Crônica de um suicídio anunciado

Revista ihu on-line

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Clarice Lispector. Uma literatura encravada na mística

Edição: 547

Leia mais

Mais Lidos

  • Rico ri à toa

    LER MAIS
  • Charles Chaput, arcebispo emérito da Filadélfia, chama o Papa Francisco de mentiroso

    LER MAIS
  • No caminho do Reino com Pe. Zezinho, scj - Resenha

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


25 Agosto 2014

"O quadro se deteriorou a partir de maio de 1954, quando ele desafiou as forças conservadoras ao decretar a duplicação do salário mínimo. No discurso em que fez o anúncio, Getúlio ainda espicaçou seus críticos ao saudar João Goulart, ex-ministro do Trabalho, que fora afastado justamente depois de tentar aprovar essa medida", escreve Oscar Pilagallo, jornalista e autor de "A História do Brasil no Século 20", em artigo publicado pelo jornal Valor, 22-08-2014.

Eis o artigo.

O suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, foi uma decisão gestada em pelo menos um quarto de século, o período em que, como revolucionário, ditador, eleitor decisivo e presidente consagrado nas urnas, ele deu as cartas na política brasileira. No terceiro volume da biografia do líder mais influente da República, Lira Neto mostra que, há 60 anos, ao puxar o gatilho do seu Colt calibre 32, ele punha em prática a alternativa várias vezes descartada desde o dia em que foi catapultado para a cena nacional.

"Quando confrontado com situações-limite", escreve o autor, "já dera sinais de que a hipótese de autoimolação seria, no seu entender, a única forma de responder com alguma decência aos agressores." Lira Neto procura entender sua motivação: "Não se tratava da ideia fixa de um homem depressivo. Para Getúlio, a possibilidade do sacrifício pessoal era relacionada a uma questão de brio, de preservação da honra, de um sentido heroico de posteridade".

Seguindo trilha aberta pela pesquisadora Maria Celina D'Araujo, em texto publicado por ocasião dos 50 anos da morte de Getúlio, o biógrafo calça a conclusão num histórico de bilhetes, anotações e cartas.

O primeiro registro de "teor abertamente fatalista" foi redigido no seu diário em 3 de outubro de 1930, data da eclosão do movimento civil-militar por ele liderado, que pôs fim a quatro décadas de política oligárquica da Primeira República. Naquele dia, Getúlio escreveu: "Sinto que só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso".

A menção seguinte seria feita dois anos mais tarde, em 10 de julho de 1932, um dia depois do início da Revolução Constitucionalista de São Paulo. Sentindo-se traído, Getúlio anotou, no esboço de uma provável carta de despedida, que se não pudesse morrer como soldado, em razão da "ignomínia duma revolução branca", escolheria "a única solução digna para não cair em desonra, nem sair pelo ridículo". Para Lira Neto, "a mensagem apontava para um gesto de resistência ativa, na qual a apresentação do próprio cadáver funcionaria como a melhor insígnia de altivez e coragem".

Dez anos depois, em plena Segunda Guerra, o então ditador voltaria a considerar o suicídio, na avaliação do biógrafo. Em 19 de janeiro de 1942, Getúlio garantiu, a um representante dos Estados Unidos, que o Brasil usaria sua posição estratégica na América Latina para conter uma possível invasão nazista no continente. E disse ao interlocutor, de acordo com seu diário: "Nessa decisão eu jogava minha vida, porque não sobreviveria a um desastre para a minha pátria".

Com tais precedentes, Getúlio poderia muito bem ter pensado mais uma vez em tirar a própria vida em 1945, depois da humilhação de ter sido deposto. Pelo menos, essa é a hipótese de Lira Neto, construída a partir de uma solicitação de Getúlio à filha Alzira, de que lhe enviasse do Rio para a estância gaúcha em que se exilara dois frascos de um tranquilizante que, em dosagem alta, poderia ter efeito letal.

Olhados em retrospectiva, esses eventos ajudam a entender a decisão de Getúlio de se matar com um tiro no peito. Não foi um gesto impensado, uma atitude desesperada tomada no calor da hora. Ao contrário, ele teria mentalmente se preparado para esse fim.

Em agosto de 1954, como acontecera nas situações anteriores, Getúlio vivia novamente a perspectiva de ser escorraçado do poder, em decorrência de um acúmulo de acusações que iam de casos de corrupção à responsabilidade por um assassinato.

Erguendo a bandeira do trabalhismo, o presidente enfrentava uma oposição feroz dos liberais desde que, em 1950, foi reconduzido à chefia do governo. Mas o quadro se deteriorou a partir de maio de 1954, quando ele desafiou as forças conservadoras ao decretar a duplicação do salário mínimo. No discurso em que fez o anúncio, Getúlio ainda espicaçou seus críticos ao saudar João Goulart, ex-ministro do Trabalho, que fora afastado justamente depois de tentar aprovar essa medida.

Na sequência, o presidente enfrentou um pedido de impeachment na Câmara dos Deputados e, mais grave, a intensificação dos ataques histriônicos de Carlos Lacerda, a voz mais audível da UDN (União Democrática Nacional), com direito a palanque numa das principais rádios do Distrito Federal, na qual reverberava os artigos virulentos que escrevia em seu jornal, a "Tribuna da Imprensa".

O calvário de Getúlio começou em 5 de agosto, quando Lacerda foi alvo de um atentado em que morreu o major da Aeronáutica Rubens Vaz, um dos jovens oficiais que voluntariamente faziam a segurança do jornalista. Ainda com um pé sangrando do tiro que o alvejou, Lacerda escreveu sobre Getúlio: "Ele é o responsável intelectual por esse crime".

As primeiras investigações identificaram que os tiros haviam sido disparados por um pistoleiro contratado por um integrante da guarda pessoal do presidente, que, para piorar, era compadre de Gregório Fortunato, responsável por sua segurança. Embora Getúlio não estivesse a par do plano do atentado, a conexão entre o assassino e o Palácio do Catete, a sede do governo, estava feita.

Nos dias seguintes, o noticiário foi dominado pelas investigações realizadas na Base Aérea do Galeão, e não nas instâncias normais da Justiça, uma vez que a vítima fatal pertencia à Aeronáutica. Os investigadores agiam com tamanha independência que a base passou a ser chamada de República do Galeão.

Getúlio previu o pior. Em 13 de agosto, escreveu o que parecia um bilhete de suicida. "Deixo à sanha dos meus inimigos o legado da minha morte", anotou à mão. O texto foi parar nas mãos de Alzira, que o interpelou. Getúlio desconversou, disse que aquilo era só "um desabafo".

A carta que estava na mesa era a renúncia exigida pela cúpula militar. Getúlio não tinha nada nas mãos para contrapor aos adversários. No dia 23, a "Última Hora", único jornal que o apoiava, deu na manchete uma declaração sua: "Só morto sairei do Catete!"

A promessa seria cumprida na manhã do dia seguinte, depois de uma noite sem dormir, quando fez, numa reunião com o ministério, uma última tentativa de reverter o desfecho. Derrotado, recolheu-se aos seus aposentos e, num gesto ensaiado havia muito tempo, apontou o revólver contra o coração.

Veja também:

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Crônica de um suicídio anunciado - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV