Brasil. Entre o “keinesianismo envergonhado” e o “neoliberalismo insolente”

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Por: Jonas | 25 Setembro 2014

“Hoje, o confronto mais provável é entre as duas mulheres, a candidata de Lula versus a candidata de Obama. Será a peleja entre dois caminhos distintos. O primeiro, do PT e aliados, encarna imensas contradições e se debate entre o “neoliberalismo retardado” (com a volta ao passado) e o “keynesianismo periférico envergonhado” (um possível passo para o futuro). Confronta as opções de abandonar definitivamente o acumulado desde 2003 ou de continuar avançando a passos lentos. Parece que, com Dilma, haveria muito mais espaço para a luta política e social nos próximos anos. O segundo caminho é o do “neoliberalismo insolente”, de Marina. É a alternativa apresentada por Washington e abraçada por nossa elite”, escreve Luciano Wexell Severo, economista, professor da Universidade Federal de Integração Latino-Americana (UNILA), em artigo publicado por Rebelión, 24-09-2014. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Passada a primeira década e meia do século XXI, é possível afirmar que a América Latina viveu uma situação muito especial, na qual se combinaram dois elementos: a contestação das políticas neoliberais dos anos 1980-90 e a ascensão da China e sua crescente demanda por matérias-primas e produtos primários. Em razão da combinação das duas situações, coincidiram a ascensão de nossos governos “progressistas” e o boom dos preços de nossos produtos exportáveis.

Dessa maneira, de um modo geral, durante a última década foi possível promover políticas sociais de inclusão e democratização na maioria dos países latino-americanos. Se por um lado não recuperamos sequer as condições materiais de vida dos anos 1960, por outro a situação está significativamente melhor do que nos anos 1990. Há muitos elementos para refletir em relação à união desses dois fatores: a contestação popular ao neoliberalismo, que resultou na chegada de governos progressistas, e a exploração da demanda chinesa, que resultou no boom das commodities.

Não é um equívoco afirmar que sem a demanda chinesa é bastante provável que os governos de “esquerdas”, apesar de suas boas intenções, teriam avançado muito menos em suas políticas redistributivas. Como também não é uma loucura dizer que se o boom das exportações de bens primários tivesse chegado alguns anos antes, talvez os governos progressistas, apesar da pressão das ruas, não tivessem obtido suas vitórias eleitorais naquele momento.

Porém, como afirmou Luiz Alberto Moniz Bandeira: “Se nada é absolutamente intencional, nada também é absolutamente fortuito”. Embora seja preciso admitir a importância da crescente demanda chinesa, também é fundamental reconhecer que houve uma ofensiva popular vitoriosa contra o neoliberalismo. Desde o Caracaço, passando pelo movimento zapatista e a deposição de presidentes na Argentina, Bolívia, Brasil, Equador e Venezuela. A ascensão dos governantes de esquerdas foi o fruto dessas lutas sociais e de históricas mobilizações que aglutinaram a maioria de nossas sociedades, convulsionadas pelo desastre privatizador e desnacionalizador.

O caminho escolhido pelo PT

No caso do Brasil, apesar dos imensos avanços no campo social, a partir de sua vitória eleitoral em 2002 e tomada de posse em 2003, o Partido dos Trabalhadores (PT) apostou na desmobilização, na despolitização, na não luta política, na hegemonização e na pasteurização do discurso e da ação.

Desapareceram do debate termos como imperialismo, oligarquia, transnacionais e se ocultou o inimigo número um das últimas décadas: o FMI. Se um extraterrestre chegasse ao Brasil hoje, em setembro de 2014, teria dificuldades para localizar quem é de “esquerda” ou de “direita”. Isso aconteceria porque a cúpula do PT apostou conscientemente em extenuar essas diferenças, procurando criar uma coalizão que garantisse uma “modernização conservadora”, com o “progresso de todos” e a “governabilidade”.

Em nome da construção de uma “paz”, o governo optou por se aliar com parcelas dos setores menos avançados de nossa sociedade, isolando as lideranças mais politizadas, mais radicalizadas e mais comprometidas com o necessário processo de mudanças. Isso, inclusive, pode ser explicado e entendido, mas tem seus riscos e agora, nas vésperas de uma nova eleição, cobra sua fatura.

Não houve ações do PT para a formação de consciência política e ideológica. Não houve esforço em politizar os elementos que ajudaram a impulsionar e promover a transformação econômica do Brasil. Não houve contato com o povo, seja pela televisão, rádio ou jornais. Assim, apostou-se em um distanciamento e uma esterilização que reflete a disputa interna dentro do governo e a “flacidez ideológica” da direção do partido. Mesmo que, por exemplo, Lula algumas vezes fale em termos de nacionalismo econômico e, nos últimos anos, pareça ter finalmente compreendido o papel de Getúlio Vargas (e do prócer Tiradentes) para a construção do Brasil e a dignidade dos brasileiros, a chamada “Questão nacional” habita de forma muito vaga as intervenções do partido.

Trata-se, desta forma, de uma “esquerda” rara, que não entende e nem assume o Nacionalismo Anti-imperialista. Inclusive, por isso não tem um Projeto Nacional (2). E isso complica bastante o quadro, anuvia o cenário e confunde os seguidores e os militantes. Portanto, a interpretação de que o PT empobreceu o debate político nacional não é um exagero, e há anos vem ganhando eco, inclusive e sobretudo, entre as centrais sindicais mais respeitadas, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e as lideranças mais comprometidas com a transformação do país.

No campo econômico, sem dúvida houve uma reorientação para o mercado interno de mais de 200 milhões de pessoas. O número de pobres e miseráveis diminuiu, as fontes de trabalho formal cresceram, os bancos públicos (como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal - CEF - e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES) ampliaram seus créditos para a agricultura (familiar e para o agrobusiness), a construção de moradias e houve um sutil esboço de esforço de industrialização. Tais medidas, adotadas durante o segundo mandato de Lula (2007-10), cumpriram um papel fundamental no enfrentamento da crise internacional.

Mesmo assim, prevaleceu intocável o chamado “tripé” (as três patas) da política macroeconômica, muito bem denominada por um senador como o “Tridente Satânico”. O “tripé” se refere ao gasto público, o nível de preços e o tipo de câmbio. Seus três pés são:

1) As taxas de juros mais altas do planeta, para supostamente controlar a inflação (tais taxas elevadas atraem dólares e barateiam seu preço, valorizando a moeda nacional... além de aumentar a dívida);

2) As taxas de câmbio soltas, “flutuantes” e sobrevalorizadas, dificultando as exportações e promovendo as importações (o preço do dólar está em 2,3 reais e, segundo estudos dos industriais, deveria estar em 3,5 ou 4,0 reais);

3) O “controle” do gasto público, contrário à “macroeconomia irresponsável” e ao “manejo populista do Estado” (o “fiscalismo” dos gerentes neoliberais condena o endividamento e as políticas fiscais ou monetárias de promoção da atividade econômica, para garantir o “superávit primário” e a remuneração do sistema financeiro detentor da dívida).

O tema da dívida pública se transforma, cada dia mais, em um tremendo mecanismo de concentração de renda por um pequeno setor oligárquico nacional ou internacional (anualmente, a metade do orçamento do Brasil é dirigido para o pagamento de juros da dívida).

Assim, as ações dos governos de Lula foram contraditórias. Ao mesmo tempo em que aplicou uma política externa independente (de apoio à integração latino-americana e de promoção de um mundo multipolar), manteve uma política econômica interna de caráter “ortodoxo”. Apesar dos grandes avanços sociais, a ação macroeconômica continuou oscilando entre o neoliberalismo dos anos anteriores e uma espécie de keynesianismo. No melhor dos casos, a esquerda brasileira teve que se contentar com a segunda opção. Vale dizer que no atual momento de superação do neoliberalismo, essa alternativa keynesiana não é necessariamente negativa, como bem demonstra o caso da economia da Argentina (que assume a proposta de construção de um capitalismo nacional autônomo) e também do Equador, Bolívia e Venezuela (ainda que nesses casos seja estimulado um Capitalismo de Estado, concebe-se o avanço para um ainda furtivo Socialismo do Século XXI).

No caso do Brasil, a intensificação do “tripé” por Dilma e a redução da demanda internacional de nossos principais produtos tiveram resultados tétricos. A queda dos preços internacionais das commodities que exportamos é evidente: do ápice de 2012, a soja caiu 40%, o milho 60% e o petróleo 15%. Só em 2014, o preço do minério de ferro ruiu 40%. Ainda que os preços continuem em níveis considerados historicamente altos, esses números demonstram que é possível e necessário aproveitar os ciclos de valorização das matérias-primas para reforçar o aparato produtivo nacional, sem acreditar minimamente que esta expansão durará para sempre. Reafirma-se, mais uma vez, a secular tendência a Deterioração dos Termos de Intercâmbio, apontada por Raúl Prebisch, em 1948.

Vale apontar que, durante o primeiro período de Cardoso (1995-98), o PIB brasileiro acumulou crescimento de 2,4%. No segundo período (1999-2002), expandiu-se menos ainda, 2,1%. Nas administrações de Lula, as expansões foram de 3,5%, na primeira (2003-06), e de 4,6%, na segunda (2007-10). Com Dilma, a média acumulada entre 2011-13 é de 2,0%, pior do que no período neoliberal. Em 2014, até o momento, a economia caiu 0,2% durante o primeiro trimestre e 0,6% no segundo. Os indicadores econômicos e sociais dão sinais claros de retração.

Pior: a quantidade de empresas vendidas via Investimento Estrangeiro Direto (IED) – que nesse caso não são “investidores”, mas, sim, meros atravessadores de propriedade – aumenta sem parar, desde 2003. As contas externas estão no vermelho e o que garante seu fechamento, no final do ano, são os ingressos de capital para comprar títulos da dívida muito bem remunerados ou para adquirir empresas brasileiras. Não obstante, como se sabe, esse dinheiro que entra como “investimento” pela conta de capital – para a compra de bens ou de títulos –, em seguida, sai do país para pagamento de juros ou via crescentes remessas de lucros para o exterior. É a festa das transnacionais de automóveis, bancos, telecomunicações, eletricidade, alimentos, bebidas...

Parece inquestionável que a grande preocupação do governo do PT não foi com a “Economia Nacional”, nem com o “desenvolvimento econômico” (ainda que se fale em um pretenso “Neodesenvolvimentismo” que nada tem a ver com o “Desenvolvimentismo”, dos anos 1960 a 1980, e muito menos com o “Nacional-Desenvolvimentismo”, dos anos 1930 a 1950). A proposta petista se associa a uma vaga ideia de “Crescimento com transferência de renda”, em que “todos ganham”. Sem dúvida, promove-se uma justa melhora dos indicadores sociais. Na realidade, ocorre o seguinte: ampliam-se as oportunidades dos brasileiros mais pobres via ações paliativas de transferência dos recursos oriundos da permanente desnacionalização do país.

Tentou-se trabalhar com ações moderadas por cima das ruínas das duas décadas de governos militares e outras duas de neoliberalismo. Nesse sentido, inclusive as medidas paliativas do PT tiveram grandes impactos positivos. Por exemplo, o número de estudantes universitários foi ampliado em 100%. Há 14 universidades públicas novas, bolsas de pesquisa, extensão e pós-graduação, estímulos e facilidades para os jovens de menor renda cursar escolas técnicas, e universidades públicas ou particulares. Ampliou-se o poder de compra dos trabalhadores.

De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), desde 2003, o valor do salário mínimo acumulou crescimento real de 72,31%. Os benefícios impactam diretamente sobre a vida de 48 milhões de brasileiros que dependem especialmente do piso salarial. A criação de empregos formais foi considerável: 20, 264 milhões entre 2003 e 2013. São reais e admiráveis os resultados dos programas “Bolsa-Família”, “Mais Médicos”, “Minha Casa, Minha Vida”. Soa incompreensível que – dentro da esquerda – haja aqueles que não reconheçam esses esforços e conquistas, que beneficiam dezenas de milhares de brasileiros.

A prestidigitação tem seus limites

Lula, com sua grande capacidade de articulador e de malabarista político, aproveitou-se do cenário internacional favorável para praticar uma política econômica híbrida. Um pouquinho para Deus e um pouquinho para o diabo. Empurrado pelo crescimento do preço de nossos produtos primários e pela entrada de investimentos estrangeiros, acabou aprofundando o retorno de uma espécie de modelo primário exportador. No entanto, é certo que, ao mesmo tempo, potencializou o mercado interno via transferência de renda. Transferência de renda, já que a política tributária mantém a riqueza de poucos intocável.

Na última década, seduzidos pelo canto das sereias chinesas, a pauta de exportações do Brasil consolidou um retrocesso de 100 anos. Voltamos ao cenário dos anos 1920, quando as principais vendas para o mundo eram de café. Hoje em dia, exportamos majoritariamente minério de ferro, soja, petróleo e açúcar. Vendemos animais vivos. E, ao mesmo tempo, compramos café torrado. As exportações de bens com valor agregado encolhem como nunca, expressando a retração do parque produtivo nacional. O país não está enfrentando minimamente a invasão chinesa, seja com a taxa de câmbio, com tarifas ou qualquer outro tipo de proteção.

Se isso ocorreu durante a gestão de Lula e seu vice-presidente, o industrial progressista José Alencar, imagine com Dilma. São muitas as semelhanças de Michel Temer, o atual vice, com uma múmia. Liberal no campo econômico, conservador no campo político. Masson ativo. Uma alegoria precisa do atraso de nossa elite branca, católica e reacionária. Dessa forma, a aliança do PT com o PMDB, supostamente fundamental para assegurar as vitórias eleitorais e a “governabilidade”, custa muito caro. A tênue coalizão de poder acaba inviabilizando até mesmo o debate sobre temas fundamentais.

Não se fala em reforma agrária e controle sobre o agronegócio; auditoria da dívida pública; suspensão de concessões de estruturas públicas para usufruto de particulares nacionais ou estrangeiros; fim do controle dos meios de comunicação por conglomerados familiares; suspensão do incentivo aos “campeões nacionais” via financiamentos públicos para oligopólios privados (construção civil, alimentos, banco, siderurgia, etc.); controle da taxa de câmbio; redução das taxas de juros; nacionalização de setores estratégicos da economia; entre outras medidas que são essenciais para que o Brasil cresça e se firme no cenário interestatal. Para a cúpula do PT esses são temas excêntricos e ultrapassados; e apenas mexidos poderiam pensar em trazê-los de volta para a pauta.

É improvável que o governo corrija ou reoriente suas ações sem mobilizações sociais contundentes. A força dificilmente irá surgir de dentro da administração. É certo que cumprimos cinco décadas de esmagamento e “blindagem política” de nossa sociedade: tantos anos de chumbo (1964-85), de néon conservador (1990-2002) e, agora, de esterilização ideológica (2003-2014). No entanto, o povo brasileiro se mostrou capaz de superar cada uma dessas travas em seu processo de emancipação. Com o movimento de “Diretas Já”, colocou fim à ditadura; com protestos de massa derrubou Fernando Collor de Mello, em 1992; e se levantou nas urnas para eleger Lula em 2002. Apesar das tremendas dificuldades, é hora de contestar a pasteurização, sem parar as mudanças.

Percebe-se que, além da crescente despolitização da vida nacional, para agravar o cenário, durante o governo de Dilma foram retomadas as chamadas “concessões” de estruturas públicas para o setor privado nacional e estrangeiro. O setor de infraestrutura (portos, estradas, ferrovias, aeroportos, hidrelétricas, termoelétricas e até mesmo estádios de futebol) foi privatizado e passou por uma estrangeirização ainda maior.

O pior caso foi o do Pré-Sal, as reservas de petróleo que estão por baixo da camada de sal do oceano Atlântico, descobertas pela Petrobras. Amplos setores da sociedade condenaram a participação da Shell, Total e duas companhias chinesas. Ficou claro que o Brasil não necessitava do dinheiro, nem da tecnologia. Abriu-se esse setor estratégico à participação estrangeira por motivos puramente políticos. Para completar, o governo qualifica as posturas contrárias, com desprezo, como “nacionalistas”. É inesquecível a cena da truculenta Tropa de Choque de Dilma avançando com cavalos, cachorros, tiros e bombas contra manifestantes defensores do Pré-Sal, em outubro de 2013, na Barra da Tijuca.

Nota-se que o governo do PT apostou e continua apostando suas fichas em uma “modernização” do Brasil “sem meter a política e a ideologia no meio”. Agora, diante da diminuição dos preços de algumas commodities, sente-se uma freada.

Mesmo que seja possível atribuir os maus resultados atuais à crise mundial, os indicadores demonstram que está sendo colocada em prática uma política econômica regressiva: a priorização do combate à inflação ante o desenvolvimento econômico; a imensa preocupação com os gastos públicos; as taxas de juros elevadas; e o dólar barato. A situação do Brasil é inadmissível. Somos o país capitalista que mais cresceu entre 1930 e 1980, que superou a condição de estância arcaica e se consolidou como um poderoso parque industrial. Apesar da péssima distribuição de renda entre as classes sociais e entre as regiões do país (potencializadas pela industrialização dependente pós-1964), a criatividade e o engenho nacionais possibilitaram a produção de aviões, turbinas, motores, medicamentos e bens de alto valor agregado. Por isso, para um brasileiro é um tanto raro imaginar seu país como exportador de petróleo no século XXI, depois de ter exportado máquinas e equipes para os Estados Unidos, durante tantas décadas. Além disso, essa exportação de bens primários é essencialmente problemática quando o dinheiro obtido com as vendas é drenado para o exterior. Diante de um governo frágil, as grandes corporações atuam soltas, de forma quase despótica.

A encruzilhada de 2014

Agora, a grande pergunta. O povo percebe essa situação? É muito provável que não. De verdade, há mais comida na mesa do brasileiro. Há mais emprego, há mais renda e mais dignidade do que nos anos 1990. Ainda que já comece a contar com um pouquinho a menos do que com Lula. Por esse motivo, em princípio, os eleitores devem optar que Dilma continue, comprando a ideia de que está em marcha um processo lento de mudanças e de melhoras que não deve ser interrompido. Essa decisão é muito mais baseada em elementos reais e concretos do que em uma perspectiva político-ideológica de “esquerdas” ou “direitas”.

O problema é que agora a despolitização, a pasteurização e a esterilização promovidas pelo PT, após 2003, obviamente voltam-se contra ele. É imenso o peso dos meios de comunicação hegemônicos. Tais mecanismos de entorpecimento coletivo estabelecem arbitrariamente que os grandes problemas do Brasil atual são: a inflação (de 6,2%) e a corrupção (José Dirceu e José Genoíno – líderes do PT e guerrilheiros anti-ditadura militar, nos anos 1970, estão presos por capricho da “Justiça”, ao passo que Fernando Henrique Cardoso, José Serra e os privatizadores e desnacionalizadores, dos anos 1990, andam soltos dando palestras sobre “Ética na política” e “Administração pública”).

O aumento dos preços e a “violência” estiveram entre os assuntos centrais das manifestações de junho de 2013, quando os setores mais retrógrados da sociedade brasileira tomaram as ruas para reivindicar suas demandas contra o PT. Condenou-se a “corrupção”, a “inflação”, a “insegurança” e o “autoritarismo promovidos pelo governo” (3). Ao melhor estilo “Primavera Tropical”, os cartazes destacavam “Cansaço” da “Política” e incluíam slogans como “Não vai ter Copa”, contrários à grande festa do futebol mundial. Um verdadeiro show de despolitização.

Embora Dilma ao menos tenha esboçado algumas propostas de reformas, essas foram imediatamente enterradas pelo Congresso. Se há ou não a verdadeira intenção de promover mudanças efetivas, o certo é que tudo fica parado na própria dinâmica da “democracia” brasileira. Sem isentar o governo, o atual sistema baseado em eleições de quatro em quatro anos está inteiramente falido. Vigora uma plutocracia, controlada pelos bandidos da alta sociedade: poderosos empresários, latifundiários armados, líderes de igrejas abençoadas e donos de meios de comunicação inexplicavelmente financiados pelo próprio governo.

O sistema eleitoral é uma completa farsa, que inviabiliza os processos transformadores. Além disso, solidifica a pasteurização política e promove um crescente embrutecimento da sociedade. São milionários os custos para se candidatar a vereador, prefeito, deputado, governador ou senador. Imagine, então, lançar-se a presidente. Até 5 minutos antes de votar, as pessoas não têm ideia de quem são os candidatos a vereador ou deputado. Isso torna possível que cantores, bailarinas, palhaços, comediantes e jogadores de futebol obtenham dezenas de milhares de votos (em honra à verdade, alguns se demonstram bons legisladores). O certo é que sem se envolver com compromissos espúrios ou sem se submergir no submundo dos interesses privados, as candidaturas se tornam praticamente inviáveis.

A marionete de Washington

Há alguns anos, Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima é exaltada nos Estados Unidos e na Europa com prêmios e microfones abertos para sua verborragia. Iminente “líder mundial”, promotora da “Nova política”. Suas falas vazias, um desesperador ziguezague de ideias soltas, são reproduzidas como espetaculares contribuições para a construção de “um mundo diferente”. Integra o movimento internacional denominado “Terceira Via”, que no Brasil agora vem assumindo a denominação de “Nova Política”.

Como uma Dalai Lama amazônica, igualmente celebrada pelos patrões em Washington, Marina Silva enche de encanto os corações de Barack Obama, Bill e Hillary Clinton, dos “esquerdistas” ou “socialistas” Tony Blair, Lionel Jospin e François Hollande, e de grandes especuladores como George Soros. Graças a essa “anorexia ideológica” (4), também dialoga com Gerhard Schroeder, com o jovem primeiro-ministro italiano Matteo Renzi e o nazi-israelense Ehud Barak. Fernando Henrique Cardoso e Ricardo Lagos também são prestigiados membros fundadores dessa conservadora confraria.

A candidata de Obama reúne uma equipe que congrega diversos personagens da era Cardoso e do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Destacam-se os economistas neoliberais André Lara Resende (banqueiro fantasma) e Eduardo Giannetti da Fonseca (Instituto Brasileiro do Mercado de CapitaisIbmec), o “ex-esquerdista” e anticomunista Alfredo Sirkis, o ex-PSDB Walter Feldman, a “ambientalista” Muriel Saragoussi (articuladora com a Fundação Ford) e o grande milionário Guilherme Leal (co-presidente do Conselho e dono de 25% das ações da empresa Natura, que foi candidato à vice-presidente de Marina, nas eleições de 2010).

Com relação à política econômica, os economistas ultraliberais conservadores propõem reforçar o “tripé macroeconômico”, que estaria “muito frágil”. Estão avisando antes, para que não haja surpresas. A promessa de “independência do Banco Central” é uma bênção ao mercado financeiro e à organizadora de seu programa de governo, a Boneca Setúbal, herdeira do banco Itaú e figura destacada nos eventos da hig society. A magnata é responsável por desembolsar mais de 80% do patrimônio milionário do Instituto Marina Silva, trampolim para a realização de conferências sobre a “Nova Política Global” e o “Desenvolvimento sustentável”.

No que se refere à região, a política de Marina é clara: desestimulará a consagrada política integracionista do PT e apostará na desintegração, via implosão da iniciativa mais promissora desde 2003: o MERCOSUL. Há nãos, o bloco ultrapassou a perspectiva meramente comercial e incluiu elementos políticos e sociais em sua agenda, além de representar a aposta brasileira pela consolidação de um mecanismo de integração que abarca as regiões Andina e do Caribe. A proposta da candidata de Obama é a de “flexibilizar o MERCOSUL”, permitindo que cada país assine Tratados de Livre Comércio (TLC) separadamente, sem acordo com os demais. Trata-se de uma proposição aterradora, sobretudo quando o Uruguai e Paraguai, países menos beneficiados, ameaçam se aproximar dos Estados Unidos, da União Europeia, da China ou da Aliança do Pacífico. Na prática, a possibilidade de cada país atuar sozinho representaria a eliminação da Tarifa Externa Comum (TEC) e, na prática, acarretaria o fim do bloco (5).

Candidata de Lula versus candidata de Obama

É importante ressaltar que todas as acusações sobre os vínculos de Osmarina com a direita talvez soem um pouco “frágeis”, se comparados com a lamentável postura assumida pelo PT. É importante dizer que as três candidaturas são realmente parecidas, ainda que Dilma – apesar dos sérios erros – não seja conservadora, nem de direita como os outros personagens preferidos por Washington. Ainda que o risco de que ocorra alguma transformação radical no Brasil pelas mãos do PT seja muito pequeno, ou inclusive nulo, tanto a política imperial como a elite brasileira preferem qualquer uma das outras duas opções.

Resumidamente, pode-se afirmar que a “esquerda histórica” está ao lado de Dilma. Aí se incluem o PDT e o PCdoB, hoje bastante modificados. O PMDB (a frente de centro-esquerda que derrubou a ditadura militar nos anos 1980) também está com Dilma – é o partido do vice-presidente. Está com Dilma assim como esteve com Lula, com Cardoso, com Itamar Franco e com Fernando Collor de Mello. Sempre esteve e sempre quer estar. Esse, que é o maior partido do Brasil em número de deputados, senadores, prefeitos e vereadores, já não tem quase nada da combatividade de trinta anos atrás. Possui dinheiro para a campanha e tempo para os anúncios ou programas de rádio e televisão.

Como costuma acontecer, os partidos pequenos de “esquerdas” lançaram candidatos próprios, separados. A muito nobre e digna atitude ilustra, no entanto, o tradicional fenômeno de “esquerda desagregada”. Continuam brigando e se dividindo, entre outras razões, por causa dos intermináveis debates, interpretações e discussões sobre as posturas de Trotsky, Stalin, Mao, Tito, Fidel e o Che. Somando o PSTU, o PCO, o PCB e o PSOL, talvez se chegue a 2% do total de votos.

Marina não tem partido. Com a morte de Campos tomou de assalto o PSB, que é uma caricatura do partido de esquerda que foi há algumas décadas. A candidata conta com o apoio de agremiações de centro-direita e de pequenos partidos que estavam com Dilma e a deixaram por divergências. Os leitores não brasileiros podem se confundir. Por um lado, é um grande eufemismo que o PT seja o partido dos “trabalhadores”. Contudo, por outro lado, o caso do PSB é claramente uma brincadeira. Há muitos anos, mas ainda mais hoje, sob o manto de Osmarina, não se trata de um partido “socialista”.

Por fim, vale recordar que as condições de queda do avião do candidato Eduardo Campos não apenas não foram explicadas, como dificilmente serão nos próximos anos. Estranhamente, a caixa preta da aeronave não gravou nenhuma conversa do último voo. Para maior surpresa, autorizou-se que “especialistas” do National Transportation Safety Board (NTSB), dos Estados Unidos, participassem das investigações. Seja como for, tratando-se de um assassinato promovido pela CIA ou de um simples acidente muito benéfico para o imperialismo e a elite brasileira, até agora quem ganhou foram os Estados Unidos e a sua nova candidata. Sua imprevista vitória eleitoral, sonho da administração Obama, seria um pesadelo para o povo brasileiro, para o MERCOSUL, a UNASUL e a CELAC.

Além disso, tal revés representaria um forte giro à direita na região, muito perigoso para a continuidade dos processos de mudança, impactando duramente sobre Argentina, Bolívia, Equador, Uruguai e Venezuela. Sem dúvidas, ao mesmo tempo representaria um importante apoio para as administrações liberais e conservadoras pró-Estados Unidos da Colômbia e Paraguai. Serviria, inclusive, para consolidar a dupla postura dos governos do Chile e Peru.

É certo que muitos de nós se encontram insatisfeitos, incrédulos e com sentimento de impotência diante das eleições. Porém, apesar da tentação criada por algumas mentes iluminadas que sugere que “quanto pior melhor”, a história deve caminhar sempre para frente. O aparente estado atual de apatia e engano não pode ceder espaço à destruição de tudo o que foi duramente alcançado nos últimos doze anos. São os povos que sentem, pagam, vivem e escrevem a história.

Com a queda do avião de Campos, os meios de comunicação e as pesquisas privadas inventaram um suposto ambiente de comoção nacional, tentando arrastar a disputa para um segundo turno, no dia 26 de outubro. Hoje, o confronto mais provável é entre as duas mulheres, a candidata de Lula versus a candidata de Obama. Será a peleja entre dois caminhos distintos. O primeiro, do PT e aliados, encarna imensas contradições e se debate entre o “neoliberalismo retardado” (com a volta ao passado) e o “keynesianismo periférico envergonhado” (um possível passo para o futuro). Confronta as opções de abandonar definitivamente o acumulado desde 2003 ou de continuar avançando a passos lentos. Parece que, com Dilma, haveria muito mais espaço para a luta política e social nos próximos anos. O segundo caminho é o do “neoliberalismo insolente”, de Marina. É a alternativa apresentada por Washington e abraçada por nossa elite.

O resultado impactará de forma contundente sobre o futuro. Dilma talvez represente pouco em termos de melhorias. Por outro lado, Marina representaria um imenso retrocesso para nossos países e povos.

Notas

2. Aproveitamos para recomendar a leitura da recente entrevista com o professor Carlos Lessa, da UFRJ, denominada: “Brasil: Impossível pensar o futuro sem discutir a geopolítica mundial”. O economista afirma que “pelo menos três dos grandes países periféricos do mundo possuem projetos nacionais claros, enquanto o Brasil não”.

3. Sugere-se a leitura de nosso artigo: “ICIA na América Latina”, publicado em maio de 2013. O texto argumenta que “As bandeirinhas da ICIA (‘Inflação’, ‘Corrupção’, ‘Insegurança’ e ‘Autoritarismo’) formam o quadrilátero reacionário, oligárquico e de direita, que orienta os discursos e as ações de uma parcela das oposições da região”.

4. A expressão foi utilizada em 2010, por José Luís Fiori, no texto “Requiescat in Pace”, para apresentar a morte da “Terceira Via”.

5. Sugere-se a leitura de dois textos recentes, publicados em setembro de 2014, por importantes agentes da política externa do Brasil: “Samuel Pinheiro Guimarães: Estados Unidos apostam em Marina” e “Marco Aurélio Garcia critica propostas de política externa de Marina”. As análises também preveem que a candidata de Obama, seguindo orientações superiores, aplicaria medidas de redução do papel dos BRICS.

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