''O Vaticano passou do moralismo à moral internacional''

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20 Agosto 2014

O Papa Francisco pediu à ONU no dia 10 de agosto que "faça de tudo" para pôr fim às violências contra os cristãos e contra outras minorias no Iraque. Deste modo, o Vaticano parece aprovar uma ação militar, analisa o cientista político François Mabille.

A reportagem é de Henrik Lindell, publicada no sítio da revista La Vie, 14-08-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

François Mabille é cientista político especializado no estudo das relações internacionais, dos conflitos e, em particular, dos seus "atores" religiosos. Professor das universidades católicas francesas, também é pesquisador do Groupe Sociétés, Religions, Laïcités do EPHE (CNRS). Escreveu e dirigiu várias obras. Seu último livro é intitulado La longue transition du catholicisme (Ed. du Cygne, 2014).

Eis a entrevista.

O Vaticano aprova uma ação militar no Iraque para defender os cristãos e os yazidi?

Sim. O representante permanente da Santa Sé na ONU, Dom Silvano Tomasi, declarou que uma ação militar poderia ser necessária. Não podemos pensar que ele não tenha falado disso com o papa, que, por sua parte, pediu que a ONU "faça de tudo" para proteger os cristãos e os yazidi. Acho que se trata de uma moral da extrema urgência.

Trata-se de uma mudança da política da Santa Sé, normalmente tão prudente?

Sim. Em geral, a Santa Sé se limita a lembrar os grandes princípios morais. Mas, neste caso, passa-se do moralismo à moral internacional. Isso quer dizer que a Santa Sé não faz senão lembrar que é preciso a paz, o perdão, a reconciliação e o diálogo, e sobre isso todos estão de acordo. Ela diz claramente que é preciso de uma "solução política", que poderia implicar a opção de uma intervenção militar.

Esse gesto mostra, a meu ver, que a diplomacia está no caminho de uma renovação. E sobrevém depois de outro ato importante: a tentativa de mediação no conflito no Oriente Médio por parte do papa, que pediu que os chefes de Estado israelense e palestino fossem a Roma para rezar.

Certamente, o Vaticano age de acordo com a tradição da Igreja Católica, que é a da chamada doutrina da guerra justa. Mas se assiste a uma ruptura em relação aos 20 anos de ausência de uma tomada de posição clara no plano internacional. Podemos pensar nos apelos do Papa João Paulo II em 1992 e em 1993 em favor de uma "intervenção humanitária", à época nos Bálcãs. Depois disso, houve poucas tomadas de posições desse tipo, antes dos acontecimentos no Iraque.

Podemos dizer, então, que a doutrina do Vaticano, a da chamada guerra justa, está evoluindo?

Sim. Na verdade, depois do Concílio Vaticano II, fala-se de legítima defesa em vez de guerra justa, porque essa expressão se refere a um passado superado. O Vaticano considera que, sob certas condições, o uso das armas para defender ou para restabelecer a paz é necessário. A sua doutrina evolui com as mudanças do direito internacional e do direito humanitário do fim do século XIX. Baseia-se na ideia de que os civis não devem ser afetados pela discriminação, que não devemos nos abandonar a represálias etc. Desde 2005, o direito internacional inclui a responsabilidade dos Estados de proteger as populações. O Conselho de Segurança poderia ser interpelado e poderia decidir por uma intervenção. A antiga noção de guerra justa é compatível com esse princípio. Portanto, o papa apela à ONU por uma intervenção.

Podemos pensar que o Vaticano reage, em particular, porque são principalmente os cristãos que são atingidos?

Essa tomada de posição se explica, sem dúvida, pelo fato de que os cristãos do Oriente estão entre os primeiros afetados. Mas, mais uma vez, eu acho sobretudo que a linha de João Paulo II e de Bento XVI, baseada no diálogo inter-religioso, mostrou os seus limites. O primeiro, reunindo a todos em Assis, queria mostrar que estamos todos unidos pela paz e mediante o diálogo e a oração. Bento XVI dizia que era necessário um diálogo baseado na razão, e que a razão devia prevalecer no diálogo. Mas, 20 anos depois, vemos que isso não basta. O diálogo inter-religioso não podia impedir violências que, dentre outras coisas, têm motivações religiosas.

A Santa Sé talvez quer pôr fim a uma certa ingenuidade? Afinal, as agressões anticristãs no Oriente não são de ontem. A declaração do cardeal Tauran, responsável pelo diálogo inter-religioso, é particularmente forte em relação aos responsáveis religiosos que não condenam a barbárie...

Eu acho que a hierarquia católica na Santa Sé se deu conta efetivamente que não há sinceridade no diálogo inter-religioso. É preciso sempre pedir aos responsáveis muçulmanos, quase implorando, denúncias e condenações. E hoje pudemos notar um certo silêncio por parte dos responsáveis muçulmanos diante da violência.

Mais exatamente, Dom Tauran se dá conta de que, se o diálogo inter-religiosa leva em conta unicamente a dimensão religiosa e não as identidades políticas e sociais, isso leva a um impasse. Ou seja, sempre se pode dizer que o Alcorão respeita isso ou aquilo, e que o Islã respeita o catolicismo, como a Igreja Católica respeita o Islã etc. No plano dos grandes princípios religiosos, nunca há problemas.

Mas as pessoas evoluem em uma situação social e política, e tudo acontece nesse nível. O erro foi pensar que o diálogo inter-religioso podia ser feito em Roma sob a forma de reuniões anuais, enquanto as violências ocorrem em outros palcos.

Mas a posição do Vaticano mudou também porque os próprios cristãos do Oriente pedem uma intervenção. Até então, eles estavam divididos e, muitas vezes, dependentes de regimes autoritários, como por exemplo os regimes baasistas na Síria e no Iraque. A Santa Sé era prisioneira dos pedidos de silêncio de uns ou de outros ao longo das últimas décadas. Agora, o conjunto dessas minorias se dá conta de que os Estados explodem, como na Síria, ou no Iraque, ou no Líbano.

Último fator: a reflexão sobre o Estado por parte da Igreja Católica está bloqueado há muito tempo. O período da Guerra Fria foi ocupado pela luta contra o comunismo e o marxismo. Não houve uma verdadeira reflexão no momento da queda do Muro de Berlim.

Em matéria de guerra e de paz, a Guerra Fria e a dissuasão nuclear monopolizaram a atenção da Igreja. Em 1983, as Conferências Episcopais se pronunciaram a respeito. Mas a dissuasão nuclear não é o alfa e o ômega da estratégia no nível das relações internacionais.

Redescobrimos, depois das esperanças suscitadas pela queda do Muro de Berlim, que o mundo continua instável, que a guerra não está obsoleta e que, portanto, somos obrigados a tomar posição em relação aos diversos tipos de guerra e ao uso de diversos tipos de armas.

A falta de reflexão do Vaticano foi nociva, e eu acho que estamos assistindo a um redespertar. Como um regime pode mudar? Como fazer com que ele evolua, por exemplo, em direção a uma maior democracia? A Santa Sé agora trabalha mais sobre esses problemas.

O Papa Francisco desempenha um papel importante nessa nova reflexão?

Francisco não é um especialista em relações internacionais. Mas eu tenho a impressão – e não é só uma impressão – que ele tomou consciência da importância para a Igreja de ter uma linha mais concreta e mais próxima do povo. É a sua linha de conduta geral. Dos divorciados aos homossexuais, até as questões de guerra, não podemos nos limitar a condenações gerais ou a referências a princípios globais.

No caso do Iraque, o Vaticano poderia se basear no direito internacional e na responsabilidade de proteger as populações. Hoje, a França, os Estados Unidos e o Reino Unido estão prontos para ajudar os curdos militarmente. O Vaticano poderia lembrar que as suas iniciativas devem se enquadrar no direito internacional.

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