O Papa pede ao Sínodo que fale “com clareza”; cardeal defende os ensinamentos atuais

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07 Outubro 2014

O Papa Francisco abriu os debates em seu encontro mundial com bispos segunda-feira dizendo aos prelados que falassem abertamente, sem medo de chateá-lo ou limitando as discussões a coisas que ele gostaria de ouvir.

Ao usar o termo grego “parresia” – que quer dizer falar claramente ou com coragem –, o pontífice disse aos cerca de 190 prelados reunidos no Vaticano que eles deveriam “falar com parresia e escutar com humildade”.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 06-10-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

No sínodo, continuou ele, não significa que os prelados devam dizer só aquilo que o papa quer ouvir. “Isso não é bom!”, afirmou ele.

“Uma condição geral é a seguinte – disse o pontífice –: “falar claramente. Não deixem ninguém lhes dizer: ‘Você não pode dizer isso’”.

“Precisamos dizer tudo o que sentimos com parresia”, continuou. “Ao mesmo tempo, devemos escutar com humildade e acolher com o coração aberto o que os irmãos dizem”.

Francisco estava abrindo os debates segunda-feira no Sínodo dos Bispos, um dos dois encontros mundiais a acontecer em 2014 e 2015 que o pontífice convocou para focar a questão da família.

Estes encontros levantaram esperanças de que mudanças possam vir a acontecer em certas práticas da Igreja concernentes à vida familiar, em especial como ela trata as pessoas que se divorciaram e casaram novamente sem primeiro obter uma anulação da Igreja.

No entanto, a sessão de segunda-feira pela manhã – a única deste Sínodo a ser televisionada e a única a disponibilizar os textos dos oradores – foi uma mistura de exortações dos prelados de que o encontro deveria realizar debates abertos, por um lado; e, por outro, de discursos segundo os quais não se deveria realizar nenhuma mudança substancial nos ensinamentos da Igreja.

Num exemplo, o prelado que chefia o departamento vaticano responsável pelo Sínodo disse aos demais que eles deveriam fazer uso de uma “ampla liberdade de expressão” em suas discussões.

“Expressar nossas convicções é sempre positivo na medida em que é feito de maneira respeitosa, amorosa e construtiva”, disse o cardeal Lorenzo Baldisseri.

“Na realidade, é importante que a pessoa se expresse sem medo e sem criar suspeitas”, continuou. “Sentir-se livre para expressar o que se acredita ou sobre o que se tem dúvida mostra o que distingue um ser humano das demais criaturas”.

“Quando as diferenças surgem, os participantes em seus variados papéis são convidados não a enfatizarem os seus próprios interesses ou pontos de vista, mas sim a procurar a verdade”, disse Baldisseri.

Mas um prelado pareceu traçar um limite de proteção ao redor dos ensinamentos atuais da Igreja, em especial aqueles que proíbem o divórcio e o casamento pela segunda vez.

Ao se referir ao chamado à misericórdia que alguns católicos, incluindo o cardeal Walter Kasper, usou para se repensar o casamento na Igreja, o cardeal Péter Erdő disse claramente: “A misericórdia não desfaz os compromissos que surgem das demandas dos laços matrimoniais”.

“Isso quer dizer que, no caso de um casamento sacramental consumado, após um divórcio, um casamento reconhecido pela Igreja é impossível, enquanto o cônjuge ainda estiver vivo”, disse Erdő, que fez o discurso mais longo nesta segunda-feira, durando quase uma hora.

Erdő, arcebispo de Esztergom-Budapeste, na Hungria, está servindo como relator geral do Sínodo, papel que o faz responsável por ajudar a guiar as discussões do encontro.

Em sua fala, o cardeal procurou resumir o processo realizado pelo Escritório do Vaticano para o Sínodo dos Bispos em preparação ao encontro, reunindo as respostas globais ao questionário proposto pelo mesmo departamento no ano passado relativo a questões da vida familiar.

Em grande parte, Erdő defendeu as práticas pastorais atuais da Igreja concernentes à família, focando-se numa crítica ampla sobre o estado das sociedades modernas.

“Muitas pessoas, hoje, têm dificuldade de pensar de forma lógica e ler documentos extensos”, disse o cardeal, abrindo a sua fala.

“Muitos consideram suas vidas não como um empreendimento a longo prazo, mas como uma série de momentos nos quais um grande valor é posto no sentir-se bem e desfrutar de boa saúde”, continuou. “Desse ponto de vista, qualquer compromisso firme parece intransponível, e o futuro parece ameaçador”.

O cardeal enfatizou também a importância de tornar mais claros os ensinamentos da Igreja.
“Os aspectos específicos da doutrina e do magistério da Igreja sobre o casamento e a família nem sempre são suficientemente bem conhecidos pelos fiéis”, disse Erdő.

“Isso não significa que o ensino, em princípio, seja posto em dúvida pela ampla maioria dos crentes e teólogos”, acrescentou. “Na forma em que ele é apresentado pelo Concílio Vaticano II (...), este ensinamento desfruta de um amplo consenso entre os católicos praticantes”.

“Particularmente, este é o caso quanto à indissolubilidade do casamento e à sua natureza sacramental entre os que são batizados”, falou Erdő. “Este ensinamento sobre a indissolubilidade do casamento como tal não se questiona”.

“Portanto, o que está sendo debatido neste Sínodo, de uma natureza pastoral intensa, não são questões doutrinárias, mas questões práticas – não obstante inseparáveis das verdades da fé”, declarou.

Quanto ao trabalho pastoral para com católicos divorciados e recasados, o cardeal sugeriu que “a resposta (...) pode ser buscada num trabalho pastoral mais amplo junto aos jovens e àqueles que em preparação para o matrimônio”.

“No que diz respeito aos divorciados que se encontram casados no civil, muitos disseram que é preciso distinguir entre a pessoa culpada pelo rompimento matrimonial e a parte inocente”, disse o religioso. “O trabalho pastoral da Igreja deveria se estender a cada um deles de forma particular”.

No entanto, Erdő informou que as respostas ao questionário enviado pelo Vaticano às dioceses apresentaram “um amplo consenso em favor de simplificar os casos de anulação”.

Sugerindo uma linha de pensamento para a forma como os participantes do Sínodo poderiam abordar a questão dos católicos divorciados e recasados, o cardeal propôs várias opções de mudanças no processo de anulação a fim de permitir que mais católicos se casem novamente, se a Igreja considerar a primeira união inválida.

Na verdade, aparentemente sugerindo que a Igreja tem uma ampla liberdade neste campo, Erdő disse que “não parece arriscado (...) acreditar que muitos dos casamentos celebrados na Igreja sejam inválidos”.

“Muitos consideram que [o processo de anulação] precisa ser revisto”, disse o cardeal. “[Mas] uma possível solução (...) deveria evitar qualquer tipo de mecânica ou impressão de conceder o divórcio”.

Ao dar uma sugestão de reforma, Erdő propôs que o processo para concessão de anulações na Igreja possa ser retirado do Vaticano para “ser substituído por uma declaração de nulidade pelos bispos diocesanos”, dando efetivamente a estes mais autoridade para declarar inválidos os casamentos.

Erdő também tocou no assunto do ensino da Igreja sobre a proibição de métodos contraceptivos, dizendo que a encíclica “Humanae Vitae” do Papa Paulo VI, que aborda o assunto, “precisa ser relida”, tal como foi concebida pelo próprio pontífice.

“A norma moral citada neste documento precisa ser considerada à luz da ‘lei da gradualidade’ (...) tendo em mente que cada pessoa é um ser histórico, que ‘conhece, ama e cumpre o bem moral segundo as fases do crescimento’”, disse Erdő, ao citar a encíclica e a posterior exortação apostólica do Papa João Paulo II, “Familiaris Consortio”.

bigualmente falou sobre o casamento homoafetivo, dizendo que as respostas ao questionário do Sínodo foram “bastante claras de que a maioria dos batizados – e todas as conferências episcopais – não esperam que estes relacionamentos sejam equiparados com o casamento entre um homem e uma mulher”.

“Tampouco”, continuou o cardeal, “há um consenso entre a grande maioria dos católicos a respeito da ideologia das teorias de gênero”.

Os trabalhos dos bispos durante o Sínodo continuam nesta segunda-feira.

Há cerca de 190 prelados presentes e que terão condições de votar nos debates. Cerca de 60 pessoas, principalmente não prelados, foram escolhidas para desempenhar outros papéis, tendo o direito de contribuir nas discussões, mas não de votar.

De segunda-feira pela manhã até terça-feira à noite, os bispos vão abrir os seus encontros com um pronunciamento sobre o tema em questão. Após isso, um casal irá dar o seu testemunho de vida sobre o assunto tratado.

Após uma semana de reuniões, os bispos devem produzir um esboço – documento de trabalho – para o Sínodo, o qual será trabalhado durante a segunda semana de reuniões para resultar num documento final a ser entregue ao papa.

As sessões seguintes acontecerão a portas fechadas, sem a distribuição dos textos, resumos ou mesmo o nome dos oradores. Em vez disso, a Sala de Imprensa do Vaticano estará publicando informes diários com porta-vozes que estarão participando das sessões e que vão resumir os debates.

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