"São meninos negros e pobres, em sua maioria. Tem alguma coisa errada aí, não?", afirma diretora do filme De Menor

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Por: Jonas | 05 Setembro 2014

Um adolescente de classe média é tratado da mesma forma que um pobre quando é pego cometendo um crime? A diretora Caru Alves de Souza trata sobre esta questão no longa de ficção De Menor, que estreia nesta quinta-feira (4) nos cinemas. Na história, a advogada recém-formada Helena (Rita Batata) divide seu tempo entre cuidar do irmão Caio (Giovanni Gallo), de quem é tutora, e a defesa de jovens infratores no Fórum de Santos. Tudo desmorona quando o irmão é acusado de um delito. Com participação de Caco Ciocler como juiz, o filme não trata diretamente sobre a redução da maioridade penal, mas leva a uma inevitável e consistente reflexão sobre o tema.

O filme nasceu a partir das histórias que Caru ouvia da prima, que era defensora da Vara da Infância e da Juventude de Santos. Para fazer seu primeiro longa-metragem, a filha da também cineasta Tata Amaral frequentou, entre 2007 e 2008, audiências de casos que envolviam jovens infratores na cidade de Santos. A diretora pôde confirmar o que já sabia: os adolescentes que passaram pelas audiências eram quase todos pobres, negros ou pardos.

Em tempos de campanha eleitoral (e para além dela), o que Caru espera com De Menor é contribuir com um debate construtivo sobre a redução da maioridade penal. Apesar de o filme não tratar diretamente sobre o assunto, fica clara a posição da cineasta. “Eu não podia ficar em cima do muro, tinha de tomar partido. (...) Eu espero que o filme seja matéria-prima para o debate e que as pessoas comecem a olhar para essa questão de uma maneira mais generosa. É uma questão de classe e de raça, sim. Existe um componente racista ali que é muito forte. São meninos negros e pobres que estão lá, em sua maioria. Tem alguma coisa errada aí, não?”, questiona a cineasta.

A entrevista é de  Xandra Stefanel, publicada pela Rede Brasil Atual, 04-09-2014.

Eis a entrevista.

Como nasceu a ideia de De Menor?

A história nasceu a partir das histórias que minha prima, que era defensora da Vara da Infância e da Juventude de Santos, me contava, sobre meninos e meninas que passavam pelo Fórum. Na verdade, o que me interessou muito foi o jeito que essa realidade estava mudando o olhar da minha prima, que vinha de uma realidade social muito diferente da dos meninos. Ela começou a olhar com generosidade para aquela realidade social. O filme nasceu disso: do embate entre duas realidades sociais diferentes. Ao longo do tempo, eu quis encurtar essa diferença botando o drama dentro da própria família da defensora, no caso do filme.

Como foi o processo de pesquisa?

Quando eu comecei a fazer a pesquisa, em 2007 e 2008, eu já sabia um pouco o que era esse o quadro social dos meninos e meninas que estavam no fórum. Fiquei semanas indo em todas as audiências e pude comprovar, o que eu mais ou menos já sabia, que os meninos e meninas que iam para lá eram de origem pobre, quase todos negros ou pardos. Eu quis fazer uma história que discutisse esta questão de alguma forma.

Você quis contrapor as duas realidades de infratores adolescentes: dos meninos pobres e de um de classe média. Por quê?

Na verdade, enquanto eu estava fazendo a pesquisa, não teve nenhum caso de um menino da classe média. Mas fiquei me perguntando o que aconteceria se um menino da classe média entrasse em uma audiência. Haveria uma quebra de paradigma? Esse menino seria tratado diferente? Não seria? Como seria, partindo do pressuposto que a justiça é excludente e escolhe um lado. Isso eu comecei a perceber a partir de notícias de jornal mesmo. Um menino pobre e negro é pego com um Pinho Sol e está condenado a cinco anos de 'prisão', enquanto o filho do Eike Batista atropela e mata um cara e está solto, até onde eu sei. Além disso, eu quis trazer esse drama para dentro da casa da personagem, para fugir um pouco da menina que é simplesmente uma idealista e que quer ajudar o próximo... Quis trazer isso para ela: o que ela faria se fosse com o irmão dela?

E ela acaba usando o privilégio de classe na situação do irmão

Sim. Mas ela usa com os outros também. O problema é que ela não consegue se distanciar. Isso é uma coisa que percebi muito quando eu estava nas audiências. Muitas mães não enxergavam o que os filhos estavam fazendo, algumas entravam em um processo de negação muito grande. “Não é meu filho. É influência de alguém...” E não assume a responsabilidade do filho quando ele realmente cometeu algum delito. Aí elas não conseguem lidar com a situação do jeito que deveriam. Isso para mim foi muito chocante.

Teve algum caso que te tocou mais durante a pesquisa?

Todos eram muito parecidos entre si, pelo menos na época que eu estava lá. É muito louco porque as situações são muito as mesmas.

Que tipos de situação?

De abandono, de o menino ir para o fórum e a mãe e o pai estarem ausentes, muitas vezes os pais são usuários de drogas, são meninos que moram sozinhos desde adolescentes... Tem uma situação de abandono que para mim foi muito forte, tanto que no filme todos os meninos não têm mãe. Mas o que eu achei uma loucura era quando ia uma testemunha falar das 'atrocidades' que eles tinham feito. Quando eles entravam para dar depoimento, era muito clara a situação de fragilidade. Você via realmente que se tratava de uma criança ou de um adolescente que estava lá e não aquele monstrinho que a sociedade gosta de pintar. Para mim, ficou muito claro que se tratava de adolescentes e que deveriam ser tratados como tal e ter um cuidado especial, que é exatamente o que está no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). No meu entendimento, a sociedade não entende dessa maneira.

É por isso que o tema da redução da maioridade penal sempre volta à tona...

Esta questão da redução da maioridade penal, apesar de não estar no filme, foi determinante para fazer o filme desta maneira. Eu falei: 'Eu não posso ficar em cima do muro, tenho de tomar partido. Se eu ficar em cima do muro, eu colaboro com essa visão turva da sociedade. No filme, o tempo todo tem a questão da dúvida. Apesar de que ninguém duvida que o Caio tenha cometido o crime, ele nunca confessa. Dá para pensar que ele não fez mesmo. A sociedade não coloca em dúvida. Ela vai lá e julga: 'Esse menino é um monstro, ele tem de ir para a cadeia'.

Mesmo seu filme não sendo sobre isso, ele toma uma posição clara contra a redução da maioridade penal. Como você acha que ele contribui para esta discussão, especialmente neste período de campanha eleitoral?

Eu espero que ele seja matéria-prima para o debate e para que as pessoas comecem a olhar para essa questão de uma maneira mais generosa e como ela é. É uma questão de classe e de raça. Existe um componente racista ali que é muito forte. São meninos negros e pobres que estão lá, em sua maioria. Tem alguma coisa errada aí, não?

Essa questão volta sempre à tona quando um adolescente comete algum crime em que a vítima é de classe alta

Sim, e a televisão ajuda muito, eu tenho visto isso desde que eu comecei a trabalhar com o filme. Existe um crime hediondo, tem quatro adultos e um adolescente, eles não deixam de citar que um era adolescente e qual foi a participação dele. Então, a mídia ajuda muito a formar essa opinião pública a favor da redução da maioridade pena. Esta é sempre a solução e ninguém fala sobre tratar o problema pela raiz, promover uma maior distribuição de renda, acabar realmente com o racismo, criar mecanismos para que o racismo realmente seja eliminado da sociedade, começar a trabalhar essa questão de verdade. Todo mundo diz que a gente não é um país racista, mas na verdade as bases ainda estão por aí e quando a gente olha para essa questão, dá para entender. Espero muito, de verdade, que o filme seja matéria-prima para começar um debate sério sobre isso.

De Menor não é seu primeiro trabalho que trata sobre juventude. Por que este tema te move?

Eu ainda não tenho essa resposta... Realmente é um tema que me move. Meu primeiro curta, Assunto de Família, foi sobre um menino que está descobrindo sua sexualidade dentro de um ambiente muito machista e a sexualidade dele passa pela homossexualidade. O segundo curta, mais infantil, é sobre uma menina que tem uma estrutura familiar precária e tem de ficar sozinha em casa enquanto a mãe trabalha. E os próximos filmes também. No próximo longa, Bagdá, os personagens são jovens skatistas. As histórias, para mim, surgem meio que intuitivamente e também através de uma aproximação temática. Em cada filme, eu discuto algum tema que eu acho que é importante e surge a partir da minha observação da realidade. Mas acho que esta questão da juventude talvez seja para lidar com protagonistas que têm a capacidade de transformar a sociedade de alguma maneira. Talvez daqui a um tempo eu tenha mais clareza.

Todos os seus filmes também têm fortes componentes sociais, não?

Têm. Acho que sempre vai ter. Para mim, a arte é um ato político, tem de ser. Se não, para mim não vale a pena fazer. Eu sou formada em História, então não tenho como não ter uma visão crítica da realidade, do passado, do presente e do futuro. Eu nem sei como é fazer um filme que não tenha isso, não consigo nem vislumbrar. Na verdade, acho que todo filme é político, de uma maneira ou de outra, mesmo os de Hollywood. Principalmente eles.

Você tem planos de exibir o filme em periferias?

Eu já estou armando isso, de passar o filme nas periferias, armar com os CEUs, cineclubes de periferia... Estamos planejando sessões na própria defensoria, promotoria e nos Cedecas. Isso estava pensado desde que eu comecei o filme: ele não pode ficar só no cinemas de shopping, do centro. Eu quero que o filme se espalhe o máximo que ele puder.

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