Teilhard de Chardin e o ''Fenômeno humano'' hoje

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04 Novembro 2014

Os conhecimentos científicos posteriores aos anos 1940 confirmaram e aumentaram o valor da obra O fenômeno humano, do Pe. Pierre Teilhard de Chardin, SJ, particularmente em relação às temáticas fundamentais da "complexidade" e da "noosfera".

A análise é de Fabio Mantovani, autor do Dizionario delle opere di Teilhard de Chardin, em artigo publicado no blog Teologi@Internet, da Editora Queriniana, 24-10-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Está agora nas livrarias, em uma veste gráfica renovado, a sexta edição do livro do Pe. Pierre Teilhard de Chardin, SJO fenômeno humano, publicado pela Queriniana em 1995. Por isso, novos leitores se aproximarão dessa célebre, mas desafiadora, obra, sobre alguns aspectos da qual gostaríamos de chamar a atenção com as considerações que se seguem.

O fenômeno humano não é um tratado científico, como a primeira e inexata edição inglesa deu a entender, infelizmente, nem um ensaio teológico, mas é uma representação dos fenômenos evolutivos interpretados em um quadro unitário dotado de sentido, é uma grande síntese do devir universal.

Os conhecimentos científicos posteriores aos anos 1940 confirmaram e aumentaram o seu valor, que parece ser muito atual, particularmente em relação às temáticas fundamentais da "complexidade" e da "noosfera".

A "complexidade", ao menos até os anos 1980, era normalmente entendida como uma característica de todas as estruturas complicadas, enquanto Teilhard a utiliza com um significado muito particular [1]. Portanto, é oportuno que os leitores se detenham na sua definição (nota 1 na p. 56), para entender corretamente o importante fenômeno de complexificação da matéria.

Em suma, são definidas como complexas aquelas estruturas (mônadas ou centros de consciência) que contêm em si mesmas um número fixo de elementos, "n", ligados por incessantes interações, como no átomo e na célula viva.

De cada estrutura complexa, surgem propriedades que os componentes individuais, por si só, não têm, como na molécula de água, em que o hidrogênio e o oxigênio são individualmente apenas gases.

Para "ver" como Teilhard se esforça para nos fazer ver (p. 27), basta voltar e manter o olhar no mesmo sentido em que a matéria se complexifica, a partir das estruturações dos átomos e das moléculas até as organizações de bilhões de células nos sistemas vivos.

Como essa tendência da matéria a se complexificar é contínua, apesar de ser combatida pelo aumento da entropia no universo, Teilhard de Chardin considera que, desde as origens do mundo, opera um Atrator (o "Ponto Ômega") "já sumamente presente" (p. 251-252) e capaz de fazer com que as coisas se façam.

Há quem tenha captado na ação extratemporal do "Ponto Ômega" uma prova da existência de Deus [2], da qual, porém, Teilhard de Chardin não se valeu. Ao contrário, é nos escritos de caráter teológico que ele, baseando-se na Sagrada Escritura, proclama a coincidência do "Ponto Ômega" com o Cristo da Parusia [3].

A sua descoberta de uma ininterrupta corrente de complexificação, do Big Bang em diante, mostra que a evolução está orientada em sentido construtivo, apesar de uma série de passagens altamente problemáticas [4].

A complexificação é muito evidente e reconhecida no âmbito da matéria orgânica, mas a sua continuidade com a gênese anterior da matéria inorgânica ainda é pouco percebida. Além disso, ninguém põe em dúvida que "combinando as evoluções nuclear, química e biológica, hoje podemos reconstruir a odisseia do universo" [5].

E os mais atentos continuam espantados ao tomar consciência das relações existentes entre a molécula do DNA, na sua completude, e os átomos individuais que dela fazem parte – hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, carbono e fósforo –, cujas propriedades de se unificar, para finalidades coletivas mais elevadas, já deviam estar presentes no coração das estrelas!

Em relação às teorias sobre a evolução, Teilhard de Chardin admite a função do "caso" ("É o lugar de Deus no governo do mundo") [6], a emergência do mais apto e a seleção natural ("Contanto que não seja considerada como conclusão ideal ou como explicação última") [7], mas também considera que o processo de avanço evolutivo se desenvolve através de uma "busca às apalpadelas" em que a casualidade e o jogo dos grandes números geram uma orientação canalizada para objetivos não previsíveis a priori.

A sua abordagem aos mecanismos evolutivo, holístico e sistêmico, portanto, é bem diferente tanto do rigidamente determinista, quanto do baseado inteiramente na casualidade. A sua amplitude de visão levou-o a criar, nos anos 1940, em Pequim, o Instituto de Geobiologia, a fim de estudar os mecanismos evolutivos no contexto da Biosfera, mais precisamente no âmbito continental. Foi uma iniciativa clarividente, que abriu "novas perspectivas para a teoria da evolução" [8].

Um segundo aspecto, que permaneceu na sombra ou foi colocado em uma dimensão de futuro, diz respeito à Noosfera. É preciso se perguntar, de fato, até que ponto, há 70 anos, podiam parecer realistas estas frases: "... cada indivíduo já se encontra (ativa e passivamente) presente ao mesmo tempo em todos os mares e os continentes – coextensivo à Terra.... Um grande corpo está nascendo – com os seus membros, o seu sistema nervoso, os seus centros de percepção, a sua memória..." (p. 224 e 229).

A ideia de que a complexificação das relações sociais geraria uma espécie de cérebro coletivo tinha até brilhado na sua mente nas trincheiras em 1917, imaginando à noite a Lua cheia simbolizava a futura humanidade, unida e coesa, como uma grande mônada complexificada [9].

O neologismo Noosfera, que depois teve tanta, apareceu pela primeira vez em um texto seu de 1925, mas foi somente com o advento da internet que um desenvolvimento de bilhões de interconexões "cerebrais" foi se formando visivelmente diante dos nossos olhos ao redor do globo terrestre.

A futuro convergência da Noosfera no Ponto Ômega, porém, depende da qualidade das relações, da difusão do amor, da cristificação da sociedade humana. É preciso "... que o próprio mundo se torne hóstia viva, se torne liturgia. É a grande visão que, depois, Teilhard de Chardin também teve: no fim, teremos uma verdadeira liturgia cósmica", disse Bento XVI na homilia do dia 24 de julho de 2009 [10].

Se Cristo ocupa o centro de um Mundo que se unifica (p. 276), "então a Cristogênese de São Paulo e de São João é exatamente o prolongamento, ao mesmo tempo esperado e inesperado, da Noogênese... O Cristo se envolve organicamente da própria majestade da Sua criação".

Essas afirmações encontram-se no Epílogo da obra, poucas páginas dedicadas ao Fenômeno cristão, que Teilhard de Chardin oferece à atenção de todos "não crente como convicto", mas "como naturalista que pede para ser ouvido" (p. 272), já que pretende permanecer no plano da análise objetiva, rigorosamente respeitado em toda a abordagem anterior.

Assim, podem-se expressar duas avaliações principais sobre O fenômeno humano:

1) ele é destinado a pessoas de todas as fés, mas também ateias e agnósticas;

2) ele revela apenas uma parte da visão de Teilhard, a científico-filosófica.

A primeira avaliação encontra a sua confirmação no fato de que O fenômeno humano foi traduzido e publicado na União Soviética em 1965, com a única censura e supressão justamente das páginas relativas ao Fenômeno cristão [11].

A segunda avaliação justifica o convite aos novos leitores a conhecerem, possivelmente, também os escritos espirituais e teológicos do Pe. Pierre Teilhard de Chardin [12].

Notas:

1. Teilhard de Chardin antecipou em algumas décadas o conceito essencial de "complexidade", já que a "ciência da complexidade" nasceu por volta dos anos 1980 (cf. Morris Mitchell Waldrop, Complessità. Torino: INSTAR libri, 1995/1996, p. 134).

2. Bruno de Solages, in AA.VV., L’uomo davanti a Dio, Paoline, Cinisello Balsamo 1998, pp. 742-743. Battista Mondin, La prova dell’esistenza di Dio in Teilhard de Chardin, in Rivista di Filosofia neoscolastica, 1965.

3. Pierre Teilhard de Chardin. Science et Christ. Paris: Éd. du Seuil, 1965, p. 82.

4. John D. Barrow, Frank J. Tipler, Il Principio Antropico, Adelphi, Milano 2002.

5. Hubert Reeves. L’evoluzione cosmica. Milano: BUR, 1997, p. 12.

6. Pierre Teilhard de Chardin. «La fede che opera». In: La Vita cosmica. Milano: il Saggiatore, 1970, p. 413.

7. Pierre Teilhard de Chardin. Il fenomeno umano. Brescia: Queriniana, 1995, 6ª, p. 103.

8. Ludovico Galleni. Darwin, Teilhard de Chardin e gli altri... Pisa:  Felici Editore, 2010, p. 146.

9. Pierre Teilhard de Chardin. “La Grande monade”. In: Écrits du temps de la guerre. Paris: Éd. du Seuil, 1976.

10. Cfr. http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2009/index_it.htm

11. Cfr. http://psylib.org.ua/books/shard01/index.htm

12. Ao menos em L’ambiente divino (Queriniana, 1994) e La mia fede. Scritti teologici (Queriniana, 1993).

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