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Por: André | 15 Setembro 2014

Com seminários e um espaço para pesquisa, a nova cátedra propõe-se a indagar a filosofia e a política a partir do pensamento de Ernesto Laclau, falecido este ano. A primeira atividade foi uma conferência de Chantal Mouffe.

 
Fonte: http://bit.ly/ZjJn6h  

A reportagem está publicada no jornal argentino Página/12, 12-09-2014. A tradução é de André Langer.

“Atualmente, uma política de esquerda tem que pensar-se como populismo de esquerda. Uma articulação de demandas coletivas que constituam um ‘nós’”, defendeu a filósofa belga Chantal Mouffe em uma conferência que deu na Faculdade de Filosofia e Letras da UBA. A conversa marcou o início da Cátedra Livre Ernesto Laclau, com quem Mouffe esteve casada e com quem introduziu a corrente pós-marxista no campo da filosofia política a partir da década de 1980.

A nova cátedra, a cargo de Paula Biglieri e Gloria Perello, foi criada após o falecimento de Laclau, em abril passado, e se propõe a continuar o pensamento do autor de A razão populista. Para isso tomou o formato de cátedra livre e, segundo garantiram os professores ao jornal Página/12, contará não somente com seminários de formação, mas, além disso, buscará criar um espaço para a pesquisa. A cátedra é composta pela equipe que trabalhou com Laclau nessa faculdade e que edita a revista Debates Y Combates, também idealizada pelo filósofo. O objetivo será abordar, nesse espaço, a filosofia política contemporânea a partir da perspectiva de Laclau.

Paixões e afetos foram o eixo da conferência de Mouffe, primeira atividade da cátedra. Sua presença nestes dias na Argentina serviu para realizar, possivelmente, o lançamento mais adequado da nova cátedra. Junto com Laclau, Mouffe é autora de Hegemonia e estratégia socialista, obra que marcou o início de uma corrente pós-marxista ao introduzir alternativas para pensar a esquerda em um mundo onde o Muro de Berlim encontrava-se prestes a cair e o socialismo “real” a ponto de se desintegrar com a União Soviética.

Política e paixões. Como mobilizar afetos em uma direção democrática” foi o título da aula da filósofa, destinada sempre a refletir, assim como diz um dos seus livros, em torno do político, um âmbito que se caracteriza pela existência de conflitos que não têm solução racional. Sem afastar-se da proposta original que manteve com Laclau sobre o termo “antagonismo” (um confronto colocado em termos de amigo-inimigo), Mouffe preferiu centrar-se na linha que segue há algum tempo e que surgiu como uma “reflexão posterior alimentada pela perspectiva teórica de Hegemonia e estratégia socialista”.

Falou então do agonismo, a construção de um “nós” sempre em disputa com um adversário, que já não constitui um inimigo a ser destruído, como no caso do antagonismo, mas que é reconhecido como um oponente legítimo.

“O confronto agonista, longe de representar um perigo para a democracia, é, na realidade, a condição mesma da sua existência. Sem dúvida, a democracia não pode sobreviver sem certas formas de consenso, mas também deve permitir a expressão agonista do conflito, que requer que os cidadãos tenham a possibilidade genuína de escolher entre alternativas”, disse a filósofa.

Contra uma concepção racional da política, Mouffe voltou a falar da ideia das paixões e seu papel na esfera pública, para o que considerou “essencial” uma distinção do termo sobre as emoções. “Meu enfoque foi elaborado com relação ao âmbito político, e um dos princípios centrais é que neste âmbito sempre estamos tratando com identidades coletivas, algo que o termo emoções não expressa de maneira adequada, porque se refere ao indivíduo”, assinalou.

“Paixões – continuou Mouffe – permite destacar a dimensão de conflito e sugerir um confronto entre ideias polêmicas coletivas, dois aspectos constitutivos da política”.

Nesse sentido, a filósofa considerou que, dentro deste modelo de democracia, a dimensão afetiva cobra um papel fundamental, porque os afetos constituem as paixões coletivas e podem ser mobilizados dentro de um esquema democrático.

“Não basta criar afetos, mas também é preciso ver como articulá-los”, pontualizou. Dessa maneira, assinalou que, para uma transformação na esfera pública, é necessário ultrapassar a mera ideia de movimento, como são os casos dos Indignados na Espanha ou o Ocuppy nos Estados Unidos.

“Como é possível fazê-lo?”, perguntou-se Mouffe. “Uma política contra-hegemônica necessita da criação de um regime diferente de desejos e afetos, com a finalidade de produzir uma vontade coletiva capaz de desafiar a ordem existente. Isso é a mobilização das paixões”, enfatizou a filósofa. Finalmente, advertiu: “Seria trágico para a esquerda e para o futuro da democracia abandonar esse terreno apenas aos movimentos populistas de direita”.

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