Geração de energia nuclear cai quase 7% em 17 anos

Revista ihu on-line

Gauchismo - A tradição inventada e as disputas pela memória

Edição: 493

Leia mais

Financeirização, Crise Sistêmica e Políticas Públicas

Edição: 492

Leia mais

SUS por um fio. De sistema público e universal de saúde a simples negócio

Edição: 491

Leia mais

Mais Lidos

  • As religiões morrem, mas o catolicismo sobreviverá: menos europeu e mais global

    LER MAIS
  • As "últimas conversas" de Ratzinger: do "gosto pela contradição" ao "prazer do encontro". Artigo

    LER MAIS
  • O toque de recolher das mulheres brasileiras

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

01 Agosto 2014

O novo ‘Relatório Mundial de Status da Indústria Nuclear – Uma avaliação independente dos avanços nucleares no mundo’ afirma que esse tipo de energia está em declínio, caindo de 17,5% da geração total de energia em 1996 para 10,8% em 2013.

A reportagem é de Fernanda B. Muller, publicada pelo CarbonoBrasil, 31-07-2014.

Atualmente, 388 reatores estão em operação, 50 a menos do que em 2002, quando foi registrado o maior número até agora. A fatia global da fonte nuclear na produção comercial de energia primária caiu ainda mais em relação a 2012, de 4,5% para 4,4% neste ano, um nível não alcançado desde 1984.

A nova publicação, produzida por pesquisadores independentes, também mostra que a capacidade total instalada atingiu seu pico em 2010 com 376 GW antes de declinar para o nível atual, sendo que muitos projetos foram cancelados e novos programas indefinidamente adiados.

Além da redução no número de reatores ativos, o relatório constatou que eles estão envelhecendo, sendo que a idade média em julho de 2014 era de 28,5 anos.

Uma inovação importante do relatório é que ele nota que há distorções nas estatísticas mundiais sobre a energia nuclear devido “a motivações políticas”. Três anos após o trágico acidente em Fukushima, os dados da geração nuclear no país continuam sendo “mal-representados”, já que os 48 reatores japoneses atualmente inativos devido à pressão pós-acidente são considerados pela Agência Internacional de Energia Atômica como “em operação”. Isso equivale a 11% do que a AIEA considera como a ‘frota’ nuclear mundial.

Para contornar essa divergência, os autores resolveram adotar o conceito de Long-Term Outage (LTO). Um reator é considerado em LTO se não gerou nada de energia em todo o ano anterior e no primeiro semestre do atual ano.

O Greenpeace comemorou a nova publicação e seus dados: “Quando iniciamos o blog ‘reação nuclear’ em 2008, tudo o que a indústria nuclear e seus apoiadores falavam era da iminência da ‘renascença’ nuclear – um boom na construção de novos reatores após anos de estagnação.”
A Associação Nuclear Mundial chegou a prever que 11 mil novos reatores seriam construídos até o final do século, lembra a ONG. Mas o relatório mostra que algo mudou.

Em julho de 2014, 67 reatores estavam sendo construídos, um a mais que no ano anterior, com uma capacidade total de 64 GW. O Greenpeace ainda lembra que o tempo médio de construção das unidades é de sete anos, porém, oito reatores já estão em construção há mais de 20 anos. Pelo menos 49 tiveram atrasos, em grande parte significativos.

Dois terços das unidades em construção estão em três países: China, Índia e Rússia.
“Considerando o baixo nível de desenvolvimento nuclear nos últimos 15 anos, é surpreendente que órgãos como a Agência Internacional de Energia continuem a presumir em seus cenários de descarbonização que haverá um aumento significativo no uso de energia nuclear”, conclui o relatório.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que mudou?

O relatório mostra que, na França, os custos da geração de energia nuclear subiram 16% em termos reais em três anos, e que várias unidades foram fechadas nos Estados Unidos porque a receita já não cobria mais os custos operacionais. A sobrevivência econômica das usinas nucleares também está ameaçada na Bélgica, Alemanha e Suécia.

Além disso, é apontado que as energias renováveis estão tomando o espaço da nuclear. Apenas em 2013, 32 GW de fontes eólicas e 37 GW de solar foram adicionados à rede mundial de energia. Até o final de 2013, a China tinha uma capacidade instalada de 91 GW de eólicas e 18 GW de solar, superando pela primeira vez a nuclear – o país adicionou quatro vezes mais energia solar do que nuclear no último ano.

Pela primeira vez, as turbinas eólicas se tornaram a maior fonte geradora de energia na Espanha e na Alemanha.

É interessante ressaltar que o relatório comenta sobre o tão falado fator de variabilidade na geração das fontes renováveis, como eólica e solar, combatendo esse argumento. No caso da energia nuclear, a publicação aponta que as usinas não operam continuamente, e, inclusive, grande parte tem passado por desligamentos não planejados durando mais de um ano.
A variabilidade na geração renovável geralmente pode ser projetada tão precisamente quanto se prevê a demanda por eletricidade, pondera o relatório ressaltando que mesmo assim, “a energia eólica e solar estão se tornando significativas”.

Fukushima

A situação dos reatores da usina de Daichii em Fukushima é considerada como instável. Terremotos continuam e as pessoas permanecem preocupadas que um abalo maior do que o de março de 2011 possa ocorrer.

O governo afirma que levará 40 anos para retirar do local o combustível nuclear dos três reatores danificados, porém, como citado anteriormente, a unidade é frágil, constatam as avaliações.

O relatório traz uma lista de desafios que Fukushima ainda tem que enfrentar. Entre eles está lidar com enormes quantidades de água radioativa geradas cotidianamente. Mais de mil tanques foram construídos no local, e muitos estão vazando.

Além disso, é preciso garantir que os reatores e edifícios danificados suportem potenciais terremotos muito mais potentes, esvaziar piscinas no 4º e 5º andar, que estocam combustível usado, e transferi-lo para locais seguros, descobrir onde os invólucros dos reatores estão quebrados, impedir vazamentos para o subsolo, oceano e atmosfera, entre outros.

Tudo isso precisa ser feito em meio a uma severa falta de mão de obra, já que os operadores mais capacitados estão rapidamente atingindo seu limite de exposição à radiação.

Américas

Em nosso continente, o relatório aponta que a Argentina atualmente opera três reatores nucleares. O mais recente foi conectado à rede em 27 de junho de 2014.

O Brasil tem dois reatores ativos que forneceram 13,8 TWh em 2012, ou 2,8% da produção total (em 2001 a fatia era de 4,3%). Porém, uma terceira usina está em construção desde 1984 com interrupções, a chamada Angra-3.

Segundo o relatório, em 2010 a Comissão de Energia Nuclear do Brasil emitiu uma licença para a retomada da construção. Em 2011, o BNDES aprovou R$ 6,1 bilhões para os trabalhos e, em novembro de 2013, a Eletronuclear assinou um contrato de € 1,2 bilhão (cerca de R$ 3 bilhões) com a francesa AREVA para completar a usina, que deve estar pronta em 2018.