Os perigos do ecumenismo irresoluto com a Rússia

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04 Novembro 2014

Imaginem se o papa fosse convidado a falar num encontro de líderes protestantes e usasse este momento para atacar a minúscula igreja protestante waldense da Itália, queixando-se de que ela tenta converter os católicos e exigindo que esta se calasse sobre a separação da Igreja e o Estado.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicado pelo Crux, 01-11-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Imaginem se o papa fosse convidado a falar num encontro de líderes protestantes e usasse este momento para atacar a minúscula igreja protestante waldense da Itália, queixando-se de que ela tenta converter os católicos e exigindo que esta se calasse sobre a separação da Igreja e o Estado.

Os protestantes iriam imediatamente reagir dizendo o quão cruel e arrogante teria sido esta iniciativa do papa, o quão horrível fora tentar intimidar uma igreja menor e mais fraca e o quanto foi fora de hora, pois, afinal, o papa era um convidado.

O incidente tornar-se-ia um caso célebre, e o Vaticano iria se sentir mal até o momento em que fizesse um pedido de desculpas.

Então, por que a mesma reação não aconteceu quando o Metropolitano Hilarion, de Volokolamsk – chefe do departamento de Relações Exteriores da Igreja Ortodoxa Russa –, fez uso de uma fala no Sínodo dos Bispos deste ano para compor simplesmente um ataque gratuito contra a Igreja Grego-Católica Ucraniana?

Infelizmente, a melhor resposta é que, quando se trata dos russos, Roma há muito encontra-se fechado naquilo que poderíamos chamar de um “ecumenismo irresoluto”.

A Igreja Greco-Católica é uma importante força pró-democracia na Ucrânia. Ao falar no salão principal do Sínodo, no Vaticano, Hilarion exigiu que os greco-católicos parassem de se queixar sobre a política externa russa e que deixassem de protestar contra as incursões russas em seu país.

De forma surpreendente, não houve protesto algum por parte do Vaticano, nenhum pedido de desculpas, nem ameaça de suspender ou restringir o diálogo.

Por certo que nem todo mundo aceitou calado. O cardeal Timothy Dolan, de Nova York, participante do Sínodo, pegou Dom Sviatoslav Shevchuk, chefe da Igreja Grego-Ortodoxa, e imediatamente gravou uma entrevista para o seu programa de rádio protestando contra a retórica de Hilarion.

Mesmo assim, a resposta oficial do Vaticano foi um silêncio total.

Durante os últimos 50 anos aproximadamente, o catolicismo se comprometeu com o ecumenismo, ou seja, com os esforços de unificação da família cristã dividida. Os ortodoxos são uma prioridade especial, desde a separação entre o Ocidente e o Oriente em 1054.

Quase dois terços dos 225 milhões de cristãos ortodoxos são russos, o que explica por que Roma cuida tanto do diálogo com Moscou.

Ao longo dos anos, no entanto, este “diálogo” foi, às vezes, definido pelo Vaticano como uma deferência, ou seja, que ninguém chame a atenção dos líderes russo quando estes fizerem exigências descabidas, quando afirmarem algo que todos sabem ser falso ou exagerado ou quando atuarem como porta-voz do Kremlin.

Por exemplo, muitos líderes ortodoxos russos afirmam que a Igreja Católica não deveria se intrometer nos assuntos da Ucrânia porque este país faz parte do “território canônico” da Rússia, ou seja: o país pertence à Igreja Ortodoxa centrada em Moscou. É uma forma de monopolizar a expressão religiosa que desafia tanto a história quanto a liberdade religiosa.

Muitos cristãos ortodoxos também se queixam do “proselitismo” católico na Rússia, embora um estudo de 2002 descobriu ter havido apenas 800 conversões em toda a década de 1990. Enquanto isso, o cristianismo evangélico e pentecostal explodiu na Rússia, tanto que um livro de 2012 referiu-se a isto como a “corrida pelo ouro na era pós-soviética”.

Na década de 2000, num outro ato de apaziguamento, o Vaticano impôs uma política informal de “crescimento zero”, instruindo os seus pastores a falar a qualquer cidadão russo que quisesse se tornar católico a voltar para sua paróquia ortodoxa. Longe de se expandir, o catolicismo se encolheu, em parte porque muitos alemães e polacos abandonaram o país.

A ortodoxia russa vem vetando, de forma consistente e grosseira, viagens papais ao país. Isto faz de Moscou um dos poucos lugares, incluindo Pequim e Pyongyang, em que o papa não é bem-vindo.

No entanto, o Vaticano raramente apresenta alguma objeção. Pelo contrário, às vezes até reforça a postura russa.

Em 2007, por exemplo, Roma removeu Dom Tadeusz Kondrusiewicz, líder da comunidade católica em Moscou, porque ele era visto como alguém que gostava de um confronto. O embaixador do papa também fechou um jornal popular católico que não reproduzia, como um papagaio, a linha ortodoxa.

Pelo menos há alguns sinais de que este ecumenismo irresoluto esteja começando a ceder espaço.

Na esteira da fala de Hilarion contra os grego-católicos durante o Sínodo, o embaixador papal na Ucrânia, o arcebispo americano Thomas Gullickson, disse à jornalista Inés San Martín, do sítio Crux, que já basta: muitas vezes, disse Gullickson, “nós cedemos a certos tipos de comportamento inapropriado”.

“Se o meu melhor amigo começar a chutar a minha irmãzinha, dou-lhe um soco no nariz”, falou. “Temos permitido que o nosso vizinho espanque a nossa irmãzinha o tempo todo (...), e isso precisa acabar”.

Podemos até compreender por que motivo João Paulo II e Bento XVI não quiseram entrar em combate aqui, já que tanto a Polônia quanto a Alemanha, seus países de origem, tiveram um histórico conturbado com a Rússia. Francisco, argentino, não traz bagagem alguma neste sentido, então talvez ele possa levar o diálogo para além do nível atual, em que a questão é simplesmente ser educado, conduzindo-o a um nível mais substantivo.

Como parte desta iniciativa, Francisco poderia deixar claro que ser amigo não significa se curvar, quando o que o seu amigo precisa é de alguém que o salve de si mesmo. Com certeza os russos ortodoxos não se intimidam em apresentar objeções aos passos em falso da Igreja Católica. Talvez tenha chegado o momento de retornar o favor.

Francisco e a evolução

No começo desta semana, houve um frenesi depois dos comentários que o Papa Francisco fez sobre a ciência e a teoria da evolução.

Ao falar que Deus não balançou uma “varinha mágica” simplesmente mas sim permitiu que o universo se desdobrasse segundo suas próprias leis, o papa disse nesta segunda-feira (dia 27 de outubro) que “a evolução da natureza não está em conflito com a noção de criação, porque a evolução pressupõe a existência de criaturas que evoluem”.

Em alguns círculos, estas falas iniciais foram tomadas como um rompimento para com a tradição católica, o que, obviamente, não aconteceu.

Alguns comentadores já salientaram que, desde pelo menos a década da 1950, o ensinamento papal vem constantemente afirmando não haver conflito algum entre a evolução e a criação. Em 2007, por exemplo, Bento XVI chamou de “absurdo” considerar haver uma contradição aqui.

Dito isso, houve uma pequena confusão em 2005, quando o cardeal Christoph Schönborn, de Viena, Áustria, publicou um artigo de opinião no jornal The New York Times onde pareceu endossar a teoria do design [ou projeto] inteligente. Alguns se perguntaram se a Igreja Católica estava indo em direção a uma insistência fundamentalista ao ler a Bíblia literalmente, e portanto rejeitando os relatos científicos do desenvolvimento das espécies.

Schönborn, no entanto, rapidamente deixou claro que o que ele estava criticando não era a evolução como teoria científica, e sim o “evolucionismo”, quer dizer, a posição filosófica que não permite espaço para Deus na questão das origens do universo ou da vida.

Eis basicamente a posição católica padrão: Sim à evolução como uma forma de se explicar como as espécies mudam ao longo dos tempos, e não ao reforço da evolução como uma prova para o ateísmo.

Noutras palavras, o que Francisco disse segunda-feira não representou novidade alguma. Como então explicar o período de 24 horas no qual os seus comentários foram amplamente descritos como históricos?

Em primeiro lugar, quando se trata de enquadrar o que este papa faz, temos um problema. Francisco vem sendo caracterizado por meios de comunicação como sendo um alguém criativo e surpreendente, portanto, muito frequentemente, tudo o que ele diz ou faz é compreendido através deste filtro. Tudo dele tem que ser revolucionário, até mesmo quando está claro não se tratar de novidade alguma.

Em segundo lugar, temos um problema de contexto. Porque Francisco tem um forte apelo mesmo nos círculos seculares com pouco histórico em se tratando de religião, muitas pessoas estão prestando atenção a um papa, agora, pela primeira vez. Estas pessoas tendem a supor que as coisas estejam acontecendo pela primeira vez, sem se darem conta de como elas se enquadram no todo dos ensinamentos e da tradição católicos.

Eis uma omissão neste caso, dada a ocasião atual: a inauguração de um busto de bronze em homenagem a Bento XVI pela Pontifícia Academia das Ciências, evento feito exatamente para reconhecer as várias formas nas quais este pontífice apoiou e incentivou a pesquisa científica.

Num tributo ao seu predecessor, Francisco chamou Bento de “um grande papa”.

Francisco elogiou “a força e a qualidade penetrante de sua inteligência, a sua contribuição importante à teologia, o seu amor à Igreja e aos seres humanos, a sua virtude bem como o seu caráter religioso”.

“Longe de se dissipar com a passagem do tempo”, disse Francisco, o espírito de Bento XVI “vai parecer ainda maior e mais poderoso a cada geração que passar”.

Narrativa e contexto, no entanto, sempre são forças poderosas modelando como as pessoas compreendem o mundo. Consequentemente, provavelmente esta não será a última vez que se distorce o que este papa diz.

O ponto de partida quando se trata de comentar qualquer coisa que este Francisco faz, portanto, é “caveat emptor” – deixe o comprador ter cuidado.

Tentando classificar o papa

Dependendo do ponto de vista adotado, Francisco continua a ser ou uma figura enigmática que parece ir numa direção e, em seguida, troca para uma outra quase que aleatoriamente, ou um pensador original impossível de se classificar segundo as categorias ideológicas comuns.

Qualquer que seja o caso, é fato que, assim que pensamos termos descoberto quem ele é, a situação se modifica por completo, ao menos aparentemente.

Por exemplo, Inés San Martín, do sítio Crux, escreveu um artigo esta semana sobre dois discursos recentes feitos pelo papa que resultaram em impressões muito diferentes de sua política.

Um destacava uma defesa ferrenha do casamento tradicional, fazendo o papa se parecer como um duro conservador, enquanto que o outro fora um apelo meigo por terra, trabalho e moradia para os pobres, discurso que foi considerado como sendo marcadamente progressista.

Algo semelhante se desdobrou esta semana com relação à atitude do papa para com a Opus Dei, grupo católico fundado por São Josemaría Escrivá, que tem uma forte presença em regiões da América Latina e que é considerada por muitos como extremamente conservadora.

Logo após a sua eleição, Francisco deu luz verde à beatificação de Don Alvaro Del Portillo, sucessor de Escrivá como líder da Opus Dei, o que aconteceu recentemente numa cerimônia maciça em Madri.

Na ocasião, escrevi que Francisco parece realmente gostar da Opus Dei, acrescentando que o futuro papa passou um tempo rezando diante da sepultura de Escrivá durante uma viagem de 2003 a Roma, e que ele sabia que pessoas da Opus Dei na Argentina trabalhavam nas “villas misérias”, ou seja, em enormes favelas nos arredores de Buenos Aires.

No entanto, ao mesmo tempo em que Portillo era colocado mais próximo da santidade, Francisco removeu um bispo no Paraguai – o membro da Opus Dei Rogelio Ricardo Livieres Plano –, da pequena diocese de Ciudad del Este.

Nesta semana ele fez algo semelhante, aceitando a renúncia de Dom Juan Antonio Ugarte Pérez, de Cuzco, no Peru, e substituindo-o por Richard Daniel Alarcón Urrutia, anteriormente bispo de Tarma.

Ugarte é membro da Opus Dei, alguém que, ao longo dos anos, tem sido um fiel aliado do cardeal Juan Luis Cipriani Thorne, de Lima, prelado companheiro da Opus Dei, religioso reconhecido no Peru por sua forte liderança conservadora. Alarcón, diferentemente, é conhecido por votar contra Cipriani na maioria dos assuntos que se apresentam à Conferência dos Bispos do Peru, ou seja, a nomeação em Cuzco marca uma mudança na direção e uma espécie de retrocesso para o bloco da Opus Dei dentro da conferência episcopal peruana.

Ao mesmo tempo, por outro lado, Francisco também nomeou dois padres da Opus Dei como bispos no começo deste mês: o arcebispo espanhol Celso Morga Iruzubieta para a Arquidiocese de Mérida-Badajoz, e o brasileiro Levi Bonatto, como bispo auxiliar da Diocese de Goiânia. Tais movimentos são tradicionalmente visto como sinais favoráveis.

Então, como classificá-lo? Será que Francisco é uma figura surpreendentemente conservadora que admira Escrivá e a Opus Dei, ou será ele um progressista a reverter a influência da Opus Dei, reduzindo a pegada desta ordem na hierarquia?

Talvez a falha em enquadrar a questão sobre o Papa Francisco desta forma seja a assunção de que a resposta deva ser uma coisa ou outra. Na verdade, a esta altura a única resposta que a evidência poderia parecer sustentar é: “Ele é as duas coisas”.

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