A posição alemã. Entrevista com o cardeal Kasper

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24 Outubro 2014

Em entrevista ao jornal alemão Die Welt publicada no dia 22 de outubro, o cardeal Walter Kasper reitera de forma menos controversa os seus comentários sobre a África. Ele diz:

É diferente na África do que muitas vezes é na Europa. Todo mundo sabe disso. O que eu queria dizer era: Eu nunca iria me envolver nas questões da África, e, inversamente, os bispos africanos não são capazes de avaliar a situação na Europa como nós mesmos.

A reportagem é de Matthew Schmitz, publicada no sítio First Things, 22-10-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

O ponto de vista de Kasper também foi o do cardeal Reinhard Marx, de Munique, que disse no Sínodo:

O que a Igreja Católica está tentando fazer é uma aventura sociológica. . . Encontrar uma linguagem comum sobre tais temas existenciais, como sexualidade e casamento, para a África, a Ásia, Manhattan e para o Trastevere (bairro de Roma) não é realmente possível.

Os alemães têm razão. Como Michael Brendan Dougherty observou, "quando você descarta a Escritura e a Tradição, sim, torna-se difícil encontrar uma linguagem universal na Igreja".

Também corre-se o risco de ofender os africanos quando sua insistência de que eles não falem sobre a situação europeia ecoa as rejeições que eles ouvem em outros contextos.

Como escreveu Obianuju Ekeocha em resposta aos comentários de Kasper:

Sendo uma mulher africana que agora vive na Europa, eu estou acostumada a ter os meus pontos de vista morais e os meus valores ignorados ou rebaixados como um "problema africano" ou um "ponto de vista africano". Eu já vi pessoas sugerirem que eu não sou sofisticada ou evoluida o suficiente na minha compreensão da sexualidade humana, homossexualidade, casamento, santidade da vida humana desde a concepção, abertura à vida e ao chamado "excesso de população". Então, como resultado, em muitos círculos, qualquer contribuição que eu faço nas discussões são colocadas em segundo ou terceiro plano.

O verdadeiro problema com a retórica de Kasper e de Marx é que ela usa a diferença cultural como um pretexto para a mudança doutrinária. A condescendência incidental, sem dúvida, acidental, é lamentável, mas não surpreende dado o seu maior erro.

A insistência dos bispos de uma determinada cultura europeia, apesar de todos os cristãos terem sido incorporados a uma nova cultura, um novo cultus, através de seu batismo em Cristo. Essa cultura pode ser mais ou menos real e sentida, mas os cristãos há séculos entenderam que ela não pode existir sem uma linguagem comum, formulações comuns, a qual todos podem compreender e que na sua formação todos são ouvidos.

* * *

A seguir publicamos trechos da entrevista do cardeal Walter Kasper com o jornal Die Welt, publicada em 22 de outubro de 2014.

Eis a entrevista.

Em ambos os pontos mais polêmicos, como lidar com homossexuais e com aqueles que casaram novamente, o Sínodo não foi capaz de chegar a uma declaração final comum. O caminho não está bloqueado?

Esses pontos são vistos de forma diferente em diferentes culturas. Na África ou em países com maioria muçulmana, por exemplo, eles vêem as coisas de uma outra forma. Essa é uma discussão que não pode ser concluída em duas semanas. Ela requer um longo período de gestação. Ela agora está em curso.

O senhor mesmo deseja abrir um caminho para os sacramentos às pessoas divorciadas em segundas núpcias, sob certas condições. Neste momento, isso é proibido. Por que o senhor não conseguiu convencer os seus colegas?

Quanto ao documento final, a votação foi totalmente estranha. O ponto relativo ao casados novamente, que não alcançou a maioria necessária, na verdade, não era a minha posição. A determinação quanto a esse ponto deveria ter em causa a escolha entre duas posições: a tradicional e depois a minha. Não se podia nem votar em uma ou na outra, mas apenas afirmar que o sínodo tinha discutido ambas. Mas alguns dos padres sinodais não queriam nem que ela fosse mencionada por ter sido proposta, por qualquer motivo. Mas a minha proposta não foi portanto rejeitada. Pelo contrário, a maioria falou em favor de uma abertura.
[...]

No final, como é que a Igreja vai decidir?

Estou convencido de que, no final, vamos conseguir um amplo consenso e dar um passo em relação aos homossexuais. Um passo de mais respeito, mais reconhecimento do fato de que os homossexuais também têm algo a contribuir na Igreja. Não é possívvel que eles sejam simplesmente excluídos. Eles são filhos de Deus e pertencem à família de Deus.
[...]

O senhor sabe qual é a posição do Papa sobre a ética da família? O senhor é sempre descrito como "um confidente do papa".

Oh, Deus. O papa leu um livro meu. Ele me pediu para fazer um discurso para os cardeais sobre os divorciados em segunda união, em fevereiro, em Roma. Consequentemente, surgiu um certo respeito. Mas eu não me consideraria "um confidente do papa".

Mas o senhor tem uma impressão sobre ele. O que Francisco quer?

Ele me disse várias vezes que ele quer uma abertura. Afinal, ele tem uma experiência das coisas não tanto do ponto de vista da doutrina, mas sim a partir da perspectiva de uma rica experiência pastoral.

Não importa se são reformadores ou conservadores, ambos dizem que o papa vê as coisas como eles veem. Um lado deve estar errado.

Eu não acho que é correto querer arrastar o papa para um lado. Francisco quer ouvir todos os lados. Naturalmente, eu não sei quais decisões particulares ele vai fazer a respeito da ética da família. Mas a minha opinião pessoal é que ele vai dar um passo adiante.
[...]
Quase no fim do Sínodo houve um tumulto sobre uma entrevista em que o senhor falou dos participantes africanos no sínodo da seguinte forma: "Eles não devem nos dizer muito o que devemos fazer". O que o senhor quis dizer com isso?

Tratava-se de como lidar com casais homossexuais. É diferente na África do que muitas vezes é na Europa. Toda mundo sabe disso. O que eu queria dizer era: Eu nunca iria me envolver com as questões na África, e, inversamente, os bispos africanos não são capazes de avaliar a situação na Europa como nós mesmos. Logo em seguida, isso foi arrancado do contexto e interpretado como se eu tivesse dito: os africanos devem manter suas bocas fechadas. Isso é um absurdo.

Quando as suas citações foram publicadas, o senhor negou ter dado a entrevista. Mais tarde, uma gravação apareceu na Internet. Por que negar a entrevista?

Porque não era uma entrevista, mas uma conversa casual. Saí da sala do Sínodo, vi um rosto familiar, apresentei-me aos três jornalistas e iniciamos uma conversa casual. Se eu fosse dar uma entrevista, eu seria muito mais preciso e daria a aprovação final do texto. Mas nada foi fornecido para mim para eu autorizar. Se um africano sentiu-se de alguma forma ofendido, então eu ficaria triste. Falei depois com vários bispos africanos; muitos deles me conhecem. Eu estive na África muitas vezes. Eles não entenderam o alvoroço todo.

O cardeal norte-americano Raymond L. Burke chamou suas citações de "comentários racistas", supostamente "profundamente tristes e escandalosos". O que realmente deu errado a ponto de cardeais acusarem outros cardeais de racismo?

Eu não vou entrar em polêmicas. Cada um pode formar sua própria opinião sobre esses comentários.

Supondo que os cardeais não cheguem a um acordo sobre os pontos polêmicos no Sínodo de 2015 - o que acontecerá então? Tudo irá permanecer como antes?

Haverá mais participantes do que tivemos agora, o que irá produzir uma outra configuração. O presente trabalho de conclusão, em qualquer caso, já sepultou a opinião de que não se pode nem mesmo falar sobre sacramentos para os casados em segunda união. É, portanto, inconcebível que, ao final, iremos dizer a mesma coisa de antes. O papa tem a palavra final. Não sou profeta. Mas sou um homem que tem esperanças de que algo vai dar.