Facebook e Apple oferecem congelamento de óvulos para funcionárias

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20 Outubro 2014

Adiar a maternidade tem um prêmio. Facebook e Apple, duas gigantes tecnológicas, foram um passo além dos habituais incentivos para funcionários no Vale do Silício. Às bebidas e comidas grátis feitas por chefs renomados, às happy hours na sexta-feira, às salas de jogos ou aos bônus econômicos, soma-se uma quantia em dinheiro extra para congelar óvulos. A lista de prêmios por fazer parte de uma empresa tecnológica tem cada vez menos limites. Só assim se explica que um dos perfis mais procurados seja o de CHO, Chief Happiness Officer, quer dizer, o responsável por que um funcionário esteja feliz no posto de trabalho.

A reportagem é de Rosa Jiménez Cano, publicada pelo jornal El País, 17-10-2014.

Ambas as empresas reconheceram à cadeia de televisão NBC seu compromisso para que as trabalhadoras se mantenham em seu cargo em troca de custear o processo de congelamento e manutenção de óvulos. Segundo explica Brigitte Adams, fundadora da Eggsurance.com, empresa em que as duas companhias confiaram para oferecer o incentivo, cada ciclo de estimulação ovariana para a coleta de amostras custa US$ 10 mil, aos quais se devem acrescentar US$ 500 por ano para o armazenamento dos óvulos. O Facebook já oferecia US$ 4 mil para gastos pelo nascimento de um filho.

Este novo "perk", ou incentivo, pretende que as funcionárias adiem a maternidade. A Eggsurance e a Extend Fertility são duas empresas que há algum tempo oferecem esse serviço a consultoras. Nenhuma das duas deu mais nomes de clientes, mas deixaram entender que também start-ups, menores e quase sempre recém-criadas, ainda longe de estarem na Bolsa, aderiram à onda.

Um porta-voz do Facebook explicou à revista "The Atlantic" o motivo dessa ajuda: "Nossos empregados e suas famílias são muito importantes para nós. Sempre estamos contemplando melhoras em nosso seguro de saúde que se ajustem a suas necessidades. Continuamos ampliando a cobertura para mulheres com a opção de maternidade estendida, com a preservação de óvulos e seu armazenamento". Nessa mesma linha, insistiram que também têm um programa de ajuda para adoção, no qual se encarregam dos custos legais do processo. Poucas horas depois, seu serviço de comunicação acrescentou um esclarecimento a "El País": "No Facebook queremos dar uma ampla variedade de benefícios a nossos empregados. Esse é um dos muitos que oferecemos".

O habitual no Vale do Silício é que se paguem até quatro meses de licença maternidade, por conta das empresas. No caso do Google se chega a 22 semanas, a opção mais generosa diante das 16 do Twitter. À diferença da Espanha, os pais recebem quase os mesmos dias de licença para cuidar do filho. Das quatro semanas na Microsoft a 17 no Facebook e no Instagram.

No entanto, nem sempre tiram essas licenças, seja por medo ou responsabilidade exacerbada. O caso de Marissa Mayer, ex-diretora do Google e conselheira delegada do Yahoo, fez disparar os alarmes. Ela trabalhou até a véspera do parto e voltou duas semanas depois ao escritório, com o bebê e um berço. O que ela defendeu como uma forma de equilíbrio entre sua vida pessoal e o trabalho foi considerado o pior exemplo possível para as demais mulheres em seu ambiente. Foi então que decidiu oferecer 16 semanas para as mães e oito para os pais.

Essas práticas pelas quais as empresas tentam retardar a idade da maternidade abrem um debate de dupla moral. Por um lado, convida-se a ser mãe e se dão facilidades. Por outro, convida-se a adiá-lo e a empresa cobre o gasto. Glenn Cohen, especialista em bioética na Universidade Harvard, publicou um post em seu blog há mais de um ano em que explica que a mensagem enviada por essas corporações fica bastante difusa: "De alguma maneira podem estar fazendo ver que seu trabalho atual não é compatível com a maternidade".

A oferta de congelamento de óvulos do Facebook e da Apple chega também em um momento polêmico. Na semana passada, Satya Nadella, delegado da Microsoft, fez declarações em uma conferência nas quais aconselhava as mulheres a não pedir aumento de salário, sob o argumento de que com esforço e trabalho tudo chega. Pouco depois teve de dar explicações e deixar claro que não se tratava de subestimar seu trabalho ou olhar para o outro lado, e sim que o justo seria que as promoções chegassem de maneira natural. A diferença de salário entre sexos no mundo da tecnologia é superior a 30% para realizar o mesmo trabalho.

Os números de emprego feminino no campo tecnológico ainda são muito baixos. No Google, símbolo do progresso na área, não chega a 30%. No Twitter e no Yahoo ocorre um número semelhante. O Facebook não oferece esses dados. Segundo cálculos da analista de dados Tracy Chou, na Etsy, FourSquare, Pinterest, Mozilla, Airbnb e outras start-ups de ponta só 12,42% dos cargos técnicos são ocupados por mulheres. Além disso, a maior parte dos cargos para mulheres costuma estar em departamentos de marketing, mídia, relações-públicas ou vendas, e muito raramente na área técnica.