Francisco agradou em Caserta. Mas, no resto do mundo pentecostal, não

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05 Agosto 2014

No discurso dirigido em Caserta ao pastor Giovanni Traettino e à sua comunidade pentecostal, o Papa Francisco abordou assim a "unidade na diversidade" entre os cristãos: "Nós estamos na era da globalização e pensamos no que é a globalização e em que seria a unidade na Igreja: talvez uma esfera, onde todos os pontos estão equidistantes do centro, todos iguais? Não! Essa é a uniformidade. E o Espírito Santo não faz uniformidade! Que figura podemos encontrar? Pensemos no poliedro: o poliedro é uma unidade, mas com todas as partes diferentes; cada uma tem a sua peculiaridade, o seu carisma. Essa é a unidade na diversidade. É nesse caminho que nós, cristãos, fazemos o que chamamos pelo nome teológico de ecumenismo".

A reportagem é de Sandro Magister, publicada no blog Settimo Cielo, 02-08-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Não é fácil harmonizar essa metáfora do "poliedro" com o que foi afirmado pela declaração Dominus Iesus de 2000, pedra angular do magistério dos dois últimos papas:

"Os fiéis não podem imaginar a Igreja de Cristo como se fosse a soma – diferenciada e, de certo modo, também unitária – das Igrejas e Comunidades eclesiais; nem lhes é permitido pensar que a Igreja de Cristo hoje já não exista em parte alguma, tornando-se, assim, um mero objeto de procura por parte de todas as Igrejas e Comunidades. Os elementos desta Igreja já realizada existem, reunidos na sua plenitude, na Igreja Católica e, sem essa plenitude, nas demais Comunidades."

Em todo caso, deve-se notar que o generoso gesto de abertura feito pelo Papa Francisco não foi acolhido pelo conjunto do vasto mundo "evangélico" e pentecostal com o mesmo favor mostrado pela comunidade de Caserta.

Ao contrário, as reações foram, em quase toda a parte, de desconfiança e de rejeição.

Prova disso é a declaração emitida no dia 19 de julho em Aversa pela liderança da Aliança Evangélica Italiana, das Assembleias de Deus na Itália e pela Federação das Igrejas Evangélicas e Pentecostais, ou seja, da quase totalidade do pentecostalismo italiano [disponível aqui, em italiano].

Outra prova disso é a entrevista que segue, com o teólogo evangélico Pietro Bolognesi (foto), professor de teologia sistemática no Instituto de Formação Evangélica e Documentação de Pádua, além de membro da Comissão Teológica da Aliança Evangélica Mundial.

Eis a entrevista.

Comecemos com a declaração que a AEI, a ADI, a FCP, a Igreja Apostólica e as Congregações Pentecostais assinaram juntas no dia 19 de julho. Já tinha acontecido algo semelhante?

Esse encontro e esse comunicado foram um dom de Deus que eu não acredito que já tenha sido realizado antes. Ver as grandes famílias do evangelismo italiano assinarem uma tomada de posição comum sobre o Evangelho e sobre as necessárias distinções no que diz respeito às tentativas de abraço do catolicismo é um testemunho de como a unidade evangélica é difícil, mas possível, se no centro estiver o Evangelho. Os signatários são, acima de tudo, evangélicos. Essa é a identidade comum e primária. Depois, na casa evangélica, há outras facetas particulares, mas o peso unitário daquele comunicado está no fato de ter valorizado o sentir evangélico comum. Rezo para que esse seja o primeiro passo de uma nova era de unidade evangélica no nosso país.

Alguns viram os tons do documento como excessivamente negativos.

O Evangelho contém "sins" e "nãos". Sim à Palavra de Deus, não às tradições humanas que querem colocar freios nela. Sim à graça de Deus, não às mediações humanas. Enquanto afirma a verdade de Deus, o Evangelho deve negar a mentira. Por isso, é preciso desconfiar daqueles que dizem que é preciso ser sempre positivo. Com respeito, deve-se dizer a verdade, mesmo a sua parte incômoda.

Que ressonâncias o documento teve no mundo internacional?

Muitos sites estrangeiros o retomaram em mais línguas, e o debate gerado foi interessante. A Aliança Italiana está comprometida também em relação à Aliança Evangélica Mundial, que, justamente sobre as relações com o catolicismo, conhece uma fase de anseio. O comunicado nos permitiu dizer ao mundo aquilo que a grande maioria dos evangélicos italianos pensa sobre o catolicismo.

Passemos para a visita do papa ao pastor Traettino. O que mais chamou a sua atenção sobre o evento?

Eu diria duas coisas: o pedido de perdão e a ênfase na diversidade reconciliada como pista para o ecumenismo do futuro.

Por que o pedido de perdão lhe surpreendeu?

Para além da retórica do perdão, pareceu-me um ato superficial e confuso. Os procedimentos contra os pentecostais foram tomados pelo governo fascista, não pela Igreja Católica. No máximo, a Igreja Católica é responsável por séculos de oposição à liberdade religiosa, mas, sobre isso, o papa ficou mudo. Depois, ele falou de pecados de católicos individuais, não pondo em discussão, portanto, a ideia católica de que a Igreja é indefectível. Todo pedido de perdão deve conter também um ato de reparação. O que o papa disse sobre a liberdade religiosa na Itália e sobre o fato de que a sua Igreja é o principal obstáculo à igualdade dos cultos na Itália? Nada, me parece. O fascismo acabou, as perseguições também, mas a liberdade religiosa ainda é um tema quente, e Francisco foi reticente.

Mas ele disse que os pentecostais não são uma "seita"!

Sim, esse é um impulso positivo. Ao contrário de João Paulo II e de Bento XVI, que habitualmente falavam dos evangélicos (ou seja, dos evangélicos e pentecostais) como de uma "seita", essa é uma novidade. Por que Francisco não pediu desculpas pela linguagem depreciativa dos seus antecessores, em vez de pedir perdão confusamente?

Ele também disse que a unidade não é uniformidade, mas unidade na diversidade.

E citou, sem nomeá-lo, Oscar Cullmann. A "diversidade reconciliada" é um paradigma ecumênico, segundo o qual as Igrejas se aceitam como são. Mas como é possível aceitar a Igreja Católica como uma denominação qualquer? É uma Igreja que tem um Estado no seu coração, que tem uma instituição imperial como o papado no seu centro, que tem uma série de dogmas antibíblicos que são imutáveis, que tem um sistema sacramental que promove devoções que desviam a atenção de Cristo... Em suma, como se faz para aceitar ser "reconciliados" com essa realidade? A unidade está na verdade de Cristo, não na aceitação recíproca das diferenças, sejam elas quais forem.

Qual é, então, o paradigma que deve orientar a relação com o catolicismo?

O documento de Singapura da Aliança Evangélica Mundial de 1986 diz que não é possível uma reconciliação com Roma sem uma reforma segundo o Evangelho. Enquanto não ocorrer uma verdadeira conversão à Palavra de Deus da instituição católico-romana, não é possível qualquer unidade. Podem-se encontrar formas de cobeligerância, pode-se dialogar, mas a unidade ocorrerá se o Evangelho de Jesus Cristo reformar as estruturas de base dessa realidade.

Qual o senhor acha que será o impacto imediato da visita sobre o testemunho evangélico?

Eu penso em duas coisas: por um lado, aumentará a pressão in loco para participar da Semana Ecumênica da Unidade dos Cristãos. Dir-se-á: "Se o papa foi ao encontro dos evangélicos, por que os evangélicos não podem ir ao encontro do papa?". Aumentará o impulso para participar do ecumenismo espiritual da oração comum com o movimento ecumênico. As Igrejas evangélicas terão que vigiar para não se deixar enredar nessas iniciativas que tomam como certo que estamos todos unidos. Na realidade, o ecumenismo verdadeiro, o dos filhos de Deus, foi introduzido em tempos modernos pela Aliança Evangélica em 1846 e, desde então, a Semana Mundial de Oração da Aliança é um grande recurso para viver a unidade que já existe entre os crentes nascidos de novo. Desejo que as Igrejas promotoras do comunicado do dia 19 de julho se encontrem nessa Semana e se mantenham longe da Ecumênica. De modo mais geral, temo que será cada vez mais difícil sustentar a ideia de que as instâncias do Evangelho devem romper os esquemas religiosos humanos. Se o papa abraçou os evangélicos, como estes últimos poderão criticar as formas idolátricas do catolicismo? O abraço do papa poderá ser uma mordaça à franqueza evangélica.

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