O conflito com o Vaticano ofusca assembleia da LCWR

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06 Agosto 2014

Líderes religiosas americanas enfrentam um futuro incerto no momento em que se reúnem, entre os dias 12 e 16 de agosto em Nashville, no Tennessee, para a sua assembleia anual.

Representando suas congregações, mais de 800 líderes irão discutir como planejam reagir às acusações contínuas de infidelidade levantadas pelo carro-chefe da ortodoxia da Igreja, a Congregação para a Doutrina da Fé, e deliberar sobre os planos da Congregação doutrinal de assumir o controle da LCWR após a assembleia.

A reportagem é de Thomas C. Fox, publicada por National Catholic Reporter, 05-08-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

A Conferência de Liderança das Religiosas – LCWR (na sigla em inglês), que representa quase todas as congregações religiosas femininas nos Estados Unidos, vem sendo criticada pela Congregação para a Doutrina da Fé desde 2002. O encontro em Nashville será a terceira assembleia consecutiva da LCWR na qual as dissenções da Igreja ocupam o primeiro plano nos debates da organização.

As questões presentes no conflito possuem vários níveis, incluindo disputas sobre o papel da vida religiosa, a relação entre os religiosos e os bispos, questões de obediência e opiniões divergentes quanto às prioridades e missão da Igreja.

Sob todas estas questões há mais uma ainda: o papel das mulheres numa Igreja que mantém um sistema de autoridade masculina. O conflito entre a LCWR e a Congregação doutrinal se tornou a manifestação mais visível desta questão altamente sensível.

A Congregação postergou o prazo definido de 30 de abril para assumir o controle da LCWR. O cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, disse, numa dura declaração que reiterou as acusações vaticanas sobre as rupturas doutrinais da LCWR, que, a partir de agosto, a organização [LCWR] deve aprovar, junto de um bispo supervisor, os próximos palestrantes/oradores de suas assembleias bem como os seus homenageados.

Um olhar na história

Foi em 2009 que a Congregação para a Doutrina da Fé fez pela primeira vez uma “avaliação doutrinal” da Conferência de Liderança das Religiosas – LCWR.

Em abril de 2012, este departamento do Vaticano achou que a LCWR não conseguiu ter presente os ensinamentos da Igreja em suas assembleias, o que colocou o grupo sob a autoridade de Dom Peter Sartain, arcebispo de Seattle, religioso que fora designado como o “arcebispo delegado” possuindo as funções de revisar a carta constitutiva do grupo e restaurar sua fidelidade doutrinal.

Sartain e as religiosas deram início a uma série de reuniões a portas fechadas, as quais elas e Dom Sartain caracterizaram, em diversos momentos, como cordiais e francas. Sartain disse que “desenvolveu uma relação muito boa” com as lideranças do grupo.

A visita anual de algumas dessas religiosas aos escritórios do Vaticano no mês de abril ocorreu tudo bem. Relataram que tiveram uma recepção cordial nos vários escritórios vaticanos.

Porém este não foi o caso na Congregação para a Doutrina da Fé. Pelo que se disse, a reunião foi respeitosa mas difícil também, tendo seu tom determinado por uma fala inicial feita pelo cardeal Müller, prefeito da Congregação nomeado ainda pelo Papa Bento XVI.

Müller foi bastante crítico com as religiosas, acusando-as de ter uma teologia errante e de violarem a boa-fé.

Disse que as religiosas americanas passaram por cima dos bispos americanos ao escolherem homenagear Elizabeth Johnson, teóloga da Universidade de Fordham e irmã da congregação de São José. (A homenagem será feita durante a assembleia a ocorrer neste mês de agosto.)

Müller citou este caso como uma prova de que as irmãs não estavam querendo respeitar o processo de reforma apresentado pelo Vaticano em 2012.

Ainda que a homenageada da LCWR seja uma teóloga altamente reconhecida, em março de 2011 a Comissão para a Doutrina, da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA, criticou-a por seu livro “Quest for the Living God: Mapping Frontiers in the Theology of God” [A busca pelo Deus vivo: Mapeando fronteiras na teologia sobre Deus]. Embora apoiada por seus colegas teólogos e companheiros na Fordham, a Comissão considerou o livro como sendo repleto de “distorções, ambiguidades e erros”.

As observações de Müller às irmãs revelou uma frustração considerável. Em sua fala, traçou um limite dizendo que a LCWR precisaria buscar a aprovação de Sartain para qualquer homenageado pela organização ou palestrante em seus encontros.

Uma questão de integridade

Para as religiosas que dizem querer ficar nos conformes e, ainda assim, manter sua integridade enquanto discutem as divergências com os bispos, este prazo posto pela Congregação para a Doutrina da Fé acaba fazendo pressão. Com grande maioria dos votos, uma assembleia da LCWR aprovou em 2012 trabalhar ao lado de Sartain, mas disse que iria “repensar caso a LCWR fosse forçada a comprometer a integridade de sua missão”.

Sartain irá estar presente na assembleia de Nashville e, mais uma vez, estão planejadas conversas privadas entre ele e as religiosas.

Este tem sido um período difícil para a Conferência de Liderança das Religiosas – LCWR, que reúne cerca de 1500 religiosas, as quais representam cerca de 90% das mais de 50 mil religiosas nos Estados Unidos. A organização diz ter sido forçada a deslocar os recursos limitados das atividades congregacionais em curso para a defesa de sua reputação, para não dizer de sua próxima existência como uma organização religiosa independente.

O efeito psicológico também fica evidente: um grupo que se orgulhava de liderar, sem medo, e de ter uma transparência exemplar hoje se encontra com mais restrições para com a mídia do que a maioria das organizações católicas, incluindo a conferência dos bispos americanos.

A LCWR continua a adotar um desenvolvimento que evolui a partir de uma contemplação orante e de discussão entre os membros. No centro de sua missão está o desejo de ajudar as religiosas a compreenderem como as comunidades religiosas devem responder ao Evangelho na sociedade contemporânea.

Para isso, através de uma pesquisa envolvendo as congregações membros, as líderes da LCWR escolheram a irmã franciscana Nancy Schreck, ex-presidente da LCWR, para conduzir a organização por meio de seu processo de discernimento.

Irmã Nancy conhece bem o cenário LCWR/Vaticano. O assunto que irá tratar, diz ela ao National Catholic Reporter, tem o objetivo de induzir uma atmosfera contemplativa na qual as mulheres possam refletir sobre o seu futuro juntas. Nancy passou cerca de 20 anos trabalhando com jovens vulneráveis na região rural do Mississippi. Ela exemplifica o compromisso pastoral que chegou a caracterizar a LCWR, em particular, e as religiosas americanas em geral.

Disse que o título de sua fala – baseado num provérbio africano, segundo do qual “não importa o quanto durar a noite, o dia sempre irá raiar – não se refere especificamente à situação entre o Vaticano e a LCWR. Pelo contrário, afirmou, ela quer explorar o mistério. “Grandes mistérios a nós se revelam na escuridão. A noite não necessariamente é uma coisa má”.

Quando pedimos a ela para desenvolver a ideia, acrescentou: “Certa vez, um sábio professor me disse que o mistério não é algo incognoscível, mas, antes, cognoscível ao infinito”.

Embora o conflito da LCWR com a Congregação para a Doutrina da Fé não possa estar distante da maioria das irmãs que vêm para Nashville, Nancy diz que muitas delas “não querem se focar sobre a avaliação [doutrinal]. Elas querem se centrar no trabalho que desenvolvem”.

A ausência de Francisco

Muitos observadores esperavam que o Papa Francisco intervisse na situação. O líder máximo vem incentivando os membros da Igreja a assumirem riscos. Em tom de brincadeira, falou a líderes religiosos latino-americanos para não se preocuparem com as diretivas que poderiam receber da congregação doutrinal da fé. Disse que a obra da Igreja deve acontecer nas margens da sociedade. Falou para os bispos se centrarem menos na questão do aborto e do uso de métodos contraceptivos, e mais na misericórdia e no serviço aos necessitados.

Em cada caso, o papa resumiu uma igreja bastante parecida com a que as religiosas americanas se comprometeram em construir há 40 anos mais ou menos. É por isso que muitos observadores têm dificuldades em compreender por que o Papa Francisco não intervém para aliviar a carga das irmãs que compõem a Conferência de Liderança das Religiosas – LCWR.

A ironia é que Francisco poderia ter se colocado a intervir, caso não estivesse focado nos casos dos bispos que permitiram abusos sexuais por parte do clero e que fizeram um mau uso das finanças da Igreja.

As religiosas que vêm para Nashville parecem se dividir em dois grupos, embora não necessariamente exclusivos. Algumas gostariam de deixar de lado as discussões com a Congregação para a Doutrina da Fé e com Sartain. Apesar das boas intenções, defendem que os dois lados permanecem distantes um do outro, com nenhum sinal de que poderão superar o abismo. Este grupo considera que, pelo fato de o bispo ter aumentado o seu controle da LCWR, a organização perdeu toda a sua integridade.

O outro grupo concorda que, de maneira geral, a situação parece sombria, mas quer dar mais tempo para o papa espalhar sua influência dentro do Vaticano. As que assim pensam querem ser solidárias com o papa e percebem que este poderia ser a única chance que possuem para uma verdadeira renovação na instituição.

A escolha tanto da Irmã Nancy quanto da Irmã Elizabeth Johnson para falarem às religiosas em assembleia representa a variedade de opinião e a diversidade de abordagens entre elas.

A LCWR celebra um estilo democrático de governança. É difícil saber o que sairá de Nashville antes do fim das sessões, depois que as conversas terminarem e forem votadas. No entanto, isto parece estar claro: é pouco provável que a saga da LCWR terá um fim no Tennessee.

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