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11 Setembro 2014

Desde que romperam os escândalos de abuso sexual na Igreja Católica a quase uma década e meia atrás, um modo clássico de negação deles no Vaticano e ao redor do mundo católico tem sido considerar a crise como um “problema americano”.

Quando uma alta autoridade vaticana veio a público, pela primeira vez, em 2002 falar sobre os casos de abuso, a maioria das perguntas lhe foram feitas em inglês. O cardeal colombiano Dario Castrillon Hoyos, irritado, chamou a ocasião de um “raio-x” do problema, com o que queria dizer que era basicamente uma questão americana.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 10-09-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Tanto em voz alta quanto de forma reservada, em privado, alguns homens da Igreja em Roma e em outras partes do mundo disseram, por vezes, que, embora o abuso de menores seja condenável, a ideia de uma “crise”, e a necessidade por medidas contundentes para combatê-lo, vem sendo impulsionada pela cultua midiática sensacionalista e pelo sistema judicial controverso dos EUA e da maioria dos países que estão na sua esfera de influência.

Numa entrevista recente ao sítio Crux, o cardeal Timothy Dolan, de Nova York, conformou que este preconceito ainda continua vivo.

“Achamos muito desmoralizante ouvir de outros bispos em outras partes do mundo, até mesmo de líderes em Roma, que ainda pensam ser este um problema anglo-saxão”, disse Dolan, acrescentando que alguns de seus bispos companheiros consideram a questão dos abusos como se fossem restritos aos “EUA, à Inglaterra, Irlanda e Austrália”.

O que quer dizer, então, o fato de o Papa Francisco ter decidido confiar a americanos três dos mais dos cargos mais importantes em seus esforços na luta contra os abusos?

Na quarta-feira (10-09-2014) o Vaticano anunciou que o Pe. Robert Oliver, da Arquidiocese de Boston, foi nomeado secretário da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores criada pelo pontífice em dezembro de 2013, e que o Pe. Robert Geisinger, padre jesuíta que trabalhou na Arquidiocese de Chicago, fora nomeado como o novo promotor de justiça da Congregação para a Doutrina da Fé, com a responsabilidade de processar padres acusados de abusos com base no direito canônico.

Ao mesmo tempo, o Vaticano confirmou que o cardeal Sean P. O’Malley, de Boston, é o novo presidente da Pontifícia Comissão. (Honestamente, a maioria das pessoas já sabia que este já era o cargo do cardeal O’Malley, ainda que oficialmente ele vinha sendo descrito apenas como um membro do organismo.)

Para dizer de forma bem clara: todos os três nomeados são líderes reconhecidos da ala reformista da Igreja que trata da crise dos abusos sexuais.

Oliver atuou por pouco tempo junto ao cardeal Bernard Law, em Boston, o qual renunciou em desgraça por descuidar das acusações de abuso. Oliver foi criticado por alguns grupos de vítimas na época por não ter publicamente aderido à pressão pela renúncia de Law.

Junto ao cardeal O’Malley, no entanto, Oliver desempenhou um papel central na criação e, em seguida, no reforço de políticas para evitar casos de abuso. Por vezes outras dioceses o consultam no intuito de responder adequadamente aos seus próprios casos de abuso.

Desde 2012 Oliver esteve no cargo de promotor de justiça, hoje ocupado por Geisinger, e que esteve trabalhando, nos bastidores, como o chefe de gabinete para a nova Comissão.

Geisinger era o procurador geral da Companhia de Jesus desde 2001, o que o tornava o canonista número um para o Superior Geral jesuíta em Roma. Ele possui boa reputação como especialista em direito canônico e tem atuado, desde o começo, na linha de frente da crise dos abusos sexuais.

Posso garantir que quando os repórteres em Roma precisavam de um curso intensivo de direito canônico no começo da década de 2000, à medida que a crise juntava forças, Geisinger foi, muitas vezes, quem – com paciência e de forma convincente – explicava como o sistema jurídico da Igreja funciona e como os bispos poderiam estar usando-o para lidar com as acusações de abuso.

Geisinger é conhecido por manter uma ética de trabalho prodigiosa, o que lhe cairá bem dado o percebido ritmo lento em que andam, em Roma, os pedidos de expulsão de abusadores do sacerdócio.

Na entrevista publicada no sítio Crux, Dolan disse que os bispos “ficam com medo” com a falta de celeridade com que os casos são lidados.

O’Malley, evidentemente, é praticamente o rosto público das iniciativas de reforma em Roma. Embora alguns grupos de vítimas façam várias críticas a com base em partir de seu histórico, o cardeal é, não obstante, o prelado católico mais identificado com a causa da reforma, e não apenas nos EUA mas em quase todo mundo.

É revelador que quando o superior italiano da ordem religiosa de O’Malley – os capuchinhos – recentemente quis propor um novo conjunto de políticas antiabuso, percebeu que poderia encarar a resistência de outras partes do mundo apenas tendo o apoio de O’Malley – e, com o aval do cardeal, a ordem religiosa adotou as políticas.

Diante destas três nomeações, Francisco está deixando claro o seu compromisso para com as reformas. No entanto, há também uma questão probabilidade aqui presente.

A possível vantagem é a de que estas escolhas enviem um sinal de que a abordagem chamada “tolerância zero”, adotada primeiramente pelos bispos americanos, é agora uma política papal praticamente, e que as conferências episcopais e as ordens religiosas ao redor do mundo não têm escolha senão seguir a liderança dos americanos.

No entanto, por mais insatisfatória que a resposta de alguns bispos americanos aos casos de abuso possam, de fato, parecer, a maioria dos observadores dizem que o problema tem sido o fracasso em aplicar a política, e não a abordagem em si, que é considerada pelos católicos em geral como sendo a mais incisiva e abrangente dos livros.

Por outro lado, o risco é que colocar os americanos nestas funções irá cementar o preconceito de que este desafio – o dos abusos clericais – não são realmente globais, mas algo que se aplica, em sua maior parte, aos países de língua inglesa, onde estas autoridades têm os melhores contatos e, presumivelmente, exercem maior influência.

Oliver diz que uma tarefa imediata a ser cumprida pela nova Comissão é alinhavar os participantes advindos dos países em desenvolvimento, ou seja, da África, Ásia e América Latina. Isso provavelmente se faz ainda mais urgente agora, para deixar claro que o Papa Francisco quer a Igreja inteira envolvida, e não apenas a parcela anglo-saxão dela.

As escolhas do papa por estes líderes americanos constituem um jogo de apostas, e agora as vítimas de abusos clericais, seus familiares e amigos, e todo mundo preocupado com a proteção das crianças irão estar observando de perto para ver se elas valerão a pena.

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