este é o meu papel, o Senhor me chamou para ser monge, e sou eu que tenho que entender como me relacionar com o meu mosteiro". Depois, ele optaria por ser eremita, no mosteiro de Getsêmani – que eu visitei para falar com os monges que o conheceram – e assim voltaria cada vez mais à oração e ao recolhimento. Mas não renunciaria a dizer o que pensa, sempre da maneira mais oportuno.

O que permanece na Igreja de hoje do "pioneiro do ecumenismo"?

Digo isto: Merton foi consultado por João XXIII para a Pacem in Terris, e prova disso é o fato de que o papa lhe presenteou uma estola sua, que ainda é conservada. Merton, depois, por 20 anos, manteve uma correspondência com Paulo VI: sobre isso, eu escrevi um artigo que relata as correspondências entre os dois quando Montini ainda era secretário de Estado, depois quando se tornou cardeal em Milão e, por fim, quando foi eleito papa. Merton, provavelmente, também foi consultado para a Gaudium et Spes, para o capítulo sobre a paz.

Ele é seguramente o homem do ecumenismo, aquele que fala dos mosaicos e da experiência monástica com o Oriente, e do diálogo inter-religioso: em 1961, ele se encontrou com Suzuki, um dos responsáveis pelo Zen Budismo, depois encontrou o Dalai Lama quando jovem, que sempre se lembra dele com grande afeto. Esse seu impulso rumo ao Oriente não significava se esquecer do monaquismo ocidental. Longe disso, era dar um novo fôlego para o monaquismo e para a Igreja. Merton trabalhou muito também dentro da reforma monástica, para entrar em contato com o ecumenismo, e Paulo VI reconheceu-lhe essa capacidade.

Infelizmente, ele morreu cedo, e a sua obra permaneceu incompleta. Propusemo-nos uma tarefa como associação: fazer de tudo para que, até o fim de 2015, a figura de Merton possa ser reavaliada dentro da Igreja como um homem ecumênico e do diálogo inter-religioso, como homem de oração e de sugestões espirituais úteis para quem quiser se aproximar de uma busca espiritual séria e também bela, dada a qualidade de muitos dos seus passos.

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