Bispos atenuam a acolhida aos gays e divorciados

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19 Outubro 2014

Um importante encontro dos bispos no Vaticano terminou neste sábado à noite atenuando significativamente uma abertura tanto aos gays quanto aos católicos divorciados e recasados, abertura esta presente no relatório intermédio divulgado segunda-feira.

Os parágrafos que tratavam destes dois assuntos foram os únicos itens que não conseguiram receber a maioria de dois terços do Sínodo dos Bispos.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 18-10-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Apesar de terem sido aprovados pela maioria dos bispos e apesar da linguagem cuidadosa empregada, estes temas receberam um significativo número de votos negativos. O parágrafo sobre os gays e lésbicas teve 110 votos a favor e 62 contra, e o parágrafo sobre os católicos divorciados e casados novamente recebeu 104 votos a favor e 74 votos contra.

Um porta-voz do Vaticano disse que estes números mostram que não houve um “forte consenso de todo o Sínodo [nestes assuntos]”.

Dados os debates às vezes intensos que ocorreram durante o Sínodo dos Bispos nestas duas semanas, o documento final é, provavelmente, um reflexo honesto de onde eles se encontram: ou seja, que para cada bispo pronto para arriscar-se a mudar há um outro preocupado em não abandonar a tradição católica.

O relatório final do Sínodo, divulgado pelos bispos neste sábado à noite, foi chamado pelo cardeal brasileiro Raymundo Damasceno Assis de “documento de compromisso”. No contexto, ele quis dizer uma tentativa de reconciliar um campo moderado-progressista que busque uma maior abertura junto aos conservadores preocupados em não manchar os ensinamentos da Igreja.

Isso remonta àquilo que o Papa Francisco disse aos bispos num discurso de 10 minutos no final do encontro, falando que a Igreja Católica precisa traçar um caminho do meio entre a “rigidez hostil” e um “falso sentido de misericórdia”.

A Igreja, disse o papa, não deve “atirar pedras contra os pecadores, fracos e doentes” nem “descer da cruz” acomodando-se ao “espírito do mundo”.

O pontífice recebeu uma ovação de 5 minutos.

O documento final buscará ser um guia para os debates durante o próximo ano, na preparação para um Sínodo dos Bispos ainda maior convocado pelo Papa Francisco a acontecer em outubro de 2015. No final deste processo, caberá ao pontífice decidir o que fazer com as proposições.

Francisco decidiu publicamente divulgar os totais de votos do documento, parágrafo por parágrafo. Nisso foi possível ver que as questões sobre a abertura à comunidade homoafetiva e à Comunhão para os divorciados e recasados continuam sendo os assuntos mais polêmicos.

Na segunda-feira passada, a ala progressista encaixou uma vitória com um relatório provisório que continha uma linguagem surpreendentemente positiva sobre as uniões homoafetivas e outros relacionamentos que a Igreja considera “irregulares”.

Na quinta-feira, o cardeal alemão Reinhard Marx, um dos líderes do grupo reformista, defendeu a abordagem.

“Consideremos o caso de dois homossexuais que viveram juntos por 35 anos, cuidando um do outro, mesmo nos últimos estágios de suas vidas”, falou. “Como poderei dizer que esta relação não tem valor algum?”

Este tipo de fala incitou uma forte reprimenda de bispos preocupados com que esta “acolhida” estes “elementos positivos” pudessem ser interpretados como palavras-chave para que Igreja Católica suavize o seu ensinamento moral.

Um dos líderes desta ala é o cardeal americano Raymond Burke, chefe do Supremo Tribunal vaticano, quem fez uso de uma série de entrevistas para insistir que o Papa Francisco deve ao mundo uma declaração clara de que o ensinamento da Igreja, nesse sentido, não se alterou.

No meio desta semana, a revolta conservadora foi forte o suficiente para acabar fazendo com que o Sínodo tomasse uma decisão inédita: publicar todos os relatórios internos dos pequenos grupos que debateram o relatório intermédio, fornecendo um raio-x de um grupo dividido.

Um grupo liderado pelo cardeal Robert Sarah, da Guiné, por exemplo, insistiu que “acompanhar pastoralmente uma pessoa não significa validar certa forma de sexualidade nem certo estilo de vida”.

Consequentemente, o documento final está mais cauteloso do que o relatório de segunda-feira, afirmando que as pessoas homossexuais devem ser “acolhidas com respeito e delicadeza” e que não devem sofrer “discriminação injusta”, mas também dizendo que não há “base alguma” de comparação, “mesmo que remota”, dos relacionamentos homoafetivos com o casamento entre um homem e uma mulher.

Sobre se os católicos divorciados e recasados no civil deveriam ter condições de receber a Comunhão, o documento final se restringe a observar que ambas as posturas têm defensores fortes e sugere que a questão precisa de mais estudos.

O relatório diz que um “grande número” de bispos apoia um sistema mais rápido, simples e idealmente livre para a concessão de anulações (declaração emitida pela Igreja de que uma dada união nunca foi realmente um casamento porque não cumpriu com os requisitos de validação). Na prática, tal declaração permite que alguém tenha um segundo casamento na Igreja.

O cardeal filipino Luis Antonio Tagle pareceu preocupado com que estes resultados possam desmantelar a nova abertura sinalizada segunda-feira.

“Algumas pessoas (...) podem achar que a acolhida, o lugar que se abriu, fechou-se de repente”, disse ele em entrevista neste sábado. “Este não é o caso (...). A abertura continua”.

A linguagem comprometida ilustra dois aspectos.

Em primeiro lugar, como disse quinta-feira o leigo italiano Francesco Miano, há uma tensão clara tanto no Sínodo quanto na Igreja em geral entre verdade e misericórdia. Todos concordam que estas coisas pertencem uma à outra. Mas há uma grande diferença entre os que ressaltam a primeira, e os que ressaltam a segunda.

E, em segundo lugar, não há motivos para se crer que estas diferenças vão se harmonizar antes do próximo Sínodo, em 2015.

No final das contas, a única questão que realmente importa é: Quando este processo extraordinário de dois anos de reflexão terminar, o que o Papa Francisco vai fazer?

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